Fomos campeões nas ausências ao trabalho por causa da covid

Dias de trabalho perdidos cresceram 67%. Lay-off teve maior impacto no segundo trimestre, e a doença foi o que manteve mais trabalhadores em casa na reta final do ano.

Portugal está entre os países da União Europeia onde a pandemia mais gerou, no ano passado, dias de trabalho perdidos, com as ausências ao trabalho a dispararem 67% em comparação com o ano anterior.

Nos cálculos do DN/Dinheiro Vivo com base em novos microdados divulgados ontem pelo Eurostat, houve no ano passado menos 175 milhões de dias trabalhados no país. Foram mais 70 milhões de dias de ausência na comparação com o ano anterior.

Os dados para Portugal contrastam com um crescimento de apenas 38% nos dias de trabalho perdidos no total da União Europeia, com os países do bloco a registarem em conjunto 6,6 mil milhões de ausências ao trabalho, mais 1,8 mil milhões do que em 2019.

Se o crescimento de ausentes em Portugal ficou bastante acima daquele que se observa no conjunto dos 27, o país não regista ainda assim perdas de dias de trabalho tão acentuadas como as que se verificam em Itália e Espanha, onde as ausências ao trabalho ficaram mais perto de duplicar na comparação com o cenário de 2019 (mais 86% e mais 82%, respetivamente).

Já entre os países que menor impacto sofreram em termos de perda de dias de trabalho estão a Finlândia e os Países Baixos, onde as ausências ao longo do ano subiram apenas 8% relativamente ao ano anterior.

No caso português, as mulheres foram as ausentes em 58% dos mais de 175 milhões de dias de trabalho perdidos neste que foi um período marcado pelo encerramento de escolas e pela necessidade de prestar assistência a menores sem aulas presenciais. Os dados portugueses têm vindo a mostrar que têm sido as trabalhadoras, desproporcionalmente, a assumir esse papel. No conjunto dos 27, a percentagem que as mulheres representam no total de dias de trabalho perdidos desce para 53%.

Os cálculos do DN/Dinheiro Vivo têm em conta os dados globais para a União Europeia e, isoladamente, apenas os países para os quais o Eurostat reúne dados semanais de trabalhadores ausentes completos - quer para 2019, quer para o ano de 2020 - permitindo assim comparações. Para o cálculo do total de dias perdidos, assume-se a existência de semanas de cinco dias.

Os dados do Eurostat reportam, via inquérito ao emprego, o número de trabalhadores ausentes do trabalho em cada uma das semanas do ano, por motivos que incluem desde o gozo de dias de férias a baixas por doença e medidas de redução de horário ou suspensão de contrato de trabalho, como o lay-off simplificado que na primavera do ano passado abrangeu mais de 600 mil trabalhadores em Portugal.

Abril, aliás, foi o mês no qual a pandemia mais teve impacto nas ausências ao trabalho, justificando sensivelmente metade dos dias perdidos a mais relativamente ao ano anterior.

Os microdados disponibilizados pelo Eurostat também dão conta daquelas que foram as principais razões que motivaram a ausência dos trabalhadores ao longo do ano - aqui, em termos da média trimestral de ausentes - e confirmam a preponderância do lay-off nos dias de trabalho perdidos no segundo trimestre do ano passado.

Nesse período, estiveram ausentes mais de um milhão de trabalhadores, 63% dos quais por estarem abrangidos por medidas de lay-off. O segundo principal motivo foram as baixas por doença, que justificam 16% das ausências dos trabalhadores portugueses contabilizadas nos meses de abril a junho.

Já no terceiro trimestre, numa média de 784 mil trabalhadores ausentes, o gozo de férias foi o principal motivo do afastamento do local de trabalho. Dois terços das ausências tiveram este motivo.

No último trimestre do ano, porém, as baixas por doença motivaram praticamente metade das ausências. Ao certo, 46% de entre mais de 400 mil ausentes contabilizados nos meses outubro a dezembro não trabalharam porque estavam doentes.

Maria Caetano é jornalista do DInheiro Vivo

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