Desafios para o país: 17 gestores apontam caminhos para o futuro

Na véspera de ser debatido o Estado da Nação, 17 gestores dão a sua visão para o futuro de Portugal

Pedro Ernesto Ferreira - Presidente da Future Energy Leaders - Portugal

Descentralização e democratização da energia

A descarbonização introduz na sociedade uma enorme oportunidade para, de forma sustentável, criar riqueza social e económica e a crescente eletrificação do consumo com base em fontes renováveis irá desempenhar um papel decisivo na redução de emissões de CO2 para atmosfera. A introdução massiva de geração renovável variável no portefólio de produção de energia elétrica introduz desafios ao sistema elétrico nacional: um desses desafios é a "redução" da flexibilidade do lado da produção.

Aqui reside a essência da descentralização e democratização da energia, com a mudança de paradigma em que as pessoas, por meio da evolução tecnológica, passam a desempenhar um papel ativo na transição energética. É urgente, preparar a sociedade civil para os desafios e as oportunidades da disrupção tecnológica no lado da procura, isto irá revolucionar as cidades do ponto vista tecnológico e ambiental. Neste sentido, as comunidades de energias constituem o veículo certo para concretizar a descentralização elétrica e o empowerment da sociedade.
Um dos principais desafios do país nos próximos anos é aliar o crescimento económico com os princípios da sustentabilidade ambiental. Portugal precisa de refletir e desenvolver uma estratégia nacional com vista a incrementar os níveis da literacia energética, financeira e digital da sua população.

Ricardo Costa - Presidente da AE Minho e CEO Grupo Bernardo da Costa

O desafio da atração de talento

Hoje, a atração de talento é um grande desafio. A falta de pessoas para trabalhar é preocupante e no contexto pós-pandemia, com uma nova geração a chegar ao mercado de trabalho, o empregador tem de estar atento ao que as suas pessoas valorizam e ao que as pessoas que irá contratar no futuro procuram, sob pena de não as conseguir contratar.

A AEMinho está a trabalhar num programa de atração de talento para a região, Work in Minho, que está orientado em três vetores essenciais: Captação de pessoas de outras geografias, Requalificação de CVs e Operação de Marketing junto das escolas. Este programa tem um enfoque particular na mitigação da falta de pessoas, mas a atração é algo que todos os empregadores deverão estimular. Os trabalhadores pós-pandemia e em particular as novas gerações procuram para a sua vida mais do que apenas um trabalho. Cada vez mais os valores, como as preocupações ambientais ou a responsabilidade social, a cultura das empresas e o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal são alguns aspetos que pesam na decisão de ficar ou mudar. Como diria Richard Branson, "Take care of your employees and they will take care of your business. As simple as that."

Jaime Carvalho Esteves - Founder J + Legal - Sociedade de Advogados

Problemas que podem ser as nossas vantagens

Temos dois problemas graves. Tivemos a crise Covid e a guerra na Ucrânia. Mas esses dois problemas graves podem ser a nossa grande oportunidade, porque acentuaram duas tendências: a relocalização de cadeias de produção para a Europa, um certo neo-protecionismo, e uma necessidade geral de maior segurança nas cadeias de abastecimento.

O que pode significar, para nós, a oportunidade de termos aquilo que nunca tivemos: uma base industrial forte. O neo-proteccionismo, a deslocalização e a segurança dos aprovisionamentos podem conduzir a uma re-industrialização da Europa que pode ser a nossa oportunidade de criar a tal base industrial. Em concorrência, claro, com o Leste da Europa, mas até nessa competição a guerra da Ucrânia, a par da nossa posição geográfica, nos é favorável.

Portugal pode ser o porto seguro enquadrado na sua ligação ao Atlântico Norte e Sul. E daí a necessária dimensão ibérica que esse porto seguro deve ter, porque não há Atlântico Sul se não houver essa dimensão ibérica. Isto significa repensar e apostar mais na geopolítica, na geoestratégia, nesta dimensão de cavalgar a onda da relocalização das indústrias para a Europa.

O que nos conduz a um outro ponto. Não desbaratar, de novo, a oportunidade, tal como o fizemos com o ouro do Brasil e com os fundos da CEE. Refiro-me, claro, ao PRR e ao Portugal 2030. O PPR é o que é, está decidido e agora há que fazer o possível para utilizar bem a totalidade dos fundos disponíveis.

