António Chora: conflito pode encolher Autoeuropa depois de 2020

Antigo coordenador da comissão de trabalhadores sugere prémio por cada carro produzido para incentivar produção aos sábados

A Autoeuropa pode encolher e perder escala no grupo Volkswagen a partir de 2020 se se mantiver o conflito entre a administração e os operários. O alerta foi deixado por António Chora, antigo coordenador da comissão de trabalhadores, na véspera dos plenários de amanhã e do arranque do novo horário de trabalho, a partir de segunda-feira. O antigo dirigente propõe também que os 5700 operários recebam um prémio especial por cada carro produzido na fábrica de Palmela neste ano.

"Não vamos ter problemas com a Autoeuropa nos próximos dois anos. Mas a Volkswagen pensará duas vezes antes de escolher modelos de grande produção para a fábrica se se mantiver o atual conflito", afirmou ao DN/Dinheiro Vivo o antigo coordenador da comissão de trabalhadores, que se reformou em janeiro do ano passado.

António Chora já tinha dito ao jornal O Setubalense que teme que a Autoeuropa volte a "receber apenas os restos de outras fábricas do grupo". Ou seja, a fábrica de Palmela poderá voltar apenas a produzir modelos de nicho - como monovolumes, desportivos e descapotáveis - em vez de SUV como o T-Roc, que começou a ser montado em série em agosto do ano passado e que está à venda desde novembro em toda a Europa. A produção, segundo António Chora, "passaria dos 240 mil para os 100 mil carros por ano".

Esta diminuição teria "um impacto na região e no país", porque a fábrica" passaria a ter apenas 3600 empregados", o que levaria à saída de mais de 2000 pessoas que foram contratadas ao longo do ano passado para satisfazer as encomendas do T-Roc. Mas o antigo líder da comissão de trabalhadores está, ainda assim, confiante: "Nos próximos dois anos, os trabalhadores vão mostrar que sabem fazer os carros."

António Chora considera também que os operários da Autoeuropa devem exigir um prémio por cada carro produzido. Esta é a sugestão que o histórico líder da comissão de trabalhadores da fábrica de Palmela deixa ao atual coordenador, Fernando Gonçalves, no âmbito das negociações para compensar os funcionários pela imposição de horários a partir de segunda-feira, dia 29.

"A comissão de trabalhadores tem de exigir um prémio de objetivos por cada carro produzido. Tem de ser algo apetecível e alcançável. Só desta forma é que pagaria o sacrifício das pessoas" em relação aos novos horários, propõe António Chora em declarações ao DN/Dinheiro Vivo.

A partir de segunda-feira, a fábrica de Palmela vai funcionar com 17 turnos de produção entre segunda-feira e sábado. Só desta forma consegue garantir a produção de 240 mil automóveis neste ano, segundo a administração.

O antigo dirigente sugere este prémio entre dois e três cêntimos por carro produzido, o que pode corresponder a um prémio anual entre 4800 e 7200 euros. "É um prémio altamente negociável", entende António Chora, e que contrapõe à proposta de um prémio trimestral de 25% do ordenado mediante o cumprimento de objetivos de produção, o que "não diz nada" a António Chora.

O antigo trabalhador da Autoeuropa lamenta também que a atual comissão de trabalhadores "não tenha insistido com a administração e continuado a procurar um acordo que minimizasse os impactos dos novos horários".

Em protesto contra a imposição de horários, os trabalhadores aprovaram, em dezembro, dois dias de greve, a 2 e 3 de fevereiro. Até agora, no entanto, não foi entregue qualquer pré-aviso, adiantou ao DN/ /Dinheiro Vivo fonte oficial do Ministério do Trabalho.

Ferido grave em acidente

Um colaborador externo, de 45 anos, em serviço na Autoeuropa ficou gravemente ferido ontem na sequência de um acidente de trabalho. O ferido foi transportado para o Hospital de Setúbal.

A Autoeuropa esclareceu que este acidente ocorreu "fora da linha de produção" durante uma "operação de descarga de material, em que um colaborador subcontratado por uma fornecedora ficou preso na operação". A empresa garante que "assim que foi detetado o acidente foram chamadas as autoridades competentes". A linha de montagem da fábrica de Palmela esteve parada "duas horas e meia". A produção foi retomada "depois das 18.00".

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