"Estamos a abrir caminho para a próxima crise da dívida", avisa Trichet, ex-presidente do BCE

10 anos após a falência do Lehman Brothers, que espoletou a mais grave crise desde a Grande depressão, o ex-presidente do Banco Central Europeu alerta que, a nível global, os níveis de endividamento são superiores ao PIB

Muitas vezes acusado de não ter feito o suficiente para tentar salvar a economia europeia da crise financeira espoletada pela falência do Lehman Brothers, nos EUA, a 15 de setembro de 2008, Jean-Claude Trichet admite que poderia ter sido mais insistente nos alertas que fez sobre o facto de uma parte dos países da zona euro estarem a ir na direção errada, mas não aceita a totalidade das culpas pelo que a seguir se passou a nível financeiro e económico na UE.

"Poderemos sempre dizer que estava claro que uma parte da zona euro, um terço dos seus países membros, ia na direção errada, devido à acumulação de défices de conta corrente e défices orçamentais. Poderemos sempre dizer que poderíamos ter sido mais contundentes nas nossas recomendações. Defendi, em cada reunião do Eurogrupo, a cada mês, que as divergências de longa data eram uma receita para criar grandes dificuldades, mas os governos não levaram nada em conta. Poderia ter sido mais insistente. Mas não podia fazer o papel dos governos nacionais, do Eurogrupo, da Comissão Europeia: Não acuso ninguém. Digo apenas que todos devíamos ter sido mais ativos. Hoje, o que dizem muitos, é que estamos a abrir caminho para a próxima crise devido à acumulação de dívida", disse o francês que presidiu ao Banco Central Europeu, de 2003 a 2011.

Trichet falou, ao jornal El País, à margem de uma conferência da OCDE, que aconteceu quinta e sexta-feira, em Paris. Nela participaram outros nomes de peso, como o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, o economista Robert Skidelsky ou veteranos dos bancos de investimento que precipitaram a crise em Wall Street. Trichet foi o orador principal de sexta. Figura controversa, é acusado de reação lenta à falência do Lehman Brothers por comparação com o seu homólogo norte-americano que, na altura, estava na liderança da Reserva Federal, Ben Bernanke. É criticado por ter subido das taxas de juro em julho de 2008, ou seja, dois meses antes do crash de Wall Street. E ainda de não ter utilizado todos os instrumentos monetários que usou o seu sucessor, o italiano Mario Draghi, que garantiu tudo fazer para salvar a zona euro.

O francês, hoje com 75 anos, rejeita as acusações de lentidão e de falta de recurso aos instrumentos existentes. "Não! O BCE foi o primeiro banco central a dar 95 mil milhões de euros de liquidez a todos os bancos a 9 de agosto de 2007. Foi o primeiro banco central a generalizar a injeção plena de capital fixo com a queda do Lehman Brothers. E fomos o único banco central, naquele momento, a comprar títulos do Tesouro no mercado secundário, em maio de 2010, da Grécia, de Portugal e da Irlanda, para evitar a crise, tendo tomado essa decisão durante um fim de semana. Essa decisão, que era insólita, foi criticada, porque acharam que estávamos a ser demasiado atrevidos (...) Foi [esse o entendimento] da opinião pública na Alemanha, na Holanda, na Áustria, na Finlândia, etc.. (...) O BCE foi extraordinariamente rápido e atrevido na hora de recorrer a medidas não convencionais", garantiu Trichet, nas declarações que fez àquele jornal espanhol.

Recorde-se que Grécia, Portugal, Irlanda, Chipre e Espanha (só no setor bancário) foram países da zona euro que tiveram que pedir assistência financeira internacional - os chamados resgates da troika. Isso implicou duros planos de ajustamento das economias desses Estados membros da UE que têm o euro como moeda, com os números do desemprego a subirem em flecha, tal como os números da pobreza ou da emigração. A Grécia teve, inclusivamente, que pedir três resgates e só regressou aos mercados a 20 de agosto deste ano.

Questionado sobre se pensa que pode haver um novo Lehman Brothers o francês respondeu: "Não estou a dar a entender que pudesse ser algo exatamente igual. Claramente a situação evoluiu. Mas o meu raciocínio é o seguinte: se existe algo a que se chama economia global - e eu considero que há uma entidade pertinente que é a economia global integrada -, e se um dos indicadores de vulnerabilidade é o endividamento global, público e privado, como percentagem do PIB global, então estamos perante uma situação que é tão grave hoje como era na altura da crise. Isto porque este indicador mostra um nível mais elevado de endividamento global em relação à percentagem do PIB global".

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