Comboio português procura verbas do PRR para sair do papel

Consórcio com uma dúzia de empresas quer construir carruagens para reforçar a oferta da CP a partir do final de 2025. Investimento programado é de cerca de 70 milhões.

Portugal quer voltar a fabricar comboios novos depois de mais de duas décadas de ausência. Um consórcio com uma dúzia de empresas está a tentar obter financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para que haja novo material circulante a sair da linha de montagem. A iniciativa está avaliada em 69,9 milhões de euros e tem a CP como principal alvo.

A partir de um protótipo, o consórcio pretende criar o novo comboio português. "São três carruagens modulares: a estrutura base será a mesma mas o interior poderá ser totalmente moldado conforme o destino", destaca ao Dinheiro Vivo o responsável financeiro do grupo Sermec, Pedro Sousa, que lidera o agrupamento de empresas.

A candidatura contempla a construção de carruagens de primeira classe, segunda classe com bar e segunda classe. As inovações incluem um sistema de análise de conforto ao passageiro, a colocação de sensores nas composições, um sistema de gestão de dados, a monitorização da taxa de ocupação das carruagens e soluções de suporte ao passageiro. A conceção e fabrico será feita através de soldadura por resistência em aço inox.

Financiamento europeu
A iniciativa liderada pelo grupo da Maia foi uma das 64 candidaturas que passaram à próxima fase das agendas mobilizadoras e das agendas verdes para a inovação empresarial do PRR. O envelope de incentivo a fundo perdido de 930 milhões de euros divide-se em dois compartimentos: 558 milhões para as agendas mobilizadoras e os restantes 372 milhões para as agendas verdes.

O projeto da Sermec concorre às agendas mobilizadoras, onde conta com perto de 50 adversários. O orçamento para o comboio português é de 69,9 milhões de euros, dos quais 80% correspondem a financiamento europeu. "Estamos convencidos de que este projeto é meritório e de que conseguiremos passar à próxima fase", confia Pedro Sousa.

Se a ideia tiver o dinheiro do PRR, o primeiro comboio português do século XXI poderá ficar pronto no final de 2025. Se tal acontecer, terá pelo menos 25% de incorporação nacional e deverá criar mais de 130 novos postos de trabalho entre as 12 entidades que integram o consórcio, entre as quais a CP.

A Sermec pode contribuir na parte mecânica e na soldadura, enquanto alguns dos parceiros neste projeto podem "desenvolver o interior, os bancos, os vidros, a conectividade e os sistemas de geolocalização".

Ainda assim, "há um conjunto de equipamentos que não conseguimos fabricar em Portugal, pelo que é preciso importar". A médio prazo, os membros do consórcio querem aumentar para 75% a incorporação nacional.

A transportadora pública ferroviária é a principal candidata a receber as carruagens, que permitiriam reforçar o serviço aos passageiros nas próximas décadas. Basta recordar que estão em circulação no serviço Intercidades carruagens fabricadas na década de 1980 pela antiga Sorefame. Também naquela unidade foram produzidas as locomotivas da série 2620, que estão a ser repostas em circulação após recuperação das oficinas da empresa pública.

Além da CP, o consórcio acredita que o projeto do comboio português "pode ser aplicado a outros utilizadores, como o metropolitano ou outras empresas ferroviárias".

Se for concretizado, o fabrico de material circulante é mais um passo para o país contar com um cluster ferroviário. Desde outubro que está em funcionamento o centro de competências da ferrovia, em Guifões, Matosinhos, que inclui cursos profissionais e formação especializada.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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