O palavrão que vai trazer o futuro às empresas já

Digitalizar a economia e tornar Portugal mais competitivo e inovador são prioridades para ontem. A indústria 4.0 não é teoria - a Cotec está a ajudar as empresas a concretizar essa mudança

Na era pós-Revolução Industrial, a máquina de lavar roupa foi a invenção com maior impacto social na Europa. Imagine a logística - e a inacreditável quantidade de tempo necessário - para lavar a roupa de uma família inteira quando não havia forma de fazê-lo senão à mão, no tanque, no alguidar ou na corrente de água mais próxima. Com a invenção e produção em escala do motor elétrico, no início dos anos 1900, em poucas décadas a máquina de lavar tornou-se um bem comum nos países europeus, e cada vez que uma entrava numa casa, isso significava que as mulheres que ali viviam ganhavam muitas horas por semana que podiam passar a ocupar com outras atividades - incluindo um maior foco na educação, formação, aquisição de competências ou trabalho.

Hoje, Portugal vive também um momento de transformação determinante para a economia. A revolução digital já entrou na nossa realidade, mas desta vez são empresas, trabalhadores e até decisores políticos que têm de fazer caminho para deixarmos de ser arrastados na corrente e começarmos a tirar o melhor partido da indústria 4.0, transformando o país num polo verdadeiramente inovador e competitivo a nível europeu. O que significa ganhar eficácia, reduzir perdas, melhorar procedimentos, mas também fazer um investimento prioritário na formação.

Portugal arranca com algum atraso, relativamente à Alemanha, por exemplo (ver caixas ao lado), mas a Plataforma Indústria 4.0 está aí para compensar o tempo perdido e concretiza-se num modelo único na Europa, uma parceria público-privada em que a Cotec tem lugar determinante, enquanto coordenadora operacional da implementação da estratégia, monitorizadora de tipos e áreas de investimento, de evolução de projetos, de ajuste de mecanismos e de medição de retornos.

Transformação em curso

O diagnóstico está feito. Para transformar digitalmente as empresas portuguesas, é preciso um investimento da ordem dos cinco mil milhões de euros até 2020, estando definido que metade desse financiamento a projetos concretos virá de fundos públicos e o restante de privados e bancos empenhados em criar estruturas de financiamento para projetos de inovação digital. Reparte-se assim risco e esforço efetivo de lançamento de projetos. Claro que a i4.0 não se esgota na reprogramação de fundos, estendendo-se até às normas regulatórias. Tome-se a área da cibersegurança, por exemplo, se a inovação já levanta problemas, estes serão maiores quando entrar em vigor a diretiva europeia Network Information Systems, que estabelece a responsabilidade das empresas sobre a constituição de mecanismos de resiliência e proteção de dados e informação sensível de clientes e report de ocorrências (prevendo multas pesadíssimas para quem não cumpra). Se uma PME pode ganhar 30% de eficácia com a digitalização (controlando a fábrica a partir do telemóvel, por exemplo) mas isso significar aumentar o risco em 60% (para usufruir de mais informação e conectividade, tenho de ser implacável na capacidade de proteger os dados de que sou fiel depositário), avançará? O papel da Cotec passa também por criar condições para a resiliência arrancar, transformando os receios dos gestores em confiança - e assim impulsionar a digitalização.

Concretização de projetos

Resumidamente, são quatro os planos de ação da Cotec na Plataforma Indústria 4.0, começando no modelo de monitorização e na criação de grupos de trabalho em áreas fundamentais, passando pela introdução de um score card que permita medir os progressos feitos no país (único na Europa) e terminando num modelo de ferramentas de maturidade para as empresas poderem identificar pontos fortes e fracos que potenciam ou são um risco na concretização do aumento no seu grau de digitalização.

Para garantir uma reflexão o mais abrangente e representativa possível, mas também dada a urgência da transformação que o país precisa de empreender, a Cotec sentou-se à mesa com organismos públicos (Iapmei, AICEP, Turismo de Portugal, Instituto do Emprego e da Formação Profissional, Instituto Português da Qualidade, etc.), grandes empresas e midcaps de áreas diversificadas (incluindo PT e NOS, BCP e BPI, grupos Mello e Navigator, SIBS, Martifer, ANF, Embraer e REN) para delinear prioridades de investimento e incorporação de práticas geradoras de mudança. O envolvimento público garante que os projetos aprovados estão prontos a receber fundos e avançar.

