Exportação de energia para França dispara com paragem no nuclear

Portugal e Espanha vendem mais a França com o fecho das suas centrais nucleares. Preço chegou a 15 vezes mais do que a média

As vendas de eletricidade de Portugal e Espanha à vizinha França estão a disparar por causa da crise de fornecimento elétrico naquele país, depois do encerramento de um terço das suas centrais nucleares, responsáveis por 70% da produção de energia. O fecho de 21 das 58 centrais está a causar uma crise no fornecimento de energia em França e a obrigar Paris a recorrer aos países vizinhos - Península Ibérica e Alemanha - para colmatar as falhas. As vendas de eletricidade do mercado ibérico (o MIBEL, mercado único de Portugal e Espanha) chegaram a ultrapassar 800 euros por megawatt - o preço médio de referência ontem foi de 58 euros - e a rede de interligação esteve várias vezes ao longo das últimas semanas a operar a 100% da capacidade.

Segundo os dados consultados pelo DN/Dinheiro Vivo, o preço por megawatt entre a Península Ibérica e França atingiu o pico a 7 deste mês, entre as 18.00 e as 19.00, quando custou 874 euros, 15 vezes acima da média. No dia seguinte, à mesma hora, custava 850 euros e voltou a atingir um pico a 14 deste mês entre as 18.00 e as 19.00, atingindo 829 euros o megawatt.

As centrais nucleares francesas foram fechadas pelos reguladores por suspeitas de falsificação de documentos de controlo de qualidade ambiental e a crise no fornecimento está a provocar receios de falhas no abastecimento no inverno, com impacto nos preços. Em Espanha a forte procura impediu uma descida de 6% nos preços grossistas e os analistas acreditam que Reino Unido e Alemanha, onde França também se abastece, serão afetados.

Questionada sobre se é esperado em Portugal impacto nos consumidores, fonte oficial da Entidade Reguladora do Setor Energético (ERSE) diz ser "prematuro antever um impacto no preço para o consumidor".

A mesma fonte explica que, apesar da integração dos dois mercados, a de construir os preços em Espanha é diferente da portuguesa e que "existem ferramentas de gestão de risco que permitem mitigar picos". Além disso, frisa, "é necessário avaliar se se trata de um pico ou se a situação se vai prolongar e que tipo de impactos terá".

Aposta nas renováveis

A dependência francesa de energia nuclear tem permitido que o país venda eletricidade muito barata para a Península Ibérica e a Alemanha, deixando para segundo plano o reforço das interligações nos Pirenéus. Este reforço permitirá que mais eletricidade produzida em Portugal e Espanha seja vendida a outros países e que Portugal também possa comprar a preços competitivos, uma vez que a aposta nas renováveis leva a que o país produza mais energia do que consome.

A Alemanha já assumiu o compromisso de encerrar as suas centrais nucleares até 2022 e é um potencial comprador de energia renovável portuguesa. O acordo ontem assinado entre Portugal e Alemanha, França, Espanha e Marrocos para o reforço das interligações procura abrir caminho à venda de energia renovável a estes países e à compra a preço mais competitivo, com impacto no preço ao consumidor.

O tema das interligações tem estado a ser acompanhado por Bruxelas - até porque a Península Ibérica é dos mercados que mais sofrem por estarem isolados - e Portugal tem procurado agir em duas frentes: junto da Comissão, para reforçar as interligações nos Pirenéus e procurando mercados alternativos, nomeadamente Marrocos.

Os contactos com Marraquexe têm tido bons progressos e espera-se a sua formalização, com a construção do cabo submarino entre Portugal e Marrocos, já em 2017.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.