Esforço de Portugal para pagar a credores é dos maiores entre 52 países

"Crescimento deve ser usado para acumular almofadas para enfrentar tempestades, que eventualmente virão." Centeno concorda

Mesmo com um défice público relativamente pequeno e a descer nos próximos anos, Portugal é, num grupo de 52 países analisados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), das economias com maiores necessidades de financiamento em proporção do produto interno bruto (PIB).

Assim é, porque a dívida é realmente um enorme problema. Portugal, mostra um novo estudo do FMI, tem das maiores taxas de esforço no pagamento de dívida aos credores nos próximos dois anos (2018 e 2019).

O Monitor Orçamental (Fiscal Monitor) da primavera, ontem apresentado em Washington por Vítor Gaspar, o diretor do Fundo para a área das Finanças Públicas, permite ver que a maior taxa de esforço é a do Japão, que terá de dedicar o equivalente a 74% do seu PIB nos dois anos em análise ao pagamento aos seus credores. Os cálculos são do DN/Dinheiro Vivo com recurso à base de dados do FMI.

Itália é o quarto caso mais exigente no tal grupo de 52 países, mas está em primeiro na zona euro, com uma taxa de esforço de quase 42% do PIB. Bélgica aparece em segundo (33,7%), Espanha é terceiro (30,4%) e Portugal quarto.

Neste ano e no próximo, os contribuintes portugueses terão de dedicar o equivalente a 26,4% do PIB para pagar aos credores da República

Neste ano e no próximo, os contribuintes portugueses terão de dedicar o equivalente a 26,4% do PIB para pagar aos credores da República, para, no fundo, amortizar à dívida que vai vencer entretanto. Convertendo em euros (assumindo o PIB previsto pelo próprio FMI), significa que os credores têm a receber 25,5 mil milhões de euros este ano e 28,4 mil milhões em 2019. Total: 53,9 mil milhões de euros em dois anos. Além disto, Portugal tem de financiar o défice destes dois anos (1% em 2018 e 0,9% no ano que vem).

Como não há recursos suficientes, a solução passa por ir aos mercados e pedir dinheiro emprestado para ir pagando o que vai vencendo. O lado mais positivo deste processo é que Portugal agora está a fazê-lo com taxas de juro muito mais baixas, o que alivia bastante o défice. O governo conta, inclusive, chegar a um excedente orçamental já em 2020 (0,7%).

Esta corrida contra o tempo foi ontem enfatizada pelo antigo ministro das Finanças português Vítor Gaspar. E Mário Centeno, o ministro das Finanças atual, até está sintonizado com esse sentido de urgência.

"O crescimento atual deve ser usado para acumular almofadas orçamentais para tempos de tempestade que eventualmente virão", avisou Vítor Gaspar. Nesse sentido, "aconselhamos os países a evitar políticas orçamentais pró-cíclicas [expandir orçamentos quando os tempos são favoráveis] que exacerbam as flutuações económicas e aumentam a dívida pública".

O crescimento atual deve ser usado para acumular almofadas orçamentais para tempos de tempestade que eventualmente virão

Nunca mencionou Portugal, mas deixou claro que os elevados níveis de dívida podem apanhar alguns países na curva, independentemente dos sucessos temporários no défice. E concluiu que "os países estarão em melhor posição para enfrentar riscos iminentes se construírem finanças públicas mais fortes nestes bons momentos" da conjuntura. Como acontece agora, aparentemente.

Mário Centeno converge com a leitura do antecessor. "O valor do défice orçamental atingido em 2017 é o mais adequado face às condições económicas, ainda frágeis, do país. Apenas um valor do défice como o atingido em 2017 garante que, caso enfrente nos próximos anos um quadro económico menos favorável, Portugal não volta a entrar em Procedimento por Défice Excessivo", alertou o ministro no final de março.

Na apresentação do Programa de Estabilidade, na semana passada, reforçou a ideia. É preciso reduzir ambiciosamente o défice, pois tal é uma "segurança contra uma conjuntura desfavorável".

A ideia de comprimir mais o défice este ano (era para ser 1,1%, mas o governo quer 0,7%) provocou tumulto entre os partidos da esquerda que apoiam o governo do PS no Parlamento, que se insurgiram contra a não utilização das folgas nas contas públicas para reforçar o Estado social.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.