Covid não acalma apetite de investidores por ativos hoteleiros

Apesar de turismo e hotelaria terem atravessado dias negros devido à pandemia, os investidores
não deixaram de tentar comprar hotéis. Depois de Porto e Algarve, Lisboa é agora o centro das atenções.

O turismo e o alojamento turístico mergulharam numa das maiores crises que há memória devido à pandemia de covid-19. A travagem a fundo que um dos motores da economia nacional sentiu não teve, contudo, reflexos no interesse dos investidores que continuam a querer apostar em hotéis em Portugal. Os contornos terão mudando um pouco, mas o apetite pelos ativos mantém-se e não há, para já, uma baixa significativa de preço.

"O setor do turismo e a hotelaria em particular tem-se revelado como um setor de grande interesse para investimento. Independentemente da pandemia não verificámos um recuar no interesse por parte de investidores. Houve sim uma alteração na forma como os investidores veem a oportunidade de investimento no setor, transformando uma perspetiva mais consolidada em fase pré-pandémica, para uma perspetiva de valor acrescentado / oportunista", explica ao Dinheiro Vivo Gonçalo Garcia, Diretor de Hospitality da Cushman & Wakefield.

Karina Simões, Head of Hotel Advisory JLL, também defende que o interesse não esmoreceu e que "do lado da procura as notícias são animadoras - a procura mantém-se sustentada numa crença de que os fundamentais do destino não se alteraram e que a iniciar-se uma recuperação, Portugal será dos primeiros países a emergir". Mas não esconde que há duas mudanças face ao período pré-pandémico: "por um lado surgiram, compreensivelmente, os investidores oportunistas, mas mantiveram-se investidores motivados a pagar um valor justo pelos ativos (com o impacto no preço que decorre da menor geração de cash flows perspetivada até 2024); e por outro lado passou a haver uma maior concentração geográfica da procura por ativos hoteleiros - a cidade de Lisboa passou a quase dominar".

Até à pandemia, a capital, tal como o Porto e Algarve, eram as localizações mais procuradas, mas agora Lisboa domina as atenções. Karina Simões explica que "a liquidez dos ativos localizados em meio urbano é maior, e se por absurdo o turismo não recuperar da forma que é expectável , uma possível mudança de uso destes ativos será com certeza mais fácil do que num hotel de resort".

O processo de vacinação em Portugal e no resto da Europa está a avançar, o que é passo importante para que mais turistas estrangeiros cheguem a Portugal. A atividade turística durante este verão deverá contar ainda muito com os residentes e será uma das pedras do xadrez para perceber como vai ficar o negócio hoteleiro. Mas não só. As moratórias públicas terminam em setembro e o governo já anunciou que vão ser colocados no terreno medidas para apoiar as empresas de turismo.

O plano de reativação do turismo, apresentado em meados de maio, incluía não só medidas para apoiar as firmas mas também para gerar negócio para o destino, algo que será feito nomeadamente através de campanhas promocionais. Em maio, Portugal conseguiu fintar a concorrência de mercados como o espanhol e grego ao conseguir ingressar no leque de 12 países que entraram na lista verde dos ingleses e escoceses, o que significa que os turistas que viessem para Portugal não tinham de fazer quarentena no regresso a casa e o fato de o País estar nesta lista traduziu-se numa espécie de selo de validação, acabando por também motivar turistas de outros destinos a virem passar férias em Portugal nas últimas semanas. Uma situação que se alterou esta semana, depois de Londres voltar a tirar Portugal da lista verde, o que pode vir a ter efeitos no verão deste ano.

"A forma como o verão de 2021 decorrer, bem como a decisão relativamente à manutenção dos apoios do Estado e moratórias bancárias, vai ditar o futuro de algumas unidades hoteleiras, cuja solidez financeira possa estar comprometida. É possível que no final do ano se assista a um aumento da oferta de ativos hoteleiros para venda, mas nesta fase é apenas futurologia", assume a responsável da JLL.

A plataforma imobiliária Hotéis para venda, que está focada na agregação de empreendimentos turísticos disponíveis para venda, contando com mais de 100 ativos identificados, explica que a amostra que tem não permite conclusões definitivas, mas não esconde que a maioria dos potenciais interessados nos ativos hoteleiros são europeus. E assume que os preços não são muito diferentes dos praticados antes da pandemia "dado que a maioria dos ativos não estão à venda por necessidade, nem é expectável que a maioria dos ativos que venham a ser colocados no mercado nos próximos meses seja devido a dificuldades financeiras".

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