Nunca houve tantos a ganhar três mil euros limpos ou mais

Taxa de desemprego caiu para 7,9% no primeiro trimestre, a mais baixa em dez anos. Criação emprego mantém-se acima dos 3%

O número de trabalhadores por conta de outrem que ganham três mil euros ou mais líquidos por mês disparou 30% no primeiro trimestre deste ano face a igual período de 2017 e atingiu o maior valor das séries do Instituto Nacional de Estatística (INE). Este grupo de trabalhadores mais abonados tem agora 37,5 mil pessoas.

Um reforço que ajudou a que o salário líquido médio da economia subisse 3,5%, fixando-se em 876 euros mensais, o maior aumento em sete anos. Os salários mais baixos (menos de 600 euros) estão a perder peso.

De acordo com o primeiro inquérito trimestral ao emprego deste ano, ontem divulgado pelo INE, somam-se os sinais de que as condições do mercado de trabalho estão a melhorar. A taxa de desemprego total baixou para 7,9% da população ativa, o registo mais baixo em dez anos; o desemprego jovem, embora continue entre os maiores da Europa, caiu para 21,9%, também o valor mais baixo da série do INE que remonta ao início de 2011. O número de desempregados que procuram emprego há um ano ou mais (longa duração) recuou mais de 28%.

Além disso, o ritmo de criação de emprego continua acima de 3%. As formas mais precárias de contratação (a prazo e outras tipologias ainda mais precárias) estão a subir em termos homólogos, é certo, mas começam finalmente a perder peso no emprego total.

O emprego total aumentou 3,2%, ou seja, a economia ganhou quase 149 mil postos de trabalho em termos líquidos em um ano. Portugal tem cerca de 4,8 milhões de pessoas com trabalho.

Os contratos de trabalho sem termo subiram 105,4 mil ou mais, para 3,5%. A contratação a prazo avançou 7,1% em termos homólogos (mais 48,5 mil casos). Os contratos mais precários (outro tipo) - que englobam modalidades como contratos de prestação de serviço (recibos verdes); trabalhos sazonais sem contrato escrito; trabalhos pontuais ou ocasionais - aumentaram mais de 3%, totalizando 140 mil.

No entanto, o peso da precariedade (os que estão a prazo e os outros ainda mais inseguros) parece estar finalmente a recuar. De acordo com cálculos do DN/Dinheiro Vivo, embora haja mais de 870 mil pessoas oficialmente mais precárias, este grupo vale agora 21,7% do total do trabalho por conta de outrem. Este peso está a cair há dois trimestres consecutivos.

O INE explica ainda que o aumento homólogo da população empregada ficou a dever-se, essencialmente, ao acréscimo do emprego entre as mulheres (mais 80,4 mil, ou 3,5%); entre pessoas dos 45 aos 64 anos (acréscimo de 117,2 mil ou 6,1%); e entre os que completaram o ensino secundário ou pós--secundário (85,5 mil ou 7%).

O setor dos serviços justifica a maioria do emprego criado (106,2 mil, ou 3,3%).

Qualificado, a tempo completo

Mas uma das mudanças mais visíveis, além da referida expansão do emprego e da redução mais rápida do desemprego, acontece, de facto, a nível dos ordenados. Vários fatores ajudam a explicar esta evolução e a força renovada dos empregos em que se ganha mais de três mil euros limpos.

A eliminação gradual da sobretaxa do IRS (medida que deixou para o fim o acerto dos salários mais altos), a subida do salário mínimo, a criação de emprego mais forte em profissões mais qualificadas. O grupo dos "especialistas das atividades intelectuais e científicas", que engloba profissões como médicos e professores universitários, expandiu-se a um ritmo significativo de 7% neste primeiro trimestre. O número de "trabalhadores qualificados da indústria e da construção" cresceu mais de 12%.

Em contrapartida, o universo dos trabalhadores não qualificados, que tendem a ser mal pagos, recuou 3%. E o número de agricultores caiu 6%.

Destaque ainda para o maior dinamismo da contratação a tempo completo (cresceu mais de 5% entre os trabalhadores por conta de outrem) em detrimento das modalidades de tempo parcial (aqui o número de postos de trabalho cedeu 7%).

Os dados do INE mostram ainda que depois da classe salarial dos três mil euros ou mais, o segundo escalão que mais cresceu (aumento de 18,4%) foi o dos 1800 a 2500 euros.

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