Jim Ratcliffe: O inglês que quer construir uma fábrica de jipes em Estarreja

Empresário de 66 anos prepara-se para investir 300 milhões de euros e construir uma fábrica de automóveis no distrito de Aveiro.

Jim Ratcliffe é o milionário britânico que pode colocar Estarreja no mapa da produção automóvel em Portugal. Este município do Norte de Portugal está em vias de receber um investimento de 300 milhões de euros do empresário de 66 anos e que poderá criar pelo menos 600 postos de trabalho diretos naquele local.

Por detrás de um perfil relativamente discreto até há poucos anos, este milionário tem ganho cada vez mais destaque à conta do crescimento do grupo petroquímico e petrolífero Ineos. Graças a essa fortuna, está a apostar na indústria automóvel e no desporto. Mas também tem acumulado algumas polémicas, sobretudo por causa dos impostos.

Jim Ratcliffe conseguiu enriquecer ao pegar em empresas deste sector com problemas e a transformá-las em negócios altamente rentáveis. Só em 2018, este grupo faturou 60 mil milhões de dólares (54,3 mil milhões de euros) e dava emprego a 21 mil pessoas em 168 unidades de produção de 26 países.

O agora milionário começou a carreira na década de 1970 Exxon Chemicals, depois de ter concluído uma licenciatura em Engenharia Química em 1974 pela Universidade de Birmingham. Poucos anos depois, viria a formar-se na área financeira e tirou um MBA na London Business School. Na década de 1980, Ratcliffe passou pela fabricante de tecidos e produtora de químicos Courthaulds e pelo fundo de investimento Advent International, em 1989.

Em 1992, Jim Ratcliffe associou-se ao empresário John Hollowood para comprarem a divisão de químicos da BP em Kent. Uma jogada arriscada: "coloquei tudo o que detinha em risco, incluindo a casa, as poupanças e mesmo a minha mulher e os meus filhos, o que me tornou muito focado", assumiu o empresário numa entrevista à London Business School citada pela BBC.

Seis anos depois, em 1998, o empresário britânico criou a empresa Ineos e comprou o negócio de químicos da BP na Bélgica. E estava lançada a escada para Jim Ratcliffe tornar-se num dos homens mais ricos do Reino Unido, com uma fortuna avaliada em 10,3 mil milhões de euros, segundo a revista Forbes.

A Ineos detém, atualmente, negócios na área dos químicos que foram descartados por multinacionais como a BASF, Bayer, BP, Dow, Monsanto e Solvay, para citar os casos mais conhecidos.

As polémicas fiscais

Nos últimos anos, o dono da Ineos tornou-se um dos mais fervorosos adeptos do Brexit. Mas ganhou alguns adversários entre o povo britânico à custa das questões fiscais. No início deste ano, um relatório da Comissão Europeia mostrou que o grupo petroquímico recebeu benefícios fiscais avaliados em pelo menos 178 milhões de euros já depois de os eleitores terem decidido que o Reino Unido iria sair da União Europeia, escreveu em fevereiro o jornal The Guardian.

Também no início deste ano, a imprensa britânica deu conta da mudança de sede fiscal do milionário e da Ineos do Reino Unido para o Mónaco. Desta forma, o britânico poupa 4,6 mil milhões de euros em impostos todos os anos.

As compras no desporto

Jim Ratcliffe tem aproveitado algum do dinheiro acumulado para investir em equipas de futebol, em vela e no ciclismo nos últimos anos.

Em 2017, comprou a equipa de futebol da Suíça Lausanne; em 2018, investiu mais de 100 milhões de euros numa equipa para a America"s Cup, a prova de vela mais famosa do mundo e que em 2021 será disputada na Nova Zelândia.

Já este ano, o milionário soma duas compras: em março, salvou a equipa Sky e assegurou um orçamento anual de cerca de 40 milhões de euros; no final de agosto, oficializou a compra do clube de futebol francês Nice, que compete na liga principal.

A aposta nos jipes

O empresário britânico também quer ter uma palavra a dizer no mundo automóvel. Em 2017, anunciou o "Projekt Grenadier", para apostar em veículos com tração 4×4 preparados para serem utilizados muitas vezes fora de estrada.

Ratcliffe quer usar esta marca para aproveitar o espaço deixado em aberto pela Jaguar Land Rover em 2016, quando decidiu descontinuar o Land Rover Defender um dos modelos mais icónicos de sempre da insígnia britânica.

Desde o ano passado, a imprensa britânica tem noticiado que este veículo todo-o-terreno "sem compromisso" mas "muito fiável" poderá ser produzido no País de Gales. Contudo, este veículo deverá mesmo ser montado numa fábrica a construir em Estarreja.

* jornalista do Dinheiro Vivo

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