Produtividade piora apesar da forte retoma do investimento

Banco de Portugal diz que paragem no investimento dos últimos anos prejudica a produtividade atual. E avisa que apostar demais na construção pode não ser a melhor opção

A produtividade aparente do trabalho piorou no primeiro trimestre deste ano, apesar da forte retoma do investimento e da reposição dos níveis salariais, mostram cálculos do DN/Dinheiro Vivo com base nos dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Seja qual for a forma usada para medir a produtividade (e há várias), todas mostram que, apesar da retoma da economia, esta não está mais produtiva e que a tendência desfavorável até vem de trás.

O Banco de Portugal suspeita que o problema não esteja tanto nos salários, mas mais na falta de investimento (capital). O capital novo (investimento fixo) cai brutalmente nos anos da crise e do ajustamento (entre meados de 2008 e de 2013), mas depois disso a recuperação parece ter sido tímida, não sendo suficiente sequer para compensar a depreciação do capital, repara o banco central.

O indicador de produtividade média aparente laboral, que no fundo pode ser o produto interno bruto (PIB) gerado por cada trabalhador num terminado período (a preços correntes ou constantes) ou o valor acrescentado bruto da economia ou de um setor de atividade dividido pelo número de empregados (como faz o Banco de Portugal), está estagnado (calculado a preços correntes, com inflação) ou a cair, se calculado a preços constantes, tirando a inflação.

Tomando como medida de referência o PIB, a produtividade média subiu apenas 0,2% no primeiro trimestre (preços correntes). E estava a cair 0,4% (constantes).

Usando o VAB, estava a cair nos dois casos (-0,3% e -1,1%, respetivamente). O setor primário, onde está a agricultura, a pesca e a floresta, registou uma quebra de 3,3%. Nos serviços, caiu 1,3%. Apenas a indústria (onde se inclui a construção) consegue contrariar a tendência, com mais 3,1%.

O investimento no setor da construção registou um crescimento notório de 8,5% nos primeiros três meses deste ano, o melhor registo desde 1998, puxando pelo investi- mento fixo total que bateu um recorde igual: avançou 8,9%. O setor das obras foi ainda o que mais cresceu em valor acrescentado (7,4%), apoiando a retoma.

Mas, pelos vistos, isso não se refletiu na produtividade. "Os reduzidos níveis de capital concorrem para o fraco desempenho da produtividade do trabalho na economia portuguesa", concluem os economistas do BdP, num estudo divulgado em maio. E dizem mais: "As explicações são complexas, podendo relacionar-se com as alterações da estrutura produtiva, num contexto em que os níveis de capital por trabalhador permanecem reduzidos, após vários anos com baixos níveis de investimento."

Acontece que a retoma recente do investimento pode não ser a mais adequada às necessidades da economia. Segundo uma análise "muito elementar" do Banco de Portugal, a economia "do país tem a maior proporção de estruturas [investimento em construções] no stock de capital, o que implica necessariamente um menor peso do equipamento em máquinas e dos bens intangíveis". O estudo frisa que "estas últimas categorias tendem a estar associadas a maiores taxas de rendibilidade, pelo que parece existir margem para melhorar a composição do stock de capital nacional".

No estudo sobre Portugal no âmbito do semestre europeu, a Comissão Europeia aponta que a falta de qualidade dos balanços dos bancos "impede uma afetação produtiva do crédito e investimento".

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