Há 615 mil famílias com prestações de crédito em atraso

O número de devedores diminuiu. Ainda assim, 147 mil famílias não conseguiam pagar a prestação da casa no final de 2015

O número de famílias com prestações de crédito em atraso recuou em 2015 para níveis pré-troika. Ainda assim, as restrições orçamentais dos portugueses estão longe de ser ultrapassadas. Em dezembro, havia 614 626 famílias que não conseguiam honrar os seus compromissos financeiros junto da banca. E cerca de 147 mil deixaram de pagar as prestações do crédito à habitação, tradicionalmente o último a entrar em incumprimento.

Segundo os dados da Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal, o número total de incumpridores está em queda há três trimestres consecutivos. De janeiro para dezembro, 37 mil famílias conseguiram escapar às malhas do incumprimento.

Apesar de sublinharem a melhoria dos indicadores, os especialistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo são cautelosos na interpretação dos dados e defendem que ainda não é possível falar em inversão sustentada da tendência. As taxas de juro historicamente baixas e as tendências macro favoráveis poderão contribuir para uma redução ainda mais expressiva do malparado neste ano. Natália Nunes, responsável do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado (GAS), refere que "se assistiu nos últimos tempos a uma diminuição da taxa de desemprego e que o incumprimento (crédito malparado) tende a acompanhar a taxa de desemprego, ainda que com algum desfasamento". Mas alerta que o desemprego é ainda elevado e continuará a pressionar o orçamento das famílias. Também o ministro Vieira da Silva admitiu ontem que "a taxa de desemprego continua a ser um problema muito significativo", apesar da descida registada em 2015. Os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que a população desempregada, estimada em 646,5 mil pessoas, recuou para 12,4% em 2015, uma queda de 1,5 pontos percentuais em relação a 2014.

Para a responsável do GAS é preciso relembrar outros indicadores de incumprimento: "O registo de particulares na lista pública de execuções está a subir e mais de 30 mil famílias pediram ajuda à Deco em 2015." E, se é verdade que alguns consumidores estão a conseguir sair da situação de desemprego, "estão a fazê-lo em situações precárias, na maior parte das vezes com rendimentos correspondentes ao salário mínimo nacional, o que não permite reequilibrar os encargos assumidos".

No crédito à habitação, cerca de 147 mil famílias não conseguiam pagar as prestações no final do ano passado, o que representa o valor mais baixo dos últimos três anos. Já no crédito ao consumo, o incumprimento é mais elevado: cerca de 550 mil famílias têm prestações em atraso. É preciso recuar a junho de 2009 para haver um número inferior. Para Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB, a melhoria de alguns destes indicadores poderá ser um reflexo do "processo de ajustamento de preços, que a queda no petróleo está a causar nos demais bens e serviços da economia".

Os dados apresentados nas contas dos bancos portugueses relativos a 2015 já mostravam que além de a qualidade do crédito ter sofrido melhorias, o registo de imparidades tem também diminuído de forma acentuada, recorda (ver texto ao lado).

Nove em cada cem euros por pagar

O setor bancário tinha, no final de 2015, 17 596 milhões de euros em crédito de cobrança difícil tanto nas famílias como nas empresas. Feitas as contas, 8,76 em cada cem euros concedidos pela banca estão em incumprimento. No entanto, o crédito malparado nas empresas (12 601 milhões de euros) diminuiu para o valor mais baixo desde janeiro de 2015. Por sua vez, nas famílias, os empréstimos vencidos (4995 milhões) estão ao nível de setembro de 2012. Os dados do final de ano beneficiam historicamente de dois fatores: dezembro é um dos dois meses em que os portugueses têm maior folga orçamental - devido ao pagamento do subsídio de Natal - e é a altura em que os bancos "limpam" a carteira.

Caso se confirmem as estimativas mais otimistas para a economia nacional, é possível que "a qualidade do crédito aos agentes económicos portugueses melhore significativamente neste ano", arrisca o gestor da XTB.

Já para Natália Nunes, o incumprimento tem na sua génese problemas mais estruturais, como carência na literacia financeira, aconselhamento bancário e apoios sociais. E revela que "as taxas de esforço apresentadas pela população apoiada pela Deco voltam a exceder amplamente a percentagem aconselhada". A taxa de esforço máxima recomendada situa-se nos 40%, enquanto a amostra analisada reflete que 77% dos seus rendimentos totais são destinados ao pagamento de prestações mensais de crédito.

Além disso, o último mês de 2015 ficou também marcado por um renovado aumento da concessão de crédito. A banca emprestou 4,6 milhões a empresas e famílias, o valor mais elevado desde junho de 2014. "A média de contratos de crédito por agregado familiar aumentou, particularmente no que respeita a contratos de créditos ao consumo e cartões de crédito", diz a responsável.

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