O Web Summit está a mudar a imagem e a realidade de Portugal

Entrevista com Francisco Lacerda, presidente da Cotec. A meio do mandato o empresário acredita que o encontro de tecnológicas vai mudar o país

As empresas estão sensibilizadas para a importância da economia circular?

A maioria está nos passos iniciais mas queremos acelerar essa consciencialização. É uma área em que há oportunidades para aproveitar - algumas empresas já o fazem.

Que tipo de empresas?

Os retalhistas, Sonae, Jerónimo Martins e a Inditex estão em posição de poder ser pivots entre produtores e consumidores na questão de fechar o ciclo, que significa reutilizar, reaproveitar, refabricar, reciclar. O plano é evitar a produção de resíduos, produzir com mais eficiência e utilizar ao máximo o valor de cada produto. O tema está na ordem do dia em Bruxelas, há um plano de ação e vai haver medidas de incentivo para determinados caminhos e penalização para outros. E as penalizações são ameaças para alguns modelos de negócio. As empresas terão de tomar medidas.

A economia circular é a maior aposta política na criação de emprego

E terão de adaptar competências?

Vivemos uma transformação digital. As empresas estão a mudar para serem cada vez mais digitalizadas. Isto obriga a investimentos, mas há um risco tecnológico e necessidade de capacitar cada vez mais as pessoas com novas competências. Quem sai das universidades tem um nível de educação e preparação como nunca houve. Nas áreas mais tecnológicas há falta de oferta. Os engenheiros que estão a ser formados são muito menos do que os que precisamos. A Cotec tem respondido aos desafios da inovação desenvolvendo talento.

De que forma?

Fizemos o Transforma Talento - uma agenda de identificação e desenvolvimento de talento nacional que conta com todos os ciclos do processo educativo. Lançámos o Portugal, País de Excelência em Engenharia para aumentar a vontade dos alunos do secundário de fazerem cursos nesta área e o Prémio Muda, que visa distinguir projetos de inovação no superior. E estamos a preparar um desafio para universitários, para encontrar soluções para acelerar a transição para a economia circular, um concurso de ideias para apresentar a tempo do encontro nacional Cotec.

Para pôr o tema na agenda?

A economia circular é talvez a maior aposta política a nível europeu de criação de emprego, porque com a reutilização, o refabrico e a reparação, quando se promove o fecho do ciclo, volta-se a criar postos de trabalho em que alguns skills podem ser reaproveitados. Tudoisto passa por uma agenda mobilizadora. Nós estamos a fazer o nosso papel.

Falou na cibersegurança. Há iniciativas também nessa área?

Estamos a preparar iniciativas para apoiar as empresas na ciber-resiliência. Aproveitando o Web Summit, vamos estabelecer uma ligação mais próxima, na área da transformação digital e cibersegurança, com um dos países que mais inovação tem produzido - Israel. Vamos fazer um business network com parte importante da comitiva israelita.

Os engenheiros que estão a ser formados são muito menos do que os que precisamos

Portugal vai estar no centro da inovação. Termos captado o Web Summit é uma oportunidade para gerar mais valor?

É certamente. A ebulição em torno das startups tecnológicas alarga o impacto a tudo. Hoje há muitos portugueses e estrangeiros que acham que Lisboa é a melhor localização para as suas startups, o que traz inovação, pessoas qualificadas, capitais para financiar esses projetos, cria um efeito bola de neve positivo. O Web Summit é um enorme acelerador dessa vontade, pela troca de experiências, impressões e oportunidades de negócio que traz, pelo impacto que tem. A imagem e a realidade de Portugal estão a mudar em cima disso. Todos os fenómenos económicos são realidade e perceção e há que trabalhar sobre ambas. O Web Summit fá-lo.

O que é essencial para essas empresas se fixarem aqui?

É preciso que este ecossistema de inovação se vá robustecendo. Já há muitas condições garantidas, como a localização, sermos um país seguro, a infraestrutura tecnológica, o que tem de ser reforçado é que quem investe e estas empresas se aproximem mais, para que Lisboa ascenda no ranking de cidades europeias onde é mais fácil lançar iniciativas deste género.

Gostava que os associados sentissem uma proximidade grande à Cotec

Está a meio do mandato. O que precisa conseguir para o considerar bem-sucedido?

Gostava que os associados sentissem uma proximidade grande à Cotec, que a Cotec lhes é útil e que as iniciativas que promovemos vão ao encontro das suas necessidades e lhes levantam questões, ideias, pistas e oportunidades em que não tinham pensado, e que desta partilha lhes surgem reflexões interessantes.

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