"Considero essencial melhorar a qualidade da gestão nas nossas empresas e no Estado"

Fátima Carioca é diretora-geral da AESE Business School

Como antevê o retrato da saúde em Portugal?
Uma sociedade inclusiva necessita de um serviço de saúde solidário e universal. O SNS é fundamental, mas apresenta fragilidades. Tem hoje dificuldades na gestão e retenção dos seus profissionais e está igualmente descapitalizado, não conseguindo realizar os investimentos necessários em tecnologia, potenciar o aumento dos níveis de eficiência e eficácia e apostar mais na prevenção e comportamentos saudáveis. A médio-longo prazo é mais eficaz e mais barato.

O setor da saúde continuará sempre a ser prioritário. Como tal, necessita de visão estratégica, gestão e capacitação digital. Uma estratégia abrangente que envolva não apenas as autoridades públicas, mas também os privados e o setor social. Um novo paradigma que permita a gestão eficiente de pessoas e recursos. E uma revolução digital mais profunda. Um exemplo claro: Repetir exames é comum e acontece pelo facto de cada Português não ter um passaporte clínico com todos os exames registados e o historial clínico.

Qual seria para si o governo ideal para o país?
Não creio que exista um Governo ideal. Existem políticas adequadas implementadas por um Governo comprometido com os Portugueses que assuma como missão o desenvolvimento do país e da sociedade.

Por exemplo, o PRR é uma oportunidade única no relançar da economia. Pode ser uma verdadeira alavanca para potenciar a criação de riqueza e de emprego. Cabe ao Governo enquadrá-lo numa visão nacional e geri-lo eficientemente.

Também na área social, destaco várias preocupações fundamentais: combater a desigualdade, não só na distribuição de rendimentos, mas também na criação de oportunidades para todos; reter os jovens, dando-lhes condições para se constituírem como o verdadeiro motor da sociedade - Portugal está a criar a geração mais qualificada de toda a sua história, mas 30% dos jovens até aos 25 anos afirma que pretende emigrar; promover políticas de família que permitam estabilidade familiar; reforçar as políticas sociais, nomeadamente as que visam o apoio aos necessitados, a promoção da dignidade através do trabalho e a integração dos excluídos.

Salário mínimo: um desafio ou uma oportunidade? Vai ajudar ou desajudar o país?
O atual salário mínimo amarra muitas famílias no limiar da pobreza, o que significa não conseguirem viver condignamente com o resultado do seu trabalho. Muitos assumem dois ou três trabalhos o que, por seu turno, leva à destruturação social com consequências para todos e também para a economia.

Porém, para que o aumento do salário mínimo possa ser acelerado sem comprometer a competitividade do País, a solução passa por estar indexado à produtividade. Sem mais produtividade, é difícil as empresas suportarem salários mais elevados.

A natalidade é um dos desafios nacionais. Que medida(s) poderá o novo governo implementar para colmatar a falta de nascimentos?
Portugal enfrenta hoje um inverno demográfico. A solução não passa apenas por nascerem mais crianças. As políticas de natalidade devem ser acompanhadas por políticas de apoio à família, garante da sustentabilidade do modelo social em Portugal.

E este é um desafio social, que deve ser enfrentado não apenas pelo Estado, mas pelas várias estruturas da sociedade. É verdade que existem incentivos e apoios, alguns aliás não muito divulgados, mas são necessárias políticas fiscais que promovam o crescimento da família, sem penalizar os orçamentos familiares (aumento exponencial de custos de água, energia, transportes, educação, saúde, como hoje acontece) e maior colaboração, a partir da ótica da família, entre as várias instituições intervenientes, nomeadamente escolas e empresas.

Aliás, neste momento em que se debate como iremos trabalhar no futuro, seria importante não (retro)ceder numa maior flexibilidade para conciliar a vida familiar e a profissional, para acompanhar a educação dos filhos, para assistir a pais, avós ou outros familiares em situações de maior debilidade. Sistematicamente estudos concluem que, à semelhança da maioria dos europeus, os portugueses desejam (e precisam) de mais tempo para a família. A legislação laboral sobre a flexibilidade é algo que terá de ser um compromisso entre as empresas, as famílias e o Estado.

Envelhecimento ativo é outra preocupação. O que fazer em 2022 para cuidar dos mais velhos (que tanto sofreram, ficando isolados com a pandemia)?
Estamos a ganhar dois a três anos de vida a cada década. Mas se hoje esperamos viver até aos 100 anos, tal significa que a nossa vida de trabalho vai estender-se por mais de 60 anos, de acordo com o modelo atual das três etapas da vida (educação, trabalho e reforma). Isto porque a única forma de o fazer funcionar financeiramente é criar uma segunda fase de trabalho muito longa. E mesmo assim o provável impacto da idade na produtividade ou na vitalidade acabaria por tornar insustentável este modelo. Por outro lado, se não prolongamos a segunda fase, empurramos para a reforma passiva pessoas experientes, ainda com um enorme potencial (e vontade) para a criação de valor na economia e na sociedade, em geral. Concluindo, o modelo está desajustado.

A transformação rápida da nossa economia exigirá novas competências e a forma como trabalhamos sofrerá mudanças radicais. Serão necessárias mais transições de carreira, numa dinâmica multifásica entre períodos de formação, trabalho e paragens.

Para já, é mais um desafio para o Estado e os gestores: encontrarem regimes flexíveis que permitam reformar (voltar a dar forma a) estas pessoas mantendo-se, ao seu ritmo, como contribuintes ativos no presente e para o futuro.

Qual é aquele livro/desporto/viagem/atividade que tem vindo a adiar e que quer mesmo ler/fazer no novo ano?
Acho que o que gostaria mesmo de fazer era voltar a viajar. Claro que o destino interessa, mas não necessita de ser muito exótico. Há inúmeros recantos na Europa que ainda gostaria de visitar. Mas, o principal mesmo é "viajar", simplesmente. Cada viagem que fazemos, pensamo-la antecipadamente, vivemo-la e recordamo-la depois. São marcos que ficam na história da família, são horizontes que abrimos em conjunto pela história e pela diversidade de culturas dos locais que visitamos.

Se fosse um super-herói, qual seria?
Nunca ambicionei ser super-herói. Gosto de ser humana, com todas as imperfeições e fragilidades próprias da nossa natureza. Mas sinto simpatia por algumas personagens de ficção. Em concreto das que veem o mundo e os seus desafios de perspetivas diferentes e que têm sentido de humor. A Mafalda e Astérix são os meus clássicos. Posta a escolher talvez escolhesse o Astérix: pronto a resolver situações, sempre disposto a ajudar, bem-disposto, desfrutando a vida e, quando necessário, adquire uma força sobre-humana para ultrapassar obstáculos. Enfim, um super-herói muito humano!

Um luxo para si, em 2022, é?
Um verdadeiro luxo em 2022 será celebrar aniversários, retomar tradições festivas, desfrutar da companhia da família e dos amigos, normalmente, sem a necessidade de utilizar máscaras e outros procedimentos que nos impedem de esquecer a nossa fragilidade humana.

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