Processo de compra da Media Capital na AdC pode deslizar até março

Grupo Altice já segue a estratégia de convergência entre telecom, media e publicidade digital em mercados como França e Estados Unidos

O objetivo da Altice era ter a compra da Média Capital concluída nos reguladores até ao final do ano, mas o grupo francês dono do Meo já admite que o fecho da operação de mais de 440 milhões de euros possa vir a derrapar para o primeiro trimestre do próximo ano, de acordo com fontes próximas do processo ouvidas pelo DN/Dinheiro Vivo.

A discussão pública que a compra do grupo da TVI está a gerar, com a concorrência, como a NOS e a Vodafone, a levantarem questões a nível do impacto da concorrência no mercado português, vai levar a que a Autoridade da Concorrência, o regulador que agora tem em mãos o negócio e voto decisivo na matéria, queira ser ainda mais "minuciosa" na sua análise, acreditam fontes próximas da operação.

Resultado? Um atraso de três meses até haver uma decisão do regulador.

A não decisão da ERC foi muito criticada pela NOS, que considerou o voto do presidente no conselho regulador dos media, Carlos Magno, "incompreensível". Magno votou vencido, contra o voto negativo dos dois restantes membros do conselho regulador.

Paulo Azevedo, da Sonae, politizou mesmo o negócio e classificou, numa entrevista ao Expresso, a venda da televisão generalista como uma "aberração" que deve ser travada pela Assembleia da República. Antes, já tinha referido que o negócio tinha potencial para ser uma Operação Marquês dez vezes maior. A Altice já respondeu e diz que vai avançar com uma ação contra o empresário.

As questões de pluralismo dos media serão particularmente esmiuçadas pela Concorrência. A compra dos ativos da Média Capital, juntando-os ao Meo, poderá dar posição dominante à Altice, acreditam fontes próximas da operação. Mas lembram que, em Portugal, a Altice não detém ativos de média além do portal Sapo.

A estratégia de convergência entre telecom, media e, mais recentemente, publicidade digital, que o grupo de Patrick Drahi quer levar a cabo em Portugal não é inédita: em mercados como França e EUA já detém jornais, como o Libération, rádios ou canais locais de TV no estado de Nova Iorque.

Se a estratégia de expansão passa pelos conteúdos, o foco de crescimento vai ser o digital. Colocar conteúdos da TVI no máximo de plataformas possível, inclusive digital, estará nos planos da companhia. Fontes próximas do negócio admitem mesmo que, quando avançar o concurso para incluir mais canais na TDT (plataforma que é gerida pelo Meo), a Altice poderá concorrer colocando o TVI 24, até aqui apenas no cabo, em sinal aberto para captar uma fatia do bolo publicitário. Criar mais canais locais, à semelhança do estado de Nova Iorque, como o 12 News Channel, foi igualmente referido por fontes ouvidas pelo DN/Dinheiro Vivo.

Produzir mais conteúdos em português, levá-lo para o mercado externo faz também parte dos planos, tem vindo a garantir o grupo. Fontes próximas do negócio referem mesmo que, no que toca a produção televisiva, o objetivo passa por transformar a produtora Plural numa espécie de Altice Labs, o centro de inovação do grupo em Aveiro, na área da produção, potenciando as instalações e o conhecimento técnico do pessoal em produções para todo o grupo.

Mas é para o digital que o grupo olha com muita atenção. É um mercado em explosão, e querem com a Teads criar soluções publicitárias tailor made para as marcas. E nos Estados Unidos já estão a unir o conhecimento dos clientes de TV com os recursos do digital. Com a compra da TVI, juntando o Sapo e o IOL, a Altice poderá ganhar uma mais-valia nesse campo.

Manter plataformas de canais com a TVI aberta à concorrência e disponibilizar no Meo os canais concorrentes são promessas que o grupo tem referido. Fontes ouvidas pelo DV dão o exemplo do compromisso alcançado no futebol, em que os operadores têm acesso a todos os conteúdos como sinal da abertura em manter os conteúdos num regime não exclusivo.

Mas este foi um caso em que o braço-de- -ferro entre operadores foi duro e motivou corrida a conteúdos, com a NOS a fechar com o Benfica e o Sporting, depois da Meo fechar com o FC Porto. E, para ter acesso aos conteúdos, a Meo teve de aceitar o memorando de entendimento já firmado entre NOS e Vodafone.

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