João Macedo - Country manager Akuo Energy

Urgência climática, constrangimentos e oportunidades

Há um contexto de urgência climática e a nós, cidadãos, é apontado o dedo e temos a obrigação de mudar os comportamentos. É-nos pedido, mudar, repensar a nossa maneira de deslocar, a nossa maneira de nos alimentar, a nossa maneira de consumir energia. Mas desses constrangimentos podem nascer oportunidades.

Vou focar-me sobre uma que é relacionada com o setor onde opero: a energia. Em Portugal, temos a sorte de ter uma riqueza, um recurso que outros países não têm ou têm menos, o sol. Temos um quadro regulatório que tem evoluído e que dá peso e autonomia ao cidadão para produzir a sua energia. E a verdade é que consumir a energia produzida no telhado por painéis solares é mais barato do que consumir da rede. Neste contexto, este ponto económico é fundamental porque é uma condição necessária para que esta atividade de produção descentralizada tenha um desenvolvimento sustentável e, a longo prazo.

Para concluir, uma nota positiva: as gerações mais jovens que têm uma consciência ambiental cada vez mais desenvolvida e isso dá esperança. E agora cabe a eles e a todos nós materializar essa consciência ambiental em ações concretas, aproveitando essas oportunidades.

Nuno Silva - CTO, executive board member da Efacec

Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo

Vivemos num mundo VICA e nunca o contexto foi tão Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. A uma crise pandémica juntamos uma crise económica já anterior, uma crise geopolítica e tínhamos já uma crise climática. Na verdade, todas as crises geram um contexto de mudança acelerada que podemos aproveitar. Portugal tem condições ímpares que favorecem esta transição energética acelerada, inclusiva e justa depois de uma evolução positiva, caraterizado por ter condições naturais e geográficas favoráveis às renováveis, de conhecimento e de capital humano, e o seu mix energético.

É ainda uma oportunidade para a majoração do valor criado pela cooperação entre a indústria, ENESI, entidades públicas, incumbentes e a própria sociedade, de forma a crescer na cadeia de valor. O foco deve permanecer na capacidade de diferenciação, potenciando a inovação e incidindo na capacidade de criação mas concretizando na materialização do conhecimento em soluções competitivas que nos conduzam à neutralidade carbónica. Exemplos como a complementaridade das renováveis solar, eólica e biomassa com os gases renováveis como o hidrogénio e seus derivados como o metanol e amónia verde devem ser alavancados com maior premência. A liderança de (novas) tendências já muito presentes como a mobilidade descarbonizada, digitalização, inteligência artificial e cibersegurança, novos materiais e até novos modelos de negócio e regulatórios está ao nosso alcance. Premiemos os ambiciosos. Experimentemos aquilo que criamos. Lideremos o presente para criar um futuro sustentável.

Rui Afonso - Country Manager da Iberdrola

Combater a dependência energética

A transição energética tem duas vertentes: a de desafio, de consegui-la sem interrupção nem limites de serviço, o que, tendo em conta os tempos que correm na Europa, constitui um risco; Depois, garantir que os preços da energia são acessíveis.

Em Portugal, temos uma dependência energética ainda superior a 70%. O consumo energético final é suportado em mais de 55% em petróleo e gás natural. Isto traduz-se num saldo importador de 5 mil milhões euros, dados de 2019, pré-pandemia.

Portanto, a par da redução da pegada de carbono, e consequente vantagem ambiental, a grande oportunidade é a de combater a dependência energética, tornando-nos cada vez mais autónomos e sustentáveis.

Na Iberdrola iniciámos este o caminho há 20 anos. Em Portugal, entre outros investimentos, essa aposta traduz-se no complexo de barragens no Tâmega, a inaugurar este ano, um dos maiores projectos de bombeamento na Europa e o maior investimento em barragens no país nos últimos 25 anos.Trata-se de uma realidade presente, não uma ideia abstracta de futuro. Mas exige investimento e compromisso. Temos de acelerar, sob pena de agravarmos os sérios desafios que enfrentamos.

Alexandre Meireles - Presidente da ANJE - Associação Nacional de Jovens Empresários

Mudar o paradigma da economia do mar

Portugal apresenta vantagens competitivas na economia do mar. A nossa zona económica exclusiva é a 3. ª maior da UE, temos ecossistemas marinhos com grande biodiversidade, contamos com uma zona costeira de rara beleza e dispomos de experiência profissional, conhecimento científico e recursos especializados em atividades marítimas.

É notório, porém, o subaproveitamento das potencialidades do mar português, bem como a falta de competitividade de muitas das suas fileiras económicas, em particular as mais tradicionais. As indústrias emergentes da economia do mar (saúde, cosmética, aquacultura, energias renováveis, tecnologias marinhas...) ainda têm pouco peso económico, mas encerram um enorme potencial.
É, pois, do interesse estratégico do país não apenas investir mais na economia do mar, mas sobretudo mudar o modelo de desenvolvimento do setor. Para tanto, há que apostar em atividades de maior valor acrescentado, na criação de novas fileiras industriais, em sinergias entre a academia e empresas e na exploração das energias renováveis.

Daniel Bessa - Professor e ex-ministro da Economia

Educar e formar é um imperativo

Numa sociedade do conhecimento e tecnologicamente avançada como aquela que aspiramos a ser, as pessoas, para participarem com eficácia do esforço de melhoria das suas condições de vida, têm de ser qualificadas. Científica e tecnologicamente qualificadas, com educação e com formação. Trata-se de uma condição sine qua non; necessária, não suficiente.

O investimento em educação é um imperativo. Mas, como em tudo na vida, investir não é lançar dinheiro em busca de uma aspiração. Investir é sempre parte de um processo mais amplo, no caso, muitíssimo mais amplo. Mais do que investir muito, exige-se que se invista bem.

Quais são os objetivos do sistema de ensino português, dentro do próprio sistema de ensino e, sobretudo, fora dele, no sistema económico e social? Desconheço. Se não há objetivos, não pode haver avaliação, correção de erros e de desvios, melhoria, seja de processos seja de resultados. Contratam-se professores, mais. Gasta-se dinheiro, mais.

João Torres - Presidente da APE - Associação Portuguesa da Energia

Portugal mais simples

Inúmeras frases começam por "o nosso problema é... ". Aliás, anotei uma em especial que: "o nosso problema é por isto a funcionar". Há duas boas notícias. Reconhecemos todos que temos esse problema e sabemos todos o que queremos que Portugal seja em 2030.

Há uns anos passou um programa de nome Simplex que teve histórias de sucesso. Devo dizer que deixou boa memória e que devíamos retomar em força um programa desse tipo. Nas agendas mobilizadoras de que ouvi falar esta tarde, é fundamental considerar isso. E apanhar a disponibilidade dos cidadãos, do Estado e das empresas que se percebeu durante a pandemia.

As atividades do Estado podem ser indutoras desta mobilização. Reformular e modernizar a administração pública é passo decisivo, vai arrastar empresas e cidadãos a simplificarem as suas atuações.

E temos aí a oportunidade do digital para aproveitar. A digitalização que permite resolver aquela dificuldade que todos sentimos quando demora a resposta necessária. Pode-se fazer o rastreamento de tudo, resolver aquela história do "não se sabe onde é que está!". Esta possibilidade de ter transparência suportada no digital é uma vantagem deste tempo pois elimina estruturas de controlo altamente ineficientes.

Carmo Fonseca - Cientista e Investigadora Portuguesa

Recrutar talento em países desfavorecidos

Porque sou professora universitária e cientista, a minha intervenção aborda o futuro da Ciência feita em Portugal. Hoje, apesar de o país oferecer cursos universitários de excelente qualidade e de termos excelentes centros de investigação, o número de jovens estrangeiros que nos procuram para estudar e investigar continua baixo. Portugal não está no radar dos jovens mais ambiciosos que vivem em países com poucas condições para desenvolver os seus talentos e, por isso, estão dispostos a emigrar. A minha proposta seria criar programas de recrutamento de talento internacional em países desfavorecidos.

Cada país alvo seria visitado por grupos de professores e cientistas que mostrariam o que se faz nas universidades portuguesas, tal como os empresários divulgam os seus produtos. A acompanhar estas visitas haveria um pacote de bolsas de estudo que permitiria identificar jovens com grande potencial e incentiva-los a integrarem as nossas instituições. O resultado poderia ser um aumento significativo do número de jovens dedicados à investigação e inovação em Portugal, contribuindo ao mesmo tempo para uma sociedade mais multicultural e inclusiva.

Nelson Pires - General Manager Jaba Recordati

A globalização morreu!

O mundo não pode sustentar modelos ditatoriais e autocráticos embora estes são aqueles que têm a sorte de ter os recursos naturais, sem respeitar os princípios "E.S.G.". O fabuloso da ciência é que esta nos deu alternativas, como a da energia renovável e limpa, de um sistema agrícola inteligente otimizado através da tecnologia.

A globalização falhou e está a definhar. Os valores e a visão do mundo não é a mesma, e para ser global não basta ter corporações com espaços comerciais iguais em todas o mundo... Portanto a solução não é a globalização, mas a blocalização, ou seja o bloco Europeu e a sua auto-suficiência em consumo e produção. A Europa tem de se reindustrializar e criar autonomia sustentável. Não podemos depender de "supply chains" longas que são facilmente abaladas. Mas a Europa não deve ser chauvinista com o mundo, apenas deve interagir preferencialmente com blocos que têm os mesmos valores. Mesmo o e-commerce está cada vez mais dependente do "door to door" em 24h, o que impõe o modelo "blocal". Obviamente as organizações e alguns países serão sempre multibloco com foco no seu. E Portugal tem tudo para ser um dos poucos países multibloco do planeta.

Miguel Lobo - Country Manager de Portugal da Lighsource BP

O país pode liderar a transição

Os recentes desafios que vivemos com a pandemia e a guerra na Ucrânia, evidenciaram fragilidades externas de fornecimento de energia há muito conhecidas. Precisamos por isso de uma mudança de paradigma focada na segurança energética e na sustentabilidade ambiental.

Portugal tem excelentes características para liderar esta transição. A energia solar em Portugal tem claras vantagens comparativas. Um painel fotovoltaico em Portugal produz mais 50% de eletricidade do que na Alemanha, Holanda ou Bélgica. Isto quer dizer que quando a nossa matriz energética tiver mais energia solar, a tarifa de eletricidade será menor do que é hoje. Com menores tarifas de eletricidade, a economia portuguesa será mais competitiva. Ainda assim, a energia solar tem uma contribuição superior nestes países do que em Portugal.

Importa, por isso, acelerar a implementação da energia solar em Portugal. Trabalhando em conjunto. Entidades publicas, consumidores, cidadãos, produtores de energia solar. De mãos dadas e sempre com os olhos postos no futuro.

José Pinheiro - Country Manager - Southern Europe da OW Ocean Winds

Mar, de inevitável a oportuno

A Energia é um tema incontornável. Já o é há muito tempo e tem-se intensificado nos últimos anos e meses, como consequência da necessidade urgente de se realizar a transição energética.

Por sua vez, a transição energética tem sofrido sucessivas acelerações, essencialmente em virtude de 2 necessidades: a 1ª é talvez mais silenciosa: a necessidade ambiental; a outra, é a necessidade económica das sociedades e que como sabemos, que vem ditada essencialmente motivações geopolíticas.

Certo é, que Portugal tem feito uma trajectoria consistente nesta transição energética, mas muito há por fazer perante os desafios que se impõem.

E é aqui que gostaria de vincar a minha posição: Já por algumas vezes ouvi, que o mar tem de ser parte desta transição energética - e que é, portanto, é algo inevitável. Ora aqui reside a questão: o mar não deve ser visto como uma inevitabilidade, mas sim como uma oportunidade. É, portanto, urgente, colocar o ,ar na agenda da transição energética - e que ali permaneça. É um caminho fundamental para cumprirmos a nossa jornada de transição, e que pressupõe uma enorme oportunidade socioeconómica para o nosso país.

É então urgente: desenhar um plano logico de como fazê-lo, por forma a atrair os mais capazes atores e colocar o plano em ação. Fomos pioneiros na energia eólica flutuante com o projeto WINDFLOAT ATLANTIC ao largo de Viana do Castelo - E que é 1 projeto bandeira ao nível mundial. Portanto, façamos todos o nosso papel para o continuar a ser líderes nesta sector e assim criarmos uma nova fileira de alto valor acrescentado para o país.

Pedro Reis - Gestor e consultor de empresas, ex-presidente Aicep

Crescimento económico sustentável

Recuperar a ambição é algo fácil de se desejar mas difícil de se implementar. Para o enunciar basta recuperar todo o diagnóstico feito ao longo destes 20 anos; já para o executar torna se necessário e imperioso reconectar o País com o seu futuro.

Um dos desafios com que o País está confrontado é justamente com a necessidade incontornável de gerarmos um crescimento económico sustentável para atingirmos um desenvolvimento humanista e equilibrado.

No fundo, nós como que nos acomodámos à situação, convivendo bem com o facto de crescermos pouco: não tinha de ser assim. Não deveria ser assim. Há aqui um problema de ambição, de foco, de implementação.

Tem que se começar por algum lado para recuperar a ambição: estabilizar uma visão de longo prazo e construir em cima dela com consistência e com profundidade, com coragem e com determinação.

Até esse dia vir, não nos podemos surpreender por a gente nova envolver se pouco com a política e com os níveis recorrentes de abstenção uma vez que a razão é compreensível: nós deixámos de responder às exigências do dia a dia das pessoas e perdemos a capacidade transformacional de um modelo esgotado.

A resposta é igualmente clara: há que recuperar uma nova ambição e resgatar o futuro de Portugal!

Nuno Alves - COO da ETCP

Sinais a contrariar

As últimas décadas têm pautado Portugal como early adopter no sector das telecomunicações - fomos pioneiros nos pré-pagos, nas vias verdes, nas tecnologias da fibra ótica.

Portugal ocupa, assim, um lugar cimeiro que deveríamos manter. "Week signals" como os atrasos em leilões 5G ou o aparecimento de entrantes e mão de obra estrangeiro no sector, sem um controlo regulado, são preocupantes.

São sinais a contrariar, incentivando-se os sectores que mais podem potenciar o desenvolvimento e massificação das novas tecnologias emergentes - o sector público e as autarquias locais, a indústrias e novos processos produtivos e também as empresas de Telcos.

Urge saber olhar o "copo meio cheio" e perceber as oportunidades: - a falta de fiabilidade actual das fontes de suprimento asiáticas; a implementação de fibra ótica em toda a Europa (80 milhoes de casas até 2027); os próprios fluxos migratórios e a situação geo-política que propiciam, por um lado, mão de obra e, por outro, necessidade de serviço.

João Abel Peças Lopes - Professor catedrático da FEUP

Oportunidades para o setor elétrico

As ameaças resultantes das alterações climáticas obrigarão a que a economia mundial e a sociedade em geral acomodem uma forte descarbonização. Em termos energéticos esse movimento só será possível se caminharmos no sentido de uma maior eletrificação da economia, uma vez que esta é a forma mais eficiente e flexível para promover esta mudança. Esta eletrificação terá de ser acompanhada pela produção de eletricidade a partir de energias renováveis, substituindo assim os combustíveis fósseis em vários setores da atividade económica.

Assim o setor elétrico enfrenta grandes desafios e oportunidades que resultam do previsível crescimento do consumo e de uma maior utilização de fontes primárias de energia renovável, caraterizadas por variabilidade temporal, e para as quais será necessário utilizar novos sistemas de conversão de energia.

Por outro lado, a preocupação com a necessidade em assegurar a segurança de abastecimento de eletricidade, em ambiente de mercado, e num quadro de mudança onde os consumidores terão um papel central exigirá a utilização intensiva de tecnologias de informação e das comunicações, novas metodologias de planeamento e novas ferramentas de exploração do sistema elétrico. Tudo isto só será possível investindo fortemente em investigação, desenvolvimento e inovação, tendo as Universidades e as instituições do sistema científico e tecnológico um papel crucial para assegurar o sucesso desta transição.

Estes desafios conduzem também grandes oportunidades para a indústria Portuguesa que terá de desenvolver novas soluções e equipamentos com potencial de exportação, criando assim fileiras tecnológicas que cubram toda a cadeia de valor, gerando riqueza e conduzindo à criação de emprego altamente qualificado.

Helena Painhas - CEO da Painhas

Avançar rápido e bem, agilizando processos

No contexto de grande instabilidade, e depois de uma pandemia agravada com a guerra, a crise energética (que já cá estava) veio para ficar. Gostaria de deixar duas mensagens que serão decisivas para o futuro do país. A primeira é fazer com que a transição energética aconteça rápido e bem. Para tal, é muito importante que, para além de termos toda a legislação necessária e sem zonas cinzentas, criemos uma task force multi-disciplinar, que agilize processos em todas as instituições intervenientes, para a obtenção de licenças e condições que coloquem a energia renovável na casa ou na empresa.

Para além disto, é importante sensibilizar o tecido empresarial, municípios e os portugueses, em geral, para a importância deste tema, contando com o seu apoio e sendo os mesmos parte da solução do novo paradigma facilitando, motivando e percebendo que não se trata de uma opção, mas antes será o único caminho que temos.

A segunda ideia é sobre a importância da sustentabilidade na vida das empresas. Acredito que conceitos ESG - Environmental, Social & Governance - se revestem de uma importância inquestionável e que uma empresa bem gerida e responsável, que se preocupa com os colaboradores, clientes e ambiente tem mais probabilidade de resistir melhor e superar a concorrência, criando mais valor para todos as partes interessadas.

Só com pequenas grandes mudanças teremos um futuro melhor e com mais energia.

*Os convidados foram oradores na conferência "Portugal XXI, País de Futuro", em Cascais.

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