Falta de mão-de-obra qualificada põe em risco crescimento da construção

Construtores dizem que são precisos mais 80 a 100 mil operários para suportar o acréscimo de produção de 4,5% previsto para este ano. Sindicatos reclamam melhores salários

Faltam carpinteiros, eletricistas e outros operários qualificados. A falta de mão-de-obra "começa a ser um problema" na construção e será, muito em breve, um fator "limitativo ao seu crescimento". O alerta é de Ricardo Gomes, da Federação Portuguesa da Indústria da Construção e Obras Públicas (Fepicop). Nas suas contas são necessários 80 a 100 mil trabalhadores neste ano.

O problema agrava-se pela falta de competitividade dos salários, defende o Sindicato da Construção. "Jamais virão os mais de 200 mil trabalhadores que saíram de Portugal nos últimos seis anos."

Ricardo Gomes reconhece que os salários mais altos pagos na Europa estão a impedir o regresso de muitos trabalhadores e fala num "desencontro complexo" de necessidades de mão-de-obra no espaço europeu que está a "prejudicar" os países com condições económicas "menos vantajosas", como Portugal. Assume, no entanto, que os preços praticados nas obras em Portugal não permitem ainda pagar melhor.

Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, aponta o dedo à "clandestinidade" no setor, mas também aos donos de obra: "Há concursos públicos que ficam desertos porque os preços-base apresentados ainda não são realistas." O que não é um exclusivo das obras públicas. "Fala-se muito da subida dos preços das casas, mas a verdade é que a fatia de leão fica no imobiliário. O preço pago à construção praticamente não teve qualquer acréscimo nos últimos 10 ou 12 anos. O que, se retirarmos o efeito inflação, indica que, em rigor, até baixaram", frisa Ricardo Gomes.

Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção, lamenta que os trabalhadores estejam a "contribuir, e muito, para o crescimento e desenvolvimento da economia do país", sem que isso se reflita nos salários. "É preciso estimular o capital humano", defende. "Há empresas que pagam acima da tabela, claro que sim, mas há muitos trabalhadores a ganhar o salário mínimo e que todos os dias emigram." O sindicato reclama um salário de 730 euros para trabalhadores indiferenciados e de 800 euros para operários qualificados.

Reis Campos acha que o problema não está aí. "A tabela é virtual. O que conta é o que as empresas pagam aos trabalhadores. Com a falta de mão-de-obra, um operário tem portas abertas em todo o lado para mudar", argumenta.

E como se resolve então a questão da falta de mão-de-obra quando há 50 mil trabalhadores da construção ainda inscritos nos centros de emprego? Com fiscalização mais apertada, pedem os patrões. Mas Ricardo Gomes lembra que o ritmo de redução dos desempregados da construção é significativo: uma redução homóloga acumulada de 28% no final do ano. "Mesmo que se reduza a zero o desemprego da construção, ainda faltarão outros tantos."

A solução passará, acredita, por criar condições para a contratação de trabalhadores estrangeiros para o setor, devidamente formados para tal, mas também por uma mudança cultural.

"Precisamos de alterar os métodos de construção e até a tipologia de edifícios em que vivemos, incorporando soluções de prefabricação, de modo a exigirem muito menos operários nas obras", defende Ricardo Gomes, que acredita que o problema da escassez de mão-de-obra se tornará "permanente" no futuro, dado o envelhecimento da população.

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