Indústria nacional mostra-se ao mundo e Costa e Scholz discutem "cooperação"

São 109 as empresas portuguesas representadas na maior feira industrial do mundo, de entre os 2500 expositores da Hannover Messe, na Alemanha. António Costa visitou ontem o recinto, acompanhado do chanceler alemão.

Portugal é o país em destaque na edição deste ano da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo que decorre até quinta-feira, na Alemanha, e que o primeiro-ministro português visitou ontem, acompanhado de Olaf Scholz, o chanceler alemão. António Costa disse aos jornalistas que Portugal tem uma "localização extraordinária para quem quer produzir para o resto do mundo", salientando que o país está "à menor distância de todos os outros continentes". E sublinhou que "habitualmente temos 40 empresas nesta feira, desta vez estamos com 109 empresas e em áreas muito diversas: desde a área da produção de peças, às áreas mais sofisticadas de tecnologias industriais, de software, na área digital e muito forte também na área da energia".

Entre os expositores portugueses presentes em Hannover está a Introsys. Com 20 anos de experiência em automação industrial, sensores e máquinas com sistemas de controlo, a empresa, de Palmela, tem no setor automóvel o seu principal cliente. Mas a pandemia, e a retração do mercado automóvel - a faturação está, ainda, a metade dos valores de 2019 -, levou a empresa a olhar com mais atenção para outros setores industriais, como o têxtil ou a área alimentar, que estão crescentemente a apostar na automação. E é disso que está à procura na Hannover Messe, onde marca presença pela primeira vez. "Quando se tem a indústria automóvel por foco durante 18 anos, não sentimos necessidade de nos darmos a conhecer. Mas quando queremos voltar-nos para outras indústrias, já temos que nos apresentar e ir à procura de clientes e é isso que aqui estamos a fazer", diz Matilde Figueiredo ao DN/Dinheiro Vivo.

Com 150 trabalhadores - dos quais mais de 30 estão nas filiais do México e na China -, a Introsys tem apostado em investigação e desenvolvimento tecnológico nos últimos 12 anos, tendo desenvolvido 15 projetos de I&D apoiados pelos sistemas de incentivo nacionais e europeus, todos muito direcionados para os temas da industria 4.0, ou seja, na área dos sistemas de visão, da inspeção de qualidade através de ensaios não destrutivos, da robótica móvel e dos sistemas com robôs colaborativos, ou seja, com sensibilidade ao toque.

E no stand da empresa, no pavilhão 9 da feira, é possível conhecer a sonda que a Introsys desenvolveu, em parceria com a Universidade Nova, para a Autoeuropa, e que permite "detetar defeitos em peças soldadas a laser com tecnologia de correntes induzidas". Mas não só. O sistema de localização de veículos em tempo real desenvolvido pela Siemens Portugal em parceria precisamente com a Introsys, esteve ontem em grande destaque no stand da multinacional alemã. O cliente foi a Autoeuropa, fábrica que produz cerca de 200 mil carros ao ano, tendo, por isso, um "tráfego intenso" de veículos para o transporte de peças e de materiais para as linhas de montagem. O novo sistema não só "monitoriza e controla o tráfego, otimizando rotas e aumentando a segurança", como permite que veículos autónomos "identifiquem e obedeçam aos semáforos" nos corredores e cruzamentos da fábrica de Palmela.

Insparya e Cristiano Ronaldo


O que têm em comum Cristiano Ronaldo e tecnologia? A Insparya, a rede de clínicas especializadas em transplantes capilares, que conta com o futebolista como um dos investidores. A Insparya está representada na Hannover Messe pela sua equipa de investigação na área da robótica e mecânica, que pretende aproveitar a passagem pela feira para procurar potenciais parceiros de componentes e tecnologia para ajudar ao desenvolvimento dos seus dispositivos médicos, explicou ao DN/Dinheiro Vivo João Casanova.

E apesar de uma "hair company" parecer, à primeira vista, deslocada no meio de um mundo de tecnologia, a verdade é que a imagem de Cristiano Ronaldo a toda a largura do stand da Insparya atrai o olhar de quem passa e, poucas horas depois do arranque da feira, já tinham sido distribuídos uma série de flyers informativos.

"Estamos habituados a fazer convenções médicas, mas esta é a primeira feira. Vamos avaliar como corre para depois decidir", diz Pedro Morais.
A tecnologia que a Insparya desenvolveu está em fase de registo de patente, mas a passagem pelo evento é também uma oportunidade para a empresa angariar clientes para os transplantes capilares que realiza nas sete clínicas que tem em funcionamento, das quais três em Espanha. Ainda neste ano abrirão as unidades em Milão, Itália, e em Paris, França, de um extenso programa de expansão que prevê mais dez a 15 clínicas até 2025, num investimento de 25 a 40 milhões de euros. Para 2023 está já agendada uma nova abertura, no Dubai

Dos 2500 expositores da Hannover Messe, 43% são empresas alemãs, mas Portugal assegura a segunda maior delegação estrangeira presente, a seguir a Itália que conta com 157 stands. O top 3 é ocupado pela Turquia, que conta com cem empresas representadas. Esta é uma edição mais curta do que o habitual, muito por efeito ainda da pandemia de covid-19, já que não são esperados nem expositores nem visitantes asiáticos.

Em 2019, a última edição presencial, a Hannover Messe, contou com um total de 6500 expositores e 200 mil visitantes; neste ano são esperados cerca de metade. Com Lusa

Cooperação em tempo de guerra

António Costa e o chanceler da Alemanha estiveram uma hora e meia a visistar os expositores da feira, mas, na véspera, jantaram juntos, num encontro fechado à comunicação social. No entanto, o primeiro-ministro português revelou aos jornalistas que os dois tiveram uma conversa longa sobre como os dois países "podem cooperar em conjunto".

"A Europa revelou uma vulnerabilidade grande do ponto de vista energético e Portugal tem condições únicas para ser uma plataforma de fornecimento de energia à Europa", reiterou.

Questionado sobre se a Alemanha demonstrou interesse em receber o gás natural reexportado por Portugal, o primeiro-ministro foi foi taxativo: "A Alemanha precisa
de gás, ponto. Se ele vier também do porto de Sines, excelente, mas do que
[a Alemanha] precisa basicamente é de gás".
Com Lusa

Em Hannover. A jornalista viajou a convite da Siemens

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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