Abrandamento nos fechos e insolvências e mais gás a empurrar o setor do calçado. Com 72 novas fábricas de sapatos abertas no ano passado em Portugal, a que se junta um crescimento de 50% na oferta de componentes e equivalente desenvolvimento no comércio, parece que o setor está finalmente a estabilizar, depois de a pandemia ter trazido nuvens de tempestade ao negócio..Segundo números recentes da consultora Informa D&B, nasceram 72 fábricas de calçado no país em 2022, o que representa um aumento de 57% face ao ano anterior. E a indústria de componentes está também em alta, com mais 15 sociedades criadas no ano passado, a que se soma o crescimento registado no comércio, grossista e retalhista, em que nasceram 153 empresas (+47%)..Apesar da boa performance que os números da Informa D&B revelam, 2022 fica ainda muito abaixo da prestação do setor do calçado no pré-pandemia - sobretudo se olharmos 2017, o melhor ano de sempre no que respeita à prestação externa da indústria, quando foram constituídas 262 novas empresas de calçado. Com 1956 milhões de euros de exportações, o valor desse ano foi agora ultrapassado, com mais de 2009 milhões em exportações..Porém, olhando os encerramentos, os números revelam crescimento desde 2018 no comércio por grosso e se no retalho estiveram em queda até 2021, voltaram a subir em 2022, com um total de 39 sapatarias encerradas, mais 11% do que no período homólogo. Juntando fabrico e comércio, chegamos a 151 empresas a fechar portas em 2022, o que equivale praticamente às novas sociedades criadas: o rácio de nascimentos/encerramentos no calçado é de 1 contra os 3,4 do mercado total português..Ainda assim, no ano passado registaram-se 52 insolvências, entre fabricantes e comerciantes, o que representa menos 13% do que em 2021..Olhando o período 2018-2020, as insolvências situaram-se sempre acima de uma centena, mas estão a baixar no retalho (nove) e na área industrial - 28 no calçado, menos dez do que em 2021, e cinco nos componentes, menos uma. No mercado grossista há ainda problemas, com dez casos de insolvência no ano passado, mais quatro do que no período homólogo..Vírus e confinamentos contagiaram setor.Fazendo contas ao efeito da pandemia, vale a pena recuar a 2019, mesmo antes da covid - quando foram criadas 213 novas empresas na indústria e comércio de calçado e componentes, das quais 119 no segmento de fabrico de sapatos e 15 nos componentes - para entender como o vírus contagiou a indústria. Os números de 2021 são mesmo os mais baixos, com menos de 100 constituições, incluindo 46 fábricas de sapatos e 10 de componentes e os sucessivos confinamentos a deitar abaixo o comércio logo no primeiro ano da pandemia (menos de 40 empresas nascidas em 2020)..A queda no número de encerramentos confirma agora a tendência de alguma estabilização do setor, com 73 fábricas de sapatos a deitar a toalha ao chão no ano passado, uma queda de 1% relativamente ao ano anterior e menos 6% do que no pré-pandemia..Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo