Empresas da bolsa têm os maiores lucros da década

As cotadas do PSI 20 lucraram 3500 milhões no ano passado, o valor mais alto desde a crise de 2008. Em cinco anos, os resultados das empresas mais do que duplicaram

As empresas da bolsa portuguesa tiveram lucros recorde em 2017. Os menores custos com juros, a recuperação da economia e o trabalho feito pelas cotadas durante a crise permitiu que os resultados subissem para o valor mais alto da última década, segundo cálculos do DN/Dinheiro Vivo.

No ano passado, as empresas do PSI 20 que já mostraram as contas anuais lucraram 3,5 mil milhões de euros. Foi uma subida de 12% em relação ao 2016. Mas a recuperação é mais pronunciada face a anos anteriores. Em 2012, o pior ano para os resultados das empresas portuguesas, o lucro acumulado das cotadas do PSI 20 não tinha ido além de 1,36 mil milhões de euros. Nesse ano, o acumulado dos resultados tinha sido prejudicado pelos prejuízos de 1,2 mil milhões de euros do BCP. Mas o banco está de regresso aos lucros, com um resultado de 186,4 milhões em 2017.

Mas, mesmo excluindo a banca, os resultados também estão em máximos. Para João Queiroz, diretor da banca online do Banco Carregosa, esta evolução das contas das empresas nacionais é explicada pela mudança que a crise impôs à gestão das empresas. "Os períodos de crise tendem a constituir um estímulo e motivação para se repensar e recentrar a atividade e o negócio", refere o especialista.

João Queiroz explica que "muitas das empresas, sobretudo as que estão no setor dos bens transacionáveis e/ou de base industrial, diversificaram mercados, relativizaram segmentos menos rentáveis, procuraram novas fontes de matérias-primas, repensaram os fornecedores e os parceiros para entrar em novas geografias".

E a aposta compensou. A internacionalização foi o segredo de algumas das empresas que mais aumentaram o lucro nos últimos dez anos. A Altri, por exemplo, vende 90% da produção para fora do país. E desde 2008 o lucro subiu em cerca de 20 vezes para 96,1 milhões de euros. A Corticeira Amorim, que também gera uma parte significativa das receitas no estrangeiro, tem uma história semelhante. O lucro multiplicou-se por mais de dez vezes desde 2008 para 73 milhões de euros.

Já a Jerónimo Martins conseguiu nos últimos anos tornar-se uma das empresas portuguesas com resultados mais volumosos. Tem o terceiro maior lucro. Desde 2008 os resultados mais do que duplicaram e a empresa lucrou 385 milhões de euros no ano passado. A empresa gera quase 70% das vendas fora de Portugal. Em 2008 eram de pouco mais de 50%.

A ajudar os resultados estão ainda os menores custos de financiamento, proporcionados pelas políticas monetárias favoráveis do Banco Central Europeu e também pela subida do rating de Portugal . João Queiroz realça que, em geral, as empresas "equilibraram o grau de alavancagem, o que se traduziu em menos encargos financeiros". O diretor do Banco Carregosa explica que "a incerteza quanto às fontes de financiamento obrigou a desintermediar dívida, numa conjuntura de baixas taxas de juro".

E as empresas aproveitaram. A cotada com o maior lucro do PSI 20, a EDP, é também a que detém a maior dívida. Em 2017 a elétrica teve o melhor resultado desde 2011. O lucro subiu 15% face a 2016 para 1,1 mil milhões. A subida deveu-se a fatores não recorrentes, com as mais-valias obtidas com a venda de ativos como a Naturgas. Mas a elétrica assinalou o efeito favorável das condições de financiamento. Os juros pagos pela empresa, que tem uma dívida líquida de 13,9 mil milhões, baixaram de 813 para 691 milhões de euros no ano passado.

Também a Galp, a segunda empresa com os resultados mais volumosos da bolsa, reportou uma poupança. A empresa tem uma dívida de 1,88 mil milhões de euros. E desceram de cem milhões para 75 milhões de euros. A empresa subiu os lucros em 24% no ano passado. Mas, mais do que a poupança com juros, a justificar esta melhoria esteve o crescimento da atividade de exploração e produção, com os investimentos feitos nos últimos anos no Brasil a darem frutos.

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.