Apple desaponta e já prevê primeira queda de vendas da década

Marca evitou uma queda histórica das vendas, mas o iPhone está estagnado e quer o iPad quer os computadores recuaram

Os avisos estavam aí há meses e confirmaram-se: a Apple bateu o recorde de vendas e lucros nos últimos três meses de 2015, mas não o suficiente para obter um crescimento visível. O iPhone atingiu 74,8 milhões de unidades vendidas, o que é um marco na sua história. Ao mesmo tempo, é o pior nível de crescimento de sempre - 0,4%, ou 300 mil unidades a mais do que no período homólogo. Os analistas esperavam pelo menos 76,5 milhões no primeiro trimestre fiscal da Apple, que acabou no dia a seguir ao Natal. Desde que foi lançado, em 2007, o iPhone nunca tinha obtido uma subida tão insignificante. E o que vem a seguir deve ser ainda pior.

"Estamos a enfrentar condições extremas", disse o CEO Tim Cook na conferência com os analistas após a divulgação de resultados. O executivo apontou para os desafios do "ambiente global macroeconómico", que está a deteriorar-se, e considerou que os resultados foram extraordinários tendo em conta a contração das maiores economias e a desvalorização do euro e da libra. "Dois terços das receitas da Apple vêm de fora dos Estados Unidos", sublinhou Cook, chamando de "dramática" a desvalorização das moedas em relação ao dólar.

Ainda assim, no que toca ao volume de negócios e aos lucros, ambos são números sólidos e com níveis nunca antes atingidos. Receitas de 70 mil milhões de euros e lucros de 17 mil milhões de euros colocam a Apple no topo das suas próprias contas, "em linha com as expectativas", disse Tim Cook, mas com um crescimento de apenas 2%.

Um bom desempenho na China (cresceu 14%), uma subida na Europa (mais 4%) e forte vendas do Apple Watch e da Apple TV impediram a quebra nas receitas que alguns temiam. Cook disse mesmo que estes dois dispositivos tiveram "o melhor trimestre de sempre" na época natalícia, mas sem revelar números. A divisão em que o Watch e a TV são contabilizados, juntamente com os produtos de música Beats e iPod, registou um salto de 62% em receitas. Na unidade de software e serviços, o crescimento também foi importante: 26%.

No entanto, as duas categorias de produtos mais importantes a seguir ao iPhone caíram. A venda de iPad recuou 25% em relação ao período homólogo, embora tenha crescido 63% em relação ao quarto trimestre fiscal (findo em setembro). Já a venda de computadores Mac inverteu um ciclo muito positivo ao cair 4% em relação ao Natal de 2014, ficando-se pelos 5,3 milhões de unidades.

Perspetivas pouco animadoras

No global, os números do trimestre são significativos. O problema é o que vem a seguir. No guia para os resultados que espera no segundo trimestre fiscal, que termina no final de março, a Apple espera um volume de negócios entre 46 e 49 mil milhões de euros, o que representa uma queda importante em relação aos 53,4 mil milhões no mesmo período de 2015. Será a primeira vez em 13 anos que as receitas caem, e esse é motivo de preocupação para investidores e analistas. Projeta-se a formação de um cenário negativo, em que entra o abrandamento de economias emergentes, a saturação dos mercados ocidentais, a incerteza monetária e a transformação da dinâmica nos smartphones. Tanto a Gartner como a IDC preveem um crescimento tímido para este segmento e dizem que é nos modelos de baixo custo que está o maior impulso, não nos topos de gama como o iPhone.

Por outro lado, a Apple não tem um produto que possa compensar o abrandamento do iPhone, nem em volume nem em rentabilidade. Por onde passa o futuro? O analista Gene Munster, da Piper Jaffray, questionou Tim Cook sobre a realidade virtual, já que correm rumores de que a Apple está interessada em entrar neste mercado. Cook afirmou que a realidade virtual "não é um nicho" e "tem aplicações muito interessantes."

No entanto, parece que a aposta de curto prazo da marca será novamente no iPhone. A expectativa é de que a Apple apresente um novo smartphone em março, mas com características muito diferentes dos últimos: este deverá voltar aos tamanhos compactos, com um ecrã de quatro polegadas. O nome de código é iPhone 5SE e o lançamento perspetiva-se para abril, com um preço mais baixo em relação aos modelos maiores e opções de 16 ou 64 gigas de armazenamento, processadores A9 e M9 e melhorias no assistente virtual Siri.

O que se espera também para esse evento, ou numa data perto, é a revelação do Apple Watch 2, o wearable que lidera o mercado de relógios inteligentes, segundo as consultoras, mas sem números de vendas oficiais.

"Estamos a investir em novos mercados, como a Índia e outros países emergentes", partilhou Tim Cook, mostrando-se positivo quanto ao longo prazo. "Temos uma base de clientes fiel e muito satisfeita", notou. "Registámos o maior número de clientes que mudaram de Android para iPhone. Nunca tinha sido tão elevado." A verdade é que também não foi suficiente para obter os números estrondosos a que o mercado se habituou, e ninguém arrisca que vão regressar.

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