BCE pressionado pela crise a subir taxas só mais uma vez este ano

Debate deve ser muito acalorado hoje em Frankfurt. Há bons argumentos para uma pausa ou para outro aumento de taxas, mas parece que ciclo de aperto está mesmo no fim.
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As previsões mais recentes (da Comissão Europeia), que dão conta de uma degradação acentuada da atividade económica da Zona Euro, mas onde a inflação, embora elevada, até foi revista em baixa ligeira para este ano, são dois eventos que estão a pressionar o Banco Central Europeu (BCE) a terminar mais rapidamente o ciclo de subida de taxas de juro, dizem vários analistas. Ou seja, Frankfurt pode estar mais perto do final da curva do aperto monetário do que se julgava, porque a economia está a vacilar, a Alemanha em recessão, etc.

Segundo alguns economistas, a instituição presidida por Christine Lagarde deve subir taxas só mais uma vez este ano. Pode acontecer na reunião desta quinta-feira, mas se houver um adiamento do aperto ele deve acontecer até ao final do ano.

Em julho passado, as três taxas de juro diretoras da Zona Euro subiram 0,25 pontos percentuais. A taxa principal (de refinanciamento) aumentou para 4,25%, o valor mais elevado dos últimos 15 anos, ou seja, desde o tempo da falência estrondosa do banco norte-americano Lehman Brothers, que depois arrastou a economia global para uma crise muito grave e obrigou os bancos centrais a fornecerem volumes gigantescos de dinheiro barato aos bancos para estes se aguentarem.

Hoje há uma crise, mas esta é diferente. Veio com a guerra que fez disparar os preços e a inflação. Depois de várias subidas e de um ciclo de aperto violento nos juros, várias economias europeias estão a vacilar (a Alemanha em recessão e Portugal, que era uma exceção, estagnou no segundo trimestre) e "talvez" o BCE tenha mesmo de fazer uma pausa no seu programa para tentar reduzir a inflação da Zona Euro para perto de 2%, de modo a não arrastar a zona da moeda única para um buraco no crescimento.

Em julho, Lagarde já parecia ter alguma informação sobre esse perigo, ou então era um pressentimento, e disse que "talvez" o BCE tenha de parar a meio do ciclo de subidas de taxas, em setembro, uma vez que os aumentos acumulados desde julho do ano passado já estão a ter um efeito negativo na procura e, com isso, a puxar para baixo a inflação.

Em setembro, "talvez" o BCE suba taxas novamente ou "talvez" não, sendo certo que nunca serão reduzidas, disse a chefe do BCE. É um "talvez decisivo", acrescentou. E há uma certeza nisto, frisou: o banco central deixou de dar indicações sobre a tendência da sua política (forward guidance), preferindo agora decidir com base na melhor e mais recente informação e a par e passo. "A inflação continua a descer, mas espera-se que ainda permaneça demasiado elevada durante demasiado tempo", disse Lagarde, pelo que ainda há caminho para subir as taxas.

Mas, como referido, na reunião de hoje o ímpeto no sentido do aperto pode ser mais moderado, com muitos governadores a terem de lidar com as palavras da Comissão Europeia, esta segunda-feira. Nas previsões de verão, Bruxelas referiu que "os dados mais recentes apontam para uma fraqueza persistente da economia durante o verão e nos próximos meses, o que justifica uma revisão em baixa do crescimento da União Europeia e da Zona Euro para o resto do ano".

"Após a estagnação do consumo privado no primeiro semestre do ano, o aumento dos salários e a continuação da moderação da inflação devem aumentar os rendimentos disponíveis reais, apoiando, por sua vez, uma ligeira recuperação dos gastos de consumo", observa a Comissão.

No entanto, "o forte abrandamento na concessão de crédito bancário à economia mostra que o aperto da política monetária está a fazer-se sentir" e que "a expansão do investimento, já de si moderada nos dois primeiros trimestres do ano, não deve recuperar com muita força". Além disso, diz a CE, "as perspetivas globais são sombrias e o declínio de novas encomendas (de exportações) não são um bom augúrio" para a economia europeia, designadamente o motor, que é a Alemanha.

Com isto, a inflação ficou mais ou menos em linha com o que se previa na primavera (a Comissão esperava 5,8% em maio, agora aponta para 5,6%, um valor, ainda assim, muito elevado segundo o programa do BCE). "Em 2024, ainda se prevê uma ligeira recuperação do crescimento, à medida que a inflação continua a abrandar", acrescentou Bruxelas nas previsões divulgadas no início desta semana.

Em julho, a presidente do BCE desligou o piloto automático, dizendo que um aumento ou uma pausa eram ambos possíveis na reunião de setembro", recorda Carsten Brzeski, economista-chefe do grupo ING. "Lagarde enfatizou bastante a dependência face aos dados recebidos entre julho e setembro", sendo que estes, sabe-se agora, "apontam para uma espécie de estagflação na Zona Euro, com os indicadores de confiança em queda e a inflação ainda elevada", junta.

Segundo o economista, "temos aqui uma mistura muito complicada, que torna a decisão do BCE tudo menos fácil", pelo que "esperamos um debate muito acalorado". "Há bons argumentos para justificar tanto uma pausa como outro aumento de taxas, mas mantemos a nossa opinião de que o BCE aumentará as taxas uma última vez" esta quinta-feira, afirma Brzeski.

luis.ribeiro@dinheirovivo.pt

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