BdP entre os mais pessimistas: pode ter de haver mais austeridade

Exportações a desacelerar e investimento parado levam Banco de Portugal a prever crescimento de apenas 1,3% este ano

O Banco de Portugal juntou-se ontem ao coro dos que estão mais pessimistas do que o governo quanto às perspetivas para a economia: em vez de um crescimento de 1,5%, Carlos Costa prevê agora que o PIB avance apenas 1,3% este ano. E há vários riscos, nomeadamente a necessidade de o executivo ter de recorrer a medidas de consolidação adicionais (mais austeridade) para conseguir cumprir o objetivo do défice de 2,2% do PIB. Marcelo Rebelo de Sousa diz que não vale a pena dramatizar; António Costa, o primeiro-ministro, lembra apenas que "uma coisa são as previsões e outra a realidade".

A economia está a recuperar de forma lenta, devido ao arrefecimento das exportações e do investimento. Só o consumo privado está a puxar pela retoma. No Boletim Económico, ontem divulgado, o Banco de Portugal retira duas décimas às previsões de crescimento da economia neste ano e uma décima nas de 2017 e 2018. "A recuperação da economia portuguesa iniciada em meados de 2013 tem apresentado um ritmo relativamente moderado, em particular tendo em conta a severidade e a duração da recessão que a antecedeu", sublinha o Banco de Portugal. Basta lembrar que em 2015 o PIB registou um crescimento de 1,5%.

Carlos Costa alerta que estas projeções estão ainda rodeadas de riscos, alertando para o facto de a meta de défice de 2,2% poder não ser alcançada sem mais austeridade (ver texto ao lado). Não está afastada a "possibilidade de serem necessárias medidas adicionais" para cumprir os objetivos do défice, o que poderá levar a um abrandamento maior na procura interna. A isto, soma-se a possibilidade de as "reformas estruturais" perderem dinamismo, o que poderá ter um impacto negativo na confiança dos empresários e nas suas decisões de investimento. "A permanência de riscos sobre a estabilidade financeira em Portugal" é outra das situações identificadas a nível interno. Na frente externa, o maior risco advém de uma recuperação mais lenta do que o esperado da atividade económica nas economias mais relevantes para Portugal.

"O Banco de Portugal disse o óbvio, que a situação internacional não está boa e não está a melhorar. Já se percebeu que as várias instituições não sabem exatamente onde vai parar a economia internacional e, portanto, a portuguesa. Vamos esperar para ver. O que for preciso ir reajustando é reajustável", desdramatizou Marcelo Rebelo de Sousa.

"Há pessoas que gostam de previsões. Eu cá por mim gosto mais de factos e os factos, a realidade, é aquilo que eu vejo aqui [Feira da Agricultura, em Santarém],como há três semanas vi na Startup Portugal em Braga, onde vi contratos de investimento estrangeiro a serem assinados e a surgirem, uma realidade que mostra vontade de investimento em vários setores da economia", contra-atacou António Costa.

Ao prever um crescimento de apenas 1,3% em 2016, o Banco de Portugal distancia-se ainda mais dos 1,8% esperados pelo governo. Apenas a OCDE aponta para um valor ainda mais baixo, 1,2%. Os motivos para estar menos otimista são muitos. Esta desaceleração resulta de um menor crescimento das exportações e da estagnação do investimento. Depois de terem registado um aumento de 5,2% em 2015, as vendas ao exterior deverão poder aumentar apenas 1,6% este ano, devido a um menor crescimento da procura externa por parte de alguns mercados emergentes, nomeadamente Angola. As vendas ao exterior ganharão novo fôlego em 2017 e 2018, ainda que de uma forma ligeiramente mais modesta do que aquilo que antecipa o governo. O mesmo se passará com o investimento privado, que só cresce 0,1% este ano para recuperar nos dois anos seguintes.

O consumo privado será o indicador que vai puxar mais pela economia este ano, potenciado pelo aumento do rendimento das famílias - à boleia do fim dos cortes salariais, do aumento do salário mínimo e da redução da sobretaxa.

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