Ingvar Kamprad, fundador da IKEA: "A maior parte das coisas está por fazer"

O empresário sueco morreu aos 91 anos (1926-2018). Era um dos homens mais ricos do mundo e temia pelo futuro do seu legado

"Tenha em mente que o tempo é o seu recurso mais importante. Pode fazer tanto em dez minutos. Dez minutos, uma vez passados, passaram para sempre. Nunca os poderá recuperar." Estas são as frases finais do Testamento de um Vendedor de Móveis escrito por Ingvar Kamprad em 1976, então com 50 anos. Um manual do conceito IKEA, em que o seu fundador considera que "a maior parte das coisas ainda está por fazer". Em permanência.

O fundador da IKEA não foi homem de perder tempo. Diz a sua biografia oficial que aos 5 anos se estreou no mundo dos negócios a vender caixas de fósforos aos vizinhos. O pequeno Ingvar convenceu uma tia a comprar-lhe as caixas de fósforos por atacado e ele vendeu-as a "dois ou três öre cada, por vezes até cinco", contou num DVD sobre a sua vida, distribuído aos funcionários da companhia no Natal de 2007. Aos 17 anos fundou a IKEA - I de Ingvar, K de Kamprad, E de Elmtaryd e A de Agunnaryd [a quinta e freguesia onde cresceu]. Vendia canetas, molduras, relógios e meias de nylon. Só cinco anos mais tarde, em 1948, começou com o mobiliário. As famosas embalagens planas surgiriam três anos depois, quando um dos seus funcionários se viu e desejou para pôr na bagageira de um Volvo uma mesa - e resolveu tirar--lhe as pernas.

Ingvar Kamprad morreu no sábado, aos 91 anos, em casa, rodeado da família e amigos mais chegados na sequência de uma "breve doença". Era o oitavo homem mais rico do mundo, estima a Bloomberg. Tinha uma fortuna de 46,4 mil milhões de euros e espantava o mundo porque usava roupas em segunda mão, conduzia um Volvo antigo e viajava em low-cost. Em 2006 veio a Lisboa visitar a primeira loja do império, inaugurada dois anos antes. Hospedou-se numa pensão na Praça da Alegria e usou o 12 da Carris para chegar a Alfragide.

Durante quase 40 anos, Kamprad viveu fora do seu país, para poupar nos impostos. Em 1963 mudou-se com a mulher e três filhos para a Dinamarca, 15 anos depois para a Suíça. Numa das raras entrevistas que deu, à televisão sueca, em 2016, disse que quando ganhou o primeiro milhão sentiu-se "independente". Mas com a fortuna a aumentar começou a sentir-se dependente e decidiu mudar o local onde vivia, para não pagar tantos impostos.

Kamprad cultivou um estilo de vida discreto e espartano. "Está na natureza de Smaland ser poupado", disse. Smaland soa familiar - e é. É o espaço que as lojas IKEA dedicam aos mais novos para brincarem enquanto os pais fazem compras. E é o nome da província sueca de onde é natural Kamprad. O gigante sueco, conhecido por tratar pelo nome cada peça que vende, do pincel de pastelaria à estante (as Billy são um sucesso mundial de vendas), ainda não terá batizado nenhuma peça com o nome do fundador.

Não são apenas as embalagens planas, o design para todos, as peças que tratamos por tu e o apelo a descobrir a apetência para a bricolage que talvez exista dentro de cada um que fazem as lojas idealizadas por Kamprad. Em 1960, abre o primeiro restaurante da marca na loja de Almhult: "Estômagos vazios não compram sofás."

Nem tudo foram rosas na sua biografia oficiosa. Em 1994, um jornal sueco titulava o envolvimento do empreendedor no movimento nazi, entre os 16 e os 25 anos. Kamprad - contou a The New Yorker - escreveu uma carta (à mão) aos funcionários, "O meu maior fiasco". Justificava-se com a juventude e como foi "ridículo e estúpido". Acabou por pedir desculpas públicas: "Perguntei-me: quando é que um velho é perdoado pelos pecados de sua juventude? É um crime ter sido criado por uma avó alemã e por um pai alemão?" O incidente não lhe retiraria o estatuto de herói. Havia o "sonho americano" e Kamprad há muito fizera nascer o "sonho sueco".

Trabalhou até ao fim da sua vida. Há 20 anos que não tinha nenhum cargo operacional na empresa mas era consultor sénior. Na entrevista de 2016 manifestou o receio de a empresa perder a cultura de sustentabilidade depois da sua morte. "Construímos todo o negócio baseado nela [a ética local]", disse. "Estamos num momento de luto pela perda do nosso fundador e amigo Ingvar. O seu legado será sempre recordado e admirado durante muitos anos e a sua visão - criar um melhor dia-a-dia para a maioria das pessoas - continuará a orientar-nos e a inspirar-nos", disse ontem Jesper Brodin, CEO e presidente do Grupo IKEA em comunicado.

O livrinho Testamento de Um Ven- dedor de Móveis terá sido reproduzido milhares de vezes. É uma espécie de mantra para o sucesso em nove passos: "A sensação de ter terminado alguma coisa é um eficaz comprimido para dormir. Uma pessoa que se reforma a pensar que já fez a sua parte vai facilmente murchar. Uma empresa que sente ter alcançado o seu objetivo vai facilmente estagnar e perder vitalidade."

A IKEA nasceu em 1943 em Almhult, na Suécia, e tem atualmente 412 lojas em 49 países (cinco em Portugal).

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