Belmiro de Azevedo: o empresário que desafiou os políticos

Morreu um dos maiores empresários portugueses, que construiu um império a partir do Verão Quente de 1975

De Belmiro de Azevedo há uma vida de histórias para contar, mas se fosse preciso escolher a melhor poderia ser a única que ninguém lhe pôde retirar até esta quarta-feira, dia da sua morte: a de ser um dos dois portugueses mais famosos de Marco de Canaveses - a outra foi Carmen Miranda. Nascido em 1938, o futuro empresário não cantou nem dançou, mas encantou os portugueses ao mudar a cara da sociedade do consumo nacional com a rede de grandes superfícies onde quem entrava sabia bem o nome do patrão.

O mais velho de oito irmãos (incrivelmente, a mais velha das irmãs, Ana Augusta Azevedo, que estava internada no IPO do Porto, também morreu no mesmo dia) esteve para seguir uma carreira académica em vez de entrar no mundo dos negócios e o seguir com estrondo, tantos foram os que incomodou, sendo notícia ao tornar-se a maior fortuna de Portugal, segundo as revistas especializadas, como a Forbes. Ironicamente, dizia que “geria sentado sobre um monte de notas”, mas o carro em que circulava era um modelo antigo da BMW.

Não seguiu a carreira docente, onde entusiasmava alunos como poucos professores, mas após ter resolvido a questão da sucessão no Grupo Sonae a favor do filho Paulo dedicou-se nos últimos anos à Porto Business School, a menina dos seus olhos. Mesmo assim nunca deixou de dar lições. Ficou célebre em 1998 quando exigiu aos deputados da comissão parlamentar que investigava as acusações do líder do PSD, então Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o alegado favorecimento do governo socialista aos seus negócios, que a audição se realizasse pelas oito da manhã em vez de às 21.30, como os deputados pretendiam. Razão? “Nem sempre é fácil para quem vive no Porto, por isso pedi que alterassem a hora.”

Foram muitas as figuras políticas que fizeram frente ao crescimento dos seus negócios - ou que o irritaram - durante a construção de um império. E de todos falou sem papas na língua. Da primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo dizia que era uma “peronista de saias”; sobre Mário Soares afirmava ser “reconhecidamente mau gestor”, e de António Guterres, que “falava de mais e agia de menos”. Com o passar dos anos, poucos foram os governantes que passaram ao lado das suas sentenças, num severo escrutínio que também regia o jornal que fundou, o Público. Nem Cavaco Silva escapou: “É um ditador.” E muito menos Sócrates: “Não há exemplo de alguém ter feito tanta coisa tão mal feita em tão pouco tempo.”

Em causa estava quase sempre a defesa do seu império e nunca se sentiu pouco à-vontade para continuar a veia de professor, com lições dadas principalmente a ministros das Finanças e da Economia. Contestou Ernâni Lopes quando este alertou para o excessivo endividamento das famílias portuguesas através do consumo - muito dele feito nas suas lojas - e também Pina Moura quando o acusou de fazer um “erro de avaliação no Caso Portucel” que o impediu de adquirir mais de 10% de ações. Mas o seu maior embate foi em 2006-2007, quando a Sonaecom fez uma OPA à Portugal Telecom e Belmiro saiu derrotado, “por causa de uma coisa” inventada à última hora pelos acionistas da PT, criticou. Sobre essa pedra no sapato garantiu há três anos: “A história da PT há de ser devidamente contada, mas não por mim.”

Afirmar-se - Dois murros e uma união

A vida de Belmiro de Azevedo tem um antes e um depois do império empresarial. Não é preciso dourar a história dos primeiros 25 anos para encontrar a determinação que marcou os restantes 54. Na escola primária, logo o professor exigiu aos pais que lhe permitissem seguir os estudos, indo para o Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e destacando-se repetidamente como melhor aluno. Para não sobrecarregar a família, começou a dar explicações de Matemática e nos últimos dois anos do secundário recebeu uma bolsa da Fundação Gulbenkian. Destes 1400 escudos ainda enviava dinheiro para os pais. Chegou à universidade, cursando na Faculdade de Engenharia a primeira das suas habilitações superiores. Forma-se em 1963 em Engenharia Química Industrial, dez anos depois diploma-se na Harvard Business School e em 1985 na universidade, sendo o único da sua turma da primário a ter curso superior. A média final de Engenharia foi a segunda mais alta, de 16 valores.

