Governo quer saber consequências do brexit para as empresas

Vendas de calçado português para o Reino Unido estão em queda. É o quinto maior mercado do setor nacional

As exportações de calçado estão a crescer praticamente em todos os mercados, mas as vendas para o Reino Unido estão a cair 4,4%. Um valor relevante, se se tiver em conta que é o quinto maior mercado de destino do calçado nacional, representando cerca de 12% das exportações. Os empresários apontam para o efeito brexit e o governo admite que a decisão de saída do Reino Unido da União Europeia está a afetar as empresas nacionais.

Questionado sobre a questão, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que ontem visitou as empresas portuguesas presentes na Micam, a maior feira de calçado do mundo, assumiu que está a acompanhar a situação e que irá, em breve, reunir-se com os maiores exportadores nacionais para o Reino Unido, acompanhado do secretário de Estado da Internacionalização e da AICEP. "Um ano depois do referendo, e no decurso desta negociação, queremos ver com os principais interessados que avaliação fazem das consequências do brexit", diz.

A data não está, ainda, definida, mas o ministro já encarregou o seu gabinete de conciliar a sua agenda com a do secretário de Internacionalização, Eurico Brilhante Dias. Santos Silva reconhece que "é preciso, sempre, acompanhar com muito cuidado os números, mas, também, ouvir as pessoas". E nada melhor do que os empresários para explicarem ao governo o que está a acontecer na frente empresarial no que diz respeito à relação económica com o Reino Unido. "Uma coisa é certa, este é o quarto maior cliente [da economia portuguesa] e um dos principais fornecedores, sendo o primeiro mercado de origem dos turistas que demandam Portugal e, por isso, é muito importante o relacionamento bilateral com o Reino Unido", afirmou Augusto Santos Silva, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo.

Uma coisa é certa, garante o ministro: o brexit não vai esmorecer as relações entre os dois países, pelo contrário. "Reuni-me com o ministro Boris Johnson, na semana passada, em Tallinn, à margem da reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia e uma das conclusões do encontro foi o reafirmar do que já tínhamos ambos dito em Londres na primavera. O brexit não significa nenhuma atenuação do relacionamento bilateral entre os dois países. Eu até diria mais, implica um reforço desse relacionamento."

A indústria do calçado exporta 95% da sua produção para 152 países em todo o mundo, pelo que os apoios à internacionalização são das questões mais sensíveis para o setor. Numa altura em que se começa a debater o desenho do próximo quadro comunitários de apoio, os industriais de calçado manifestam preocupação face a uma eventual descida do financiamento. Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado da Internacionalização, garante, no entanto, que o apoio ao crescimento externo das empresas portuguesas continuará a ser uma prioridade. Mas, ainda neste mês, o governo reunir-se-á com as principais associações industriais.

Luís Onofre, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), admite que "todos os quadros comunitários têm diferentes nuances", no entanto, sublinha, os apoios à internacionalização "são fundamentais para o crescimento", já que o setor tem, ainda, "algumas debilidades a nível de marcas individuais"."O governo já lançou a discussão do programa 2020-2030 e está marcada, já para a semana de 25 deste mês, uma reunião no Porto, inclusive com a presença do senhor primeiro-ministro, onde serão discutidas as prioridades com algumas associações", diz. Sendo certo que "Portugal continua a precisar de mais exportações e de atrair mais investimento direto estrangeiro para ter um crescimento sustentável, criando emprego e valorizando os salários dos portugueses", pelo que "a internacionalização vai continuar a ser uma prioridade".

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