Hotelaria e restauração explicam quase 40% da subida no emprego

Setor ligado ao turismo é responsável por 53 mil dos 142 mil empregos criados nos últimos 12 meses. Taxa de desemprego cai para 8,5%, valor mais baixo em nove anos

A economia portuguesa criou 141,5 mil novos empregos entre o terceiro trimestre de 2016 e igual período deste ano. É uma subida de 3%. Destes, mais de 37%, cerca de 53 mil postos de trabalho, apareceram no alojamento e restauração.

O contributo do setor, que está intimamente ligado ao turismo, parece ser estrutural. Nos últimos dois anos, hotéis, restaurantes e similares foram responsáveis, em média, por um terço da criação de emprego em Portugal. Superam o contributo da indústria transformadora (20% do emprego total criado) ou da saúde (30%).

No terceiro trimestre, o alojamento e restauração empregava já 346 mil pessoas, o maior valor das séries, em que a mais antiga remonta ao início de 2008. O crescimento homólogo implícito é também um dos mais poderosos de que há registo: um salto de 18,1%.

Um "novo máximo histórico de empregabilidade" assinalado por Mário Gonçalves. O presidente da AHRESP, a associação do setor, destacou "o compromisso assumido pelas nossas empresas na criação líquida de emprego, com a reposição parcial da taxa do IVA dos serviços de alimentação e bebidas".

Mas que emprego?

O emprego tem vindo a crescer sempre "desde o 4.º trimestre de 2013". Mas que emprego? Há mais 4,5% de pessoas com contrato permanente (quase 3,1 milhões), mas o número de contratados a prazo disparou 7,5% no terceiro trimestre. Total: 763 mil vínculos.

O número de pessoas com "outro tipo de contrato de trabalho", que corresponde a formas mais precárias de emprego (recibos verdes, avenças), baixou 7%. São 136 mil. O trabalho a tempo parcial recuou 8,5%, para 508 mil casos. O subemprego a tempo parcial (pessoas que querem trabalhar mais horas do que num part-time normal e não conseguem) desceu 17%, somando quase 178 mil. Já o universo de inativos à procura de emprego mas não disponíveis subiu 17%, para mais de 21 mil; em sentido contrário, a outra faixa de desempregados não oficiais - os inativos disponíveis mas que não procuram emprego - cedeu quase 10%. São 227 mil pessoas.

O mercado do desemprego

Tudo somado (desempregados, desencorajados e subempregados), o INE mostra que, além dos 444 mil desempregados, o país tem quase 500 mil pessoas na margem do mercado de trabalho, mas que não podem ser classificados como desempregados oficiais. Juntando os dois universos, Portugal tem 869,9 pessoas "subutilizadas", o que faz que a taxa de desemprego em sentido lato seja de quase 16%. O dobro da oficial.

O desemprego entre os que têm um curso superior recuou 17%, para 85,5 mil casos.

O grupo dos que estavam sem trabalho em Portugal diminuiu 19,2% no terceiro trimestre face a igual período do ano passado, a maior queda da série. Dos 444 mil desempregados, 93,2 mil são jovens com menos de 25 anos e mais de 85 mil têm curso superior. Ambos os universos estão a decrescer.

A taxa de desemprego total cedeu dois pontos percentuais face ao ano passado, fixando-se assim em 8,5% da população ativa. Estava em 8,8% no segundo trimestre.

Apesar da quebra de série no final de 2010, é preciso recuar até ao final de 2008 (quase nove anos) para se encontrar uma taxa de desemprego mais baixa (7,8%).

No terceiro trimestre, a taxa de desemprego dos jovens fixou-se em 24,2%, melhor do que há um ano mas pior do que no trimestre anterior (subiu 1,5 p.p.).

Lisboa é a região onde o desemprego mais pesa, com 9,4% da sua população ativa oficialmente desempregada.

O ministro Vieira da Silva saudou a redução "muito intensa" do desemprego, mas reconhece que a precariedade é "um problema muito sério".

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