A fulgurante vida empresarial ainda teria de esperar pelo fim da incorporação militar, que se inicia em 1959 - ano em que passou oito dias sob detenção por ter dado dois murros num superior hierárquico que, contou, o tratara mal. O gesto demonstra o carácter impulsivo, que foi aprendendo a dominar nas declarações na vida pública, mas jamais deixou de potenciar no âmbito empresarial, exigindo dos milhares de funcionários das empresas do grupo um alto nível competitivo.

Chega então 1963 e dois importantes acontecimentos pessoais para Belmiro de Azevedo: consegue o primeiro emprego, na empresa têxtil Efanor, e casa-se com Margarida depois de sete anos de namoro. A única proibição conhecida que a mulher lhe fez foi a de ir para a política. Nem que fosse para evitar que passassem menos tempo juntos, Margarida, que sempre elogiou o talento do marido para os negócios, nunca autorizou que ele seguisse esa via - muitas vezes considerada como possível e nem sempre negada por Belmiro. A revelação foi feita pelo próprio, no lançamento da sua biografia Belmiro - História de Uma Vida, em 2001, e não dá lugar a equívocos: “A minha mulher veta-o completamente!”

Sucessão - Três filhos e muitos candidatos

A vida de Belmiro de Azevedo tornara-se mais pacata nos últimos anos, após ter-se retirado da vida empresarial e estabelecido a sucessão no filho mais velho, também formado em Engenharia Química. O sucessor não foi contestado, até porque é sabida a admiração dos funcionários pelo empresário e a consideração pela sua liderança - reconhecendo-se em Paulo traços do pai, incluindo nas declarações públicas duras e frontais.

Por contar em pormenor está a história de como Belmiro de Azevedo se tornou o maior empresário pós-25 de Abril. Na Efanor, o engenheiro-chefe Delgado dos Santos tinha-lhe dito que só existiam três formas para se ter poder: ser patrão, saber mais do que os outros ou casar-se com a filha do dono. Belmiro escolhe o caminho longo, entrando no capital da Sonae de Afonso Pinto de Magalhães, onde trabalhava, no conturbado período de 1975, através da compra de 17 (de um total de cem) ações. Ultrapassou a crise política durante o processo de nacionalizações - sendo mesmo motivo de uma greve inédita à data, com os empregados a exigir o seu regresso depois de se demitir, com toda a direção, por conflitos com o governo pelo controlo da empresa.

Quando o banqueiro Pinto de Magalhães - cuja súbita morte virá a gerar incompatibilidades com a família deste, até terminar num processo judicial - regressa do exílio no Brasil, oferece-lhe uma participação no capital. Belmiro exige cinco mil ações para ficar e divide um quinto delas pela direção. Quando a Sonae entra na Bolsa, em 1985, já o mundo dos seus negócios estava além da órbita dos capitalistas portugueses dessa época - e demoraria bons anos a ser ultrapassado como homem mais rico de Portugal.

Prazeres - Ouvir Amália e Marceneiro

A vida de Belmiro era discreta. Lia vorazmente ensaios económicos, que o entretinham nos retiros na quinta da terra natal, onde não deixava de ouvir Amália e Marceneiro. Entre as distrações, tinha o ténis e o squash, bem como os matraquilhos e um bom cozido à portuguesa ou o peixe grelhado nas férias algarvias. Para a festa dos 50 anos, fez questão de convidar o professor da primária que lhe abrira caminho para o sucesso. O 66.º aniversário, passou-o a trabalhar. Quando lhe perguntaram que imagem queria deixar, disse não estar preocupado: “Serei fiel a mim próprio.”

Entre as muitas reações de reconhecimento (leia nas páginas seguintes), uma voz destoou: na Assembleia da República, quando se submeteu um voto de pesar e “total solidariedade” com a família e amigos, o PCP votou contra, BE e PEV abstiveram-se. O voto foi aprovado.

O velório do empresário decorre na paróquia de Cristo-Rei, no Porto, e a missa de corpo presente será hoje pelas 16.00, seguida de cerimónia fúnebre reservada.

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