Banqueiros negam qualquer chantagem sobre trabalhadores 

BCP e Santander em Portugal ameaçam recorrer ao despedimento coletivo, mas negam pressões sobre trabalhadores para saírem. Sindicatos denunciam clima de "terror" e "assédio".

Ouvidos ontem no parlamento, tanto o presidente executivo do BCP como o do Santander Totta voltaram a reconhecer que o recurso ao mecanismo de despedimento coletivo é uma possibilidade. Estes dois bancos querem dispensar, pelo menos, cerca de 1400 trabalhadores. Os banqueiros estiveram na Comissão de Trabalho e Segurança Social na sequência de requerimentos do BE e do PSD. Os sindicatos do setor da banca têm vindo a denunciar a prática de assédio e chantagem sobre trabalhadores de ambos os bancos, práticas que os banqueiros desmentem.

"Acredito que o que estamos a fazer é o melhor para o banco", disse Miguel Maya, presidente do BCP aos deputados sobre a saída prevista de 800 trabalhadores do banco. "Não vai haver nenhum desrespeito pela lei, nenhuma ilegalidade", afirmou. O CEO do BCP frisou que "seria inaceitável qualquer violação dos direitos (dos trabalhadores). Nem assédio nem chantagem". "O que não prescindo é de falar olhos nos olhos com os trabalhadores", adiantou.

Segundo o banqueiro, o programa de redução de pessoal em curso no banco "não tem nada a ver com a pandemia". "Tem muito a ver com as transformações estruturais que se estão a verificar no setor financeiro", salientou. O BCP anunciou esta semana que registou lucros de 12,3 milhões de euros no primeiro semestre de 2021, o que corresponde a uma queda homóloga de 84%. O banco explicou a queda nos lucros com "o reforço de 214,2 milhões de euros das provisões para riscos legais associados a créditos em francos suíços concedidos na Polónia e itens específicos de 87,2 milhões de euros em Portugal, respeitantes essencialmente a custos de reestruturação".

O banco fechou o mês de junho com um total de 6937 trabalhadores em Portugal, menos 217 do que registava no mesmo mês de 2020. No último ano, o BCP perdeu 35 agências bancárias.

"Afirmações falsas"

Quanto ao Santander, Pedro Castro e Almeida, CEO do banco, reconheceu que o banco admite avançar com um despedimento coletivo caso não consiga garantir a saída de um número de trabalhadores através de acordo, indicando que esse número está agora na casa dos 600 trabalhadores. O banco registou uma queda homóloga de 52,9% nos seus lucros no primeiro semestre deste ano, para 81,4 milhões de euros.

O Santander anunciou no final de junho um programa de reestruturação que envolve a saída de 685 trabalhadores em Portugal. Mas Castro e Almeida afastou que haja pressões e assédio junto de trabalhadores para deixarem o banco.

Os representantes dos trabalhadores acusam o banco de estar a exercer pressões para saídas. Denunciaram ainda que o banco tem alegadamente estado a substituir trabalhadores pela contratação de serviços externos, além de haver alegadas situações de discriminação sobre trabalhadoras mulheres. "Todas estas afirmações são falsas e sem fundamento", disse Castro e Almeida.

O deputado bloquista José Moura Soeiro contestou as afirmações do CEO do Santander em Portugal. "Temos a informação de que há, pelo menos, 1900 trabalhadores em outsourcing", disse o deputado. "O que está a acontecer é uma ameaça de despedimento, uma pressão inaudita sobre os trabalhadores".

O deputado indicou que o BE tem denúncias de, por exemplo, haver pressão sobre trabalhadores que tiveram ausências do trabalho por motivo de doença oncológica e também sobre trabalhadores de famílias monoparentais, além de alegada perseguição sobre colaboradores que representam os trabalhadores.

O PSD pediu que o governo atue para reter postos de trabalho nos bancos em questão. E urgiu o executivo a fiscalizar os programas de reestruturação e a não empurrar o tema para Autoridade para as Condições do Trabalho.

Os sindicatos da banca também foram ouvidos ontem no parlamento, e indicaram que o setor vive dias de "terror" e de "assédio" sobre os trabalhadores alvo de despedimento. Voltaram a denunciar a suspeita de que existe concertação entre bancos, tendo pedido audiências ao Presidente da República, primeiro-ministro e ministra do Trabalho.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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