Candonga 4.0. Bilhetes de 7,5 euros da Web Summit à venda por 1000 na net

Venda de bilhetes na net está ao rubro. Organização garante que quem comprar por esta via não consegue entrar

Não são empreendedores mas têm olho para o negócio. O que compraram por sete euros e meio estão a vender por dez, por cem e até por mil. Nas páginas de compra e venda de bilhetes das redes sociais, multiplicam-se por estes dias as ofertas para a Web Summit. Na avalancha de anúncios, há um fator comum: chama-se especulação. "Tenho cupão da Web Summit e estou a vender porque preciso do dinheiro", lê-se numa das publicações. O preço? 997 euros.

São poucos os anúncios com tantos detalhes, mas há quem admita que vende porque não poderá estar presente ou até quem prefira trocar uma entrada na cimeira por três bilhetes para o concerto de Shakira. Muitos dos anunciantes só revelam o preço por "mensagem privada", mas entre aqueles que estão visíveis, os valores são díspares. Um bilhete para um dia inteiro e com acesso a todos os palcos tanto pode custar 350 como mil euros.

A inflação de preços disparou na última semana após a organização ter disponibilizado dez mil bilhetes de meio-dia para jovens entre os 16 e os 23 anos, ao valor simbólico de sete euros e meio. Esgotaram em quatro dias e foram vendidos em massa nas redes sociais, tal é a ânsia de ver estrelas como Sara Sampaio ou "unicórnios" de mil milhões de dólares como a portuguesa Farfetch. Mas o acesso ao recinto não está garantido.

Os primeiros bilhetes para o evento, que arranca na segunda-feira, dia 6 de novembro, na Altice Arena e nos pavilhões da FIL, custavam 300 euros e esgotaram em novembro do ano passado. Desde então foi sempre a subir. Quem quiser comprar hoje uma entrada com tudo incluído terá de desembolsar 1500 euros. E terá de o fazer no próprio site da Web Summit.

Quem comprar bilhetes por outras vias não vai conseguir entrar no evento, garante a organização. "Independentemente de terem surgido mudanças nos planos de viagem ou de trabalho, será impossível revender um bilhete ou atribuí-lo a outra pessoa. Um bilhete revendido será considerado nulo", garantiu ao DN/Dinheiro Vivo fonte da Web Summit. Cada bilhete é pessoal e intransmissível, destaca, e a segurança estará reforçada. Quem não mostrar a identificação associada à compra do ingresso vai mesmo ficar à porta.

"A triagem é feita no ato da inscrição, com o preenchimento de um formulário, e à entrada da Web Summit, pelo que caso os dados da pessoa à entrada não sejam os mesmos aquando da inscrição, essa pessoa não terá acesso ao evento", acrescenta o Ministério da Economia, que está a acompanhar a organização da cimeira. O ministério liderado por Caldeira Cabral explica ainda que "já foi assegurado para este ano um reforço na acreditação do evento, bem como algumas alterações para facilitar e agilizar o processo de entrada".

Talvez não, talvez sim. Quem vende, no entanto, assegura que o bilhete em "2.ª mão" funciona mesmo. "Comprei os bilhetes no início do ano como unassigned tickets [bilhetes sem nome] 2 por 1 na chamada early call. Tinha intenção de ir mas não sabia com quem. Para aproveitar os bilhetes deixei os nomes em branco", conta ao DN/Dinheiro Vivo uma das pessoas que está a vender o seu bilhete, lembrando que "para poder entrar é necessário fornecer o e-mail/dados das pessoas que vão", mas como os nomes ainda não foram comunicados "pode oferecê-los ou vender a quem quiser".

As plataformas de classificados online, onde todos os dias surgem novas propostas de venda de bilhetes, também estão atentas ao mercado paralelo. Ao fim de poucas horas os anúncios desaparecem, e não é porque o negócio foi fechado. "O OLX tem vindo a apagar este tipo de anúncios", revela a empresa de classificados. A plataforma dispõe de "mecanismos de revisão dos anúncios para prevenção e deteção de fraudes, mas também para casos de anúncios que não estejam em conformidade com a lei", como é o caso. Entre os anunciantes, porém, a perceção é muito diferente. O DN/Dinheiro Vivo contactou vários vendedores de ingressos e a resposta foi invariavelmente a mesma. "O bilhete não tem nome e pode ser usado por qualquer pessoa."

A organização da Web Summit espera receber este ano 65 mil participantes no Parque das Nações, mais 15 mil face à edição do ano passado. Mas se o controlo das entradas for eficaz, há algumas centenas que vão ficar a ver "unicórnios" a passar ao longe.

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.