Arrendar casa para férias na periferia já custa tanto como em Lisboa

Passar uma semana em Fitares no verão pode custar mais de 600 euros. Anúncios de casas para ​​​​​​​férias nos arredores da capital multiplicam-se e os preços estão a subir. ALEP diz que oferta fora do centro é "saudável"

Em Massamá não se vê o mar mas há quem arrisque lançar o isco. Como Isabel Garcia, que ali comprou um T2 sem saber que um dia haveria de se mudar para longe. Hoje, arrenda a casa a turistas a 300 euros por semana ou 50 por dia. Admite que a procura não é muita: só teve duas reservas neste ano, ambas de portugueses que vieram passar férias. "Mas é melhor do que ter a casa fechada", diz ao DN/Dinheiro Vivo. O que ganha dá para as despesas.

Isabel não é caso único. E também não é quem pede mais dinheiro por uma semana de férias nos arredores de Lisboa. Uma busca nos portais de arrendamento temporário, como a Booking ou o Airbnb, resulta em dezenas de ofertas, que vão da Venteira ao Prior Velho, com preços que rivalizam com os do centro da capital. Sete noites de agosto em Fitares, no concelho de Sintra, podem ficar por 610 euros. A mesma semana num T2 em Oeiras chega aos 1225 euros, numa casa com dois quartos e uma "piscina privada" no terraço, que é na verdade uma piscina insuflável. A proximidade a Lisboa e Sintra é sempre salientada pelos proprietários.

Para a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), este tipo de oferta "é saudável" e ainda "muito pouco significativa", afirma o presidente Eduardo Miranda. "Temos assistido a uma concentração do Alojamento Local nas zonas de maior interesse turístico, em Lisboa e no Porto, mas de forma gradual começa a haver alguma distribuição noutras zonas. Ainda é residual mas é uma tendência importante. Isto está relacionado com uma alteração do tipo de procura. As pessoas querem outro tipo de experiências. Há quem procure conhecer melhor a cultura e ficar na própria casa do proprietário. Isto acontece em Loures ou na Amadora, por exemplo", destaca o responsável.

Os arrendamentos temporários em zonas limítrofes são muitas vezes a primeira opção de quem aterra em Portugal durante uma ou duas semanas para seminários ou congressos, aponta Eduardo Miranda.

Isso mesmo percebeu Elsa S. desde que colocou o anúncio no OLX. Por um T2 mobilado na Venteira, na Amadora, pede 400 euros por semana. "Começámos a perceber que há muita procura mas não estou a ver os turistas a virem aqui para a Amadora. O objetivo é arrendar a médicos ou engenheiros que venham passar umas semanas a Lisboa. Uma das interessadas que tenho é uma menina que vai casar-se e precisa de alojamento para os pais entre julho e agosto", conta a proprietária ao DN/DV.

Se arrendasse a casa no regime de longa duração, Elsa pediria uma renda de 550 euros. Assim, conta faturar por mês cerca de 900. "Se correr mal, arrendo a estudantes a partir de setembro", conclui.

Os dados do Registo Nacional do Alojamento Local mostram que há 37 casas neste regime no concelho da Amadora, 58 em Loures ou 23 em Odivelas. No país inteiro, há mais de 67 mil, segundo números do Turismo de Portugal publicados nesta semana. No que toca a preços, o portal de estatísticas do Airbnb situa o valor médio dos alojamentos na capital em 87 euros por dia.

Arrendar ao dia não é opção para Pedro P., proprietário de um T3 no Prior Velho. Três dias é a estada mínima no apartamento de 100 m2 colado ao aeroporto. Uma semana fica por 690 euros, enquanto o mês inteiro custa 1890, com despesas incluídas. A não ser que o mês seja julho ou agosto, e aí o preço sobe para 2990 euros. "Prefiro ter pouca ocupação e não ter chatices. Arrendar esta casa apenas uma semana em cada quatro já me compensa o mês inteiro. Quem está disposto a pagar estes valores é porque está mesmo interessado. Em julho tenho uma semana reservada para um grupo de chineses", revela.

Pedro P. é um senhorio "traumatizado" pelo arrendamento de longa duração. O também proprietário de um apartamento no Bairro Alto já teve inquilinos com contratos de um ano, mas, garante, arrependeu--se sempre. "Deixavam sempre a casa toda destruída. A caução não dava para pagar nem metade dos estragos. Assim é melhor, corro menos riscos e compensa."

As contas da ALEP revelam outro cenário: que os ganhos dos proprietários com alojamento local na periferia "nunca serão muito elevados", devido à escassez de procura turística. Ainda assim, as casas de férias nas zonas periféricas criam um "segmento diferente que é o arrendamento à semana, que é coisa que não existe em Lisboa. E só por isso já é importante", conclui Eduardo Miranda.

Alojamento local na AR antes das férias

Condomínio mais caro, quotas em bairros históricos ou um limite de dias para o arrendamento de uma casa a turistas. São estas algumas das propostas que os deputados do grupo de trabalho para o alojamento local têm dis-cutido nos últimos meses. O objetivo dos grupos parlamentares é concluir as alterações à lei no próximo mês de julho, antes de o Parlamento fechar um mês e meio para férias. Para trás já ficaram propostas polémicas, como a do Partido Socialista que previa a autorização do condomínio para que um proprietário pudesse colocar um imóvel no alojamento local. Na semana passada, a secretária de Estado da Habitação defendeu no Parlamento que os hostels deixem de ser considerados alojamento local e passem a ter licença de utilização turística.

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