Rui Lopes Ferreira. "A competitividade exige produtividade. Basear a competitividade em salários baixos não é opção"

Rui Lopes Ferreira é CEO do Super Bock Group.

Depoimentos recolhidos por Rosália Amorim

A 30 de janeiro haverá eleições. Qual seria para si o governo ideal para o país?

Face à situação atual, com os efeitos da pandemia e as necessidades do país ao nível económico e social, creio que é importante dar respostas imediatas às necessidades das pessoas, mas, sobretudo fazê-lo com base na capacidade de planear a médio e longo prazo, área onde considero que o país regista um défice crónico.

Isto significa que aquilo que dita o interesse nacional, e que entendo que seja colocar o nosso país em patamares mais ambiciosos de crescimento e de desenvolvimento, a prioridade, do ponto de vista da governabilidade, tem de ser assegurar a estabilidade, o compromisso e o consenso nacional alargado com visão de futuro. Há diversas soluções que podem assegurar isto mesmo, dentro de geometrias variáveis que evitem radicalismos e excessos ideológicos.

De que forma poderá o país voltar a colocar a economia na rota do crescimento?

Crescer significa vender mais bens e serviços produzidos em Portugal, não descurando como infelizmente acho que aconteceu durante muitos anos o segmento de bens transacionáveis. Para "vender" mais temos de ser competitivos.

A competitividade exige produtividade, uma vez que basear competitividade em baixos salários não é opção. Este é o grande desafio, a produtividade é o fator mais crítico a ter em conta se queremos assistir a uma recuperação económica consistente e sustentável, e à melhoraria das perspetivas de crescimento a longo prazo. De facto, não é apenas pela pandemia que explicamos as fragilidades da nossa economia, infelizmente a produtividade em Portugal não só não tem evoluído ao ritmo de outros países, como tem até diminuído.

Para isso, é preciso que exista uma relação de maior complementaridade entre o Estado e as empresas, com a remoção de barreiras de política onde elas existam para que o tecido empresarial possa ser mais dinâmico e inovador.

A este nível será fundamental e inevitável um forte investimento a dois níveis, no capital humano e em tecnologia.

Se por um lado está a ocorrer uma revolução tecnológica, que vai certamente ajudar, por outro lado isto aporta desafios complexos às empresas, pois não é só a digitalização crescente, mas também as alterações ao modelo de trabalho, as novas funções e modelos de negócio que estão a surgir, que vão moldar o futuro.

As pessoas, os colaboradores de uma empresa ou organização, são a essência de tudo e o fator diferenciador que produz riqueza. É de extrema importância ter as pessoas certas, com as competências certas, nos lugares e cargos certos.

E