Banca europeia perde milhões em Bolsa. Espera-se nova onda de fusões

Em Portugal, o BCP perdeu, só no último mês, quase um terço do seu valor em Bolsa. Um cenário que se repete por toda a Europa. A pressão pode levar a uma maior consolidação.

Uma década depois da crise financeira que abalou o mundo, os bancos europeus estão de novo sob pressão. No espaço de um mês perderam, no conjunto, mais de 137 mil milhões de euros do seu valor em Bolsa. É uma quebra de 13%. O stress pode levar a uma maior consolidação. Leia-se fusões e aquisições.

O BCP, o único banco português cotado, perdeu quase um terço (-28%) do seu valor em Bolsa entre meados de julho e a passada sexta-feira, fazendo evaporar 1200 milhões de euros da sua capitalização, segundo dados da Euronext. E em Espanha as coisas não estão melhores. O CaixaBank, dono do BPI, vale menos 2900 milhões de euros do que há um mês (-19%). O Santander perdeu 9941 milhões de euros (-13%).

"A banca encontra-se numa fase turbulenta" a nível internacional, face ao abrandamento global da economia, alerta Carla Santos, analista da corretora XTB. Isto poderá levar a uma maior concentração bancária, "com os bancos mais poderosos a tornarem-se mais poderosos", defende, em declarações à Lusa.

O Santander é um dos bancos europeus que mais têm aproveitado a crise para crescer via aquisições. O Santander Totta, o braço português, comprou a atividade bancária do Banif em 2015, no âmbito da resolução do grupo madeirense. Em 2018, comprou o Banco Popular, integrando também a atividade daquele banco em Portugal. E o gigante alemão Deutsche Bank, que está em dificuldades financeiras, chegou a ter negociações para uma fusão com o Commerzbank, mas a operação não chegou a avançar.

Para já, os anúncios de cortes de custos sucedem-se. Os bancos a nível mundial já anunciaram o corte de 50 000 postos de trabalho desde o início de 2019, segundo a Bloomberg. Os bancos europeus lideram, com 43 400 rescisões. Em Portugal, o ritmo de saídas tem vindo a abrandar. Ainda assim, no último ano fecharam 210 balcões e saíram quase mil trabalhadores das folhas de pagamento da banca.

Revisão de planos

Os bancos em Portugal admitiram já que podem ter de rever os objetivos e planos traçados para este ano e os próximos. No primeiro semestre deste ano, os lucros dos cinco maiores bancos em Portugal caíram 300 milhões de euros, sobretudo devido à descida do lucro do BPI e ao agravamento do prejuízo do Novo Banco.

O BCP registou um aumento dos lucros, mas Miguel Maya, presidente executivo do banco, destacou "o contexto bastante mais desafiante" que o banco enfrenta.

São vários os desafios para os bancos, sobretudo os europeus. O ambiente de baixas taxas de juro coloca pressão sobre as receitas, porque implica um custo sobre as reservas e aperta a margem de lucro no crédito. Além disso, as perspetivas económicas são bastante pessimistas, com os investidores a antecipar já um cenário de recessão.

A somar a estes fatores, há a concorrência crescente dos rivais digitais dos bancos. "Tendo em conta a intensificação da digitalização e as alterações nos serviços bancários, muito devido à atividade das fintechs [empresas financeiras tecnológicas], a necessidade de racionalizar custos e ganhar escala deverá levar a mais operações de concentração", prevê também Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros, à Lusa.

Em setembro é esperado um novo corte de taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE), no âmbito de um robusto pacote de medidas para dar novo impulso à economia. A taxa de juro de depósitos está negativa, em -0,4%. Uma pressão acrescida para os lucros dos bancos, mas que traz também vantagens - ajuda a valorizar as carteiras de ativos, incluindo de dívida pública e o financiamento barato impulsiona a procura por crédito e ajuda a escoar o crédito malparado.

* jornalista do Dinheiro Vivo

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