Capitalização de empresas em máximos no arranque do ano

Autonomia financeira no setor privado atinge 40,7%, com indústrias a puxarem pelo indicador. Saída de cena dos piores negócios e investimento podem ajudar a explicar.

A trajetória é "surpreendentemente positiva". As empresas nacionais atravessaram a pandemia com incrementos quase constantes nos rácios de capitalização e estão hoje no ponto mais elevado de que há registo no que toca a autonomia financeira. Os capitais próprios dos negócios do setor privado representam, em média, 40,7% dos balanços, mais 1,3 pontos percentuais do que dois anos antes.

Os dados, divulgados nesta última semana pela central de balanços do Banco de Portugal, são do primeiro trimestre e indicam que a melhoria na solidez das empresas foi transversal aos vários setores, com uma única exceção: eletricidade e águas. Mesmo os serviços, que abarcam o penalizado turismo, conseguem a melhor marca desde o início dos registos em 2006. Os capitais próprios valem 39,5% dos ativos, mais 0,9 pontos percentuais que no início da pandemia.

"A autonomia financeira tem uma curva extraordinariamente positiva, ou, pelo menos, surpreendentemente positiva", analisa Anabela Santos, consultora da Ordem dos Contabilistas Certificados, mesmo reconhecendo a dificuldade de avançar explicações perante dados muito agregados, resultado do inquérito trimestral às empresas não financeiras realizado com o Instituto Nacional de Estatística.

"Provavelmente, reflete a saída de operadores do mercado que estavam a contaminá-lo. Portanto, ficaram os mais aptos, com mais lucros. Provavelmente também poderá ter a ver com o facto de ter aumentado a procura em certos setores de atividade, com algum efeito de deslocalização da procura para Portugal", admite.

Os dados sobre nascimento e morte de negócios em 2021 mostram "um aumento generalizado da dissolução de empresas em todos os setores de atividade", segundo o painel de demografia empresarial publicado neste mês pelo Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia. Houve mais de 22 mil dissoluções, mais 30% do que no ano anterior, com a criação de novas empresas a crescer 10% para mais de 40 mil, após um ano de quebra em 2020.

É assim possível que a pandemia tenha favorecido as médias ao expulsar do mercado as piores empresas. "As crises são sempre momentos de limpeza", reconhece Anabela Santos. "Mas temos de ter muita atenção ao setor de que estamos a falar. Pode ser verdade na indústria. No comércio tenderá a ser menos verdade. Houve muitos negócios que fecharam durante a pandemia, é um facto, mas é um setor onde se fecha e abre com muita facilidade", reflete.

Já a atração de novos clientes para a indústria nacional estará a ocorrer em algumas áreas, aponta, no que ajudará a explicar o bom rácio de capitalização do setor. Está nos 45%, também 1,3 pontos percentuais acima de dois anos antes, e a puxar pela média global.

"Houve ao nível da indústria setores muito resilientes e outros muito pouco resilientes, porque as cadeias de abastecimento foram muito afetadas", explica Anabela Santos, a chamar a atenção para alguns benefícios do momento de reindustrialização, que também estarão a chegar a Portugal. "Portugal, com uma economia ultraperiférica, baseada em baixos salários, tem integrado cada vez mais cadeias de produção de certas indústrias que estão super divididas. A condição ultraperiférica assegura alguma capacidade de atração de investimento em termos de realocação de produção da Ásia para a Europa. "Se é um fenómeno duradouro é o que vamos ver".

Por outro lado, a indústria terá agora maior "necessidade de se capitalizar porque as tecnologias estão a mudar, porque está em curso a digitalização, e é preciso de facto investir em novos ativos".

Outro dos setores que assiste a um fortalecimento significativo dos capitais próprios é a construção, uma das atividades que atravessou a pandemia sem paragens e ajudou a sustentar a economia. O nível de autonomia financeira está agora em 33,3%, estando 2,6 pontos percentuais acima do registo da primavera de 2020.

Na construção, "aquilo a que assistimos é a um excesso de procura em relação à oferta, a um bom momento para lucros", lembra a consultora da Ordem dos Contabilistas. "Se a autonomia financeira não estivesse no seu máximo neste momento não faria qualquer sentido".

As empresas nacionais têm vindo a recuperar resultados. A rendibilidade média no setor privado atinge agora os 7,6%, a par com o registo da primavera de 2020.

Neste setor, a rendibilidade tem vindo a escalar para a melhor marca desde o início da última crise financeira, em 2008, com os resultados operacionais a representarem 5,9% do ativo, em média. Também na indústria, a rendibilidade dos ativos está praticamente a par dos registos pré-crise financeira internacional, nos 10,9%.

Já no conjunto das empresas do setor privado, os resultados representam 7,6% dos balanços, numa marca que tem vindo a melhorar desde o início de 2021 e que já iguala o registo de dois anos antes.

Para este cenário, poderão ter contribuído os mais de 2,8 mil milhões de euros entregues a fundo perdido às empresas para que resistissem à crise, via medidas como o lay-off e incentivos à normalização. Mas são, para Anabela Santos, medidas que não explicam "uma alta desta natureza". Por outro lado, diz, os benefícios fiscais à capitalização podem ter tido "algum efeito, embora despiciendo". "São valores relativamente pequenos. Não parece que sejam relevantes".

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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