Setores interligados e desafios

Tendo por base 64 medidas lançadas em janeiro - do marketing à logística, automatização de processos, fábricas inteligentes, etc. -, algumas já em curso, o Conselho Estratégico da Plataforma i4.0 reuniu-se pela primeira vez esta semana (foto) e voltará a encontrar-se em janeiro. As reuniões acontecerão em ciclos curtos, de quatro meses, para avaliar o impacto dos programas - o retorno que pode vir da eficiência dos agentes que os implementam, da produtividade ou de ambos -, produzindo informação concreta em tempo útil para ajustar, concretizar resultados e integrar recomendações sobre onde é preciso acelerar ou investir mais, na lógica das melhores práticas europeias. Um exemplo? A inteligência artificial aplicada à cibersegurança é uma área em que há pouco investimento público e que é urgente reforçar.

Relevante neste processo é ainda a complementaridade de setores e competências, cada vez mais uma realidade na reorganização da economia - a saúde mistura-se com tecnologias de informação e devices que facilitam a marcação de consultas, permitem escolher unidades, especialistas, etc.

O que muda para as pessoas: robôs não vão roubar empregos mas formação é prioridade

Ver a TED Talk em que Garry Kasparov conta como perdeu e como ganhou jogos de xadrez contra máquinas construídas para o derrubar é sempre recomendável. Sobretudo para concluir que o mito homem vs. máquina realmente não existe. A inteligência artificial não vai deixar-nos a todos sem emprego por duas razões: criatividade e inteligência humana são essenciais à criação de máquinas cada vez mais inteligentes; em muitos modelos de negócio a componente humana é que traz valor acrescentado. E não é preciso ser cientista para isto ser verdade - numa era em que a automação é regra, só produtos de alto valor acrescentado terão intervenção humana. Na indústria automóvel: as melhores marcas estão a contratar para garantir que os interiores dos carros têm a qualidade única de um produto manufaturado. Ainda assim, numa economia em que todos têm de estar qualificados para trabalhar com máquinas ligadas e muito mais densidade de informação, será preciso requalificar toda a força de trabalho - um esforço estimado em 50 mil trabalhadores mas que a Cotec diz ter de ser dez vezes superior. Com mão-de-obra altamente qualificada a baixo preço, Portugal já tem uma carência de 10% de empregados no topo da pirâmide para cobrir necessidades de investimento

O que muda para as empresas: digitalizar para ter mais eficiência e competitividade

Quando Angela Merkel chegou à feira de Hanôver, em 2011, lançou um alerta aos empresários que se resumia a qualquer coisa como: a digitalização é importante e pode pôr-vos fora do negócio. Traduzindo: as máquinas daqueles fabricantes tendencialmente perderiam cada vez mais valor, por comparação com a plataforma a que estavam ligadas (o iPhone retrata-o bem). Neste ano, a chanceler mostrou a sua satisfação aos fabricantes por terem respondido ao desafio: da Siemens à Bosch, só se falava de plataformas, dados, conectividade, digitalização, i4.0. Em Portugal, é preciso criar condições ideais para a vaga de digitalização acontecer e as empresas extraírem mais informação, conseguirem integração e automação e utilizarem instrumentos para tomar melhores decisões e mais rápidas. Os gestores têm de validar se estão preparados para ter fábricas totalmente conectadas, avaliando requisitos e sendo capazes de entender em que áreas isso criará ou destruirá valor - numa empresa com processos de gestão desorganizados, digitalizar pode criar mais entropia do que eficiência. O desafio para a estratégia de negócio - a que a Cotec vai ajudar a responder - é dar às empresas instrumentos para determinarem onde e como investir, como financiar projetos e que retorno esperar.

O que muda para o país: decisores políticos têm de adaptar conhecimentos

O recente Eurobarómetro sobre Automação na Europa tem conclusões curiosas - e assustadoras. Os portugueses, como os espanhóis e os gregos, estão entre os que menos contacto têm com robôs (30%, contra os 80% dos nórdicos) e lideram os que acreditam que eles vão roubar-nos o emprego (90%). Para haver mudança na perceção, os decisores políticos têm um papel determinante, que passa por assumirem com clareza o investimento que se quer fazer na i4.0. São 2,5 mil milhões de euros até final de 2020, arrastando fatia semelhante de capitais privados e financiamento bancário, e é preciso certezas quanto às áreas de investimento prioritário, implicações dessas medidas noutros organismos de política pública - para que se concretize -, determinação de retornos, etc. Como se mede isto? Em produtividade conseguida, em eficiência, em capacidade exportadora, em produtividade, em formação. E neste ponto essencial, se a qualificação de empregados e gestores é muito relevante, a de decisores políticos é absolutamente incontornável. Só com projetos, condições e impulsos à inovação podemos realmente ter uma indústria 4.0 eficaz. E é por aí que passa o futuro do país: empresas mais digitalizadas, economia que crescem mais.

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