Gonçalo Soares da Costa: "Escalada de preços na habitação é um obstáculo sério à natalidade"

Gonçalo Soares da Costa é o CEO do Mercadão.

Como antevê o retrato da saúde em Portugal?

Creio que a crise pandémica, de entre outros ensinamentos, veio recordar que no fundo "a saúde é o mais importante", como se costuma dizer. Essa importância, a par com maior escrutínio público, deverá implicar o reforço do investimento nas estruturas do SNS, bem como a requalificação das carreiras no sector.

De que forma poderá o país voltar a colocar a economia na rota de crescimento?

No contexto actual, passará por uma disciplinada aplicação dos fundos hoje disponíveis, com foco em apoiar as empresas, que devem ser o principal motor da economia. Seria importante, também, favorecer o investimento nas empresas e o reinvestimento pelas empresas, assim incentivando uma lógica de crescimento dos negócios no longo-prazo, sem a qual é mais difícil gerar valor que possa depois ser redistribuído na forma de melhores salários e mais investimento privado.

Como antevê o retrato da saúde em Portugal?

Creio que a crise pandémica, de entre outros ensinamentos, veio recordar que no fundo "a saúde é o mais importante", como se costuma dizer. Essa importância, a par com maior escrutínio público, deverá implicar o reforço do investimento nas estruturas do SNS, bem como a requalificação das carreiras no sector.

Qual seria para si o governo ideal para o país?

Um Governo de consenso, que olhasse para os desafios do curto-prazo sem descurar uma estratégia de longo-prazo rumo a um país mais justo e solidário, mas também mais competitivo e menos dependente do Estado.

Salário mínimo: um desafio ou uma oportunidade? Vai ajudar ou desajudar o país?

Não creio que, isoladamente, ajude ou penalize o país. Terá um impacto menos bom na actividade exportadora no curto-prazo, mas poderá contribuir para um aumento do consumo e assim favorecer sectores como retalho, hotelaria e restauração, que são grandes empregadores. Contudo, como dizia acima, acredito que terá mais impacto a política de investimento público e de alocação de fundos às empresas; o nosso foco devia ser fortalecer os sectores, para a discussão do salário mínimo (que deveria ser excepcional) ter menos tempo de antena. Creio que a bitola está invertida.

A natalidade é um dos desafios nacionais. Que medida(s) poderá o novo governo
implementar para colmatar a falta de nascimentos?

Penso que é um desafio de rendimento: a escalada de preços na habitação, sobretudo, é um obstáculo sério no contexto de um país com rendimento médio abaixo (e divergente) do Europeu. Creio que as medidas ao alcance do Estado devem centrar-se em aumentar o rendimento disponível, possivelmente com benefícios em sede fiscal (muito) mais relevantes que os hoje existentes; de outra forma o incentivo é baixo, especialmente num contexto cultural desafiante em que é menos consensual o papel da família nas sociedades europeias.

Envelhecimento ativo é outra preocupação. O que fazer em 2022 para cuidar dos mais velhos (que tanto sofreram, ficando isolados com a pandemia)?

Com a pirâmide etária a inverter-se, julgo que é necessário aprofundar o debate sobre os apoios que deveriam ter os cuidadores informais, hoje pouco reconhecidos, mas que terão um papel fundamental para que os mais velhos possam envelhecer com o apoio das suas famílias.

Alterações climáticas: que contributo irá dar, a título pessoal e através da sua empresa para colmatar esses efeitos?

Pessoalmente, procurando ser responsável pela forma como uso, reutilizo e reciclo a enormidade de embalagens, sacos, garrafas e caixas que passam pela nossa vida. No Mercadão, aguardamos que as condições sanitárias o permitam para introduzir uma nova política de recirculação dos sacos de entrega, que com a nossa escala deverá ter um impacto relevante e que é algo que os consumidores, felizmente cada vez mais atentos ao tema, nos têm vindo a pedir.

Qual é aquele livro/desporto/viagem/atividade que tem vindo a adiar e que quer mesmo ler/fazer no novo ano?

Finalmente fazer uma maratona!

Um luxo para si, em 2022, é?

Será (espero) poder voltar a trabalhar, viajar, jantar, enfim, fazer a vida novamente como em 2019, antes da pandemia.

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