Mais de uma em cada três empresas viram os custos do gás natural triplicar em 2022, a que se junta um agravamento de igual dimensão no custo da eletricidade para uma em cada seis unidades industriais. Os dados são do mais recente inquérito da Associação Empresarial de Portugal (AEP). A redução da atividade é a solução apontada por seis em cada dez inquiridos; 18% admite o recurso ao lay-off e 17% o encerramento parcial das unidades de produção. Oito em cada dez empresários vai cortar no investimento. Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, diz que "é imperativo" reduzir a tributação sobre a energia, "já elevada ainda antes da pandemia e da guerra", e criar "medidas efetivas e eficazes" para ajudar as empresas a "mitigar a subida exponencial" dos custos de produção. Sob pena de muitas virem mesmo a "encerrar"..Apostada em conhecer as "repercussões concretas", para as empresas nacionais, da crise energética com que a Europa se defronta, e as medidas que as mesmas gostariam de ver implementadas para "atenuar as consequências" na sua atividade, a AEP lançou um questionário que mostra que o aumento do gás natural foi da ordem dos 200%, ou seja o triplo, para 39% das empresas, sendo que, em 6% dos casos, o aumento se situou entre o dobro e o triplo. No caso da eletricidade, uma em cada seis teve agravamentos de 200%, sendo que 18% reportam aumentos entre 100 e 200%..Quanto aos combustíveis, mais de metade (53%) das empresas registaram aumentos entre os 20% e os 50%, mas 8% apontam para acréscimos entre 100 e 200%. Para um terço dos empresários, os custos da energia pesam entre 20 e 40% nos seus custos operacionais, mas há 14% em que esse peso vai dos 40 aos 60%. E para 2% dos inquiridos, os custos energéticos pesam mais de 80% nos seus custos. O inquérito, realizado junto de uma amostra de 1020 empresas, mostra ainda que só 8% dos inquiridos, ou seja um em cada 12 empresas, admite conseguir repercutir totalmente a escalada da fatura energética no preço final de venda. 46% consegue fazer uma repercussão parcial..Além da redução da atividade - inferior a 25% para 41% das empresas e de uma dimensão superior para 19% -, as empresas preveem alterar as suas gamas de produtos como resposta ao aumento dos custos energéticos. O incremento do trabalho remoto só é uma solução viável para 8% dos inquiridos, o que não admira já que 74% das respostas obtidas foram de empresas da indústria transformadora. A consequência de tudo isto é que as intenções de investimento, no curto prazo, serão reduzidas em 80% dos casos, sendo que 45% dos empresários admite um corte moderado mas 35% fala mesmo numa redução "muito significativa"..Quanto a medidas, praticamente todos os inquiridos pedem a descida dos impostos sobre a energia e o "apoio célere" dos fundos europeus. Neste domínio, AEP e associados pretendem a realocação do Plano de Recuperação e Resiliência para combater a crise energética, nomeadamente apoiando investimentos em equipamentos mais eficientes e em energias alternativas. Os empresários querem ainda que o governo reduza a carga fiscal sobre os salários e o capital, bem como a redução do IVA na aquisição de equipamentos para produção de energias verdes..Além de medidas de apoio à tesouraria das empresas, é reclamada a revisão do novo mecanismo do Mibel. Refira-se que 64% dos inquiridos não tiveram qualquer benefício com o mecanismo extraordinário recentemente acordado (de desacoplamento do preço do gás do preço da eletricidade). Interessante ainda é verificar que 13% das empresas efetuaram novo contrato de eletricidade voluntariamente, mas 30% têm novo contrato por denúncia do anterior pelo comercializador face ao disparar dos preços no mercado grossista..Sobre a amostra, 48% dos inquiridos são tanto exportadoras como importadoras de bens e 77% são PME. Quanto à localização, 61% são do Norte, 22% da Área Metropolitana de Lisboa e 17% da região Centro..ilidia.pinto@dinheirovivo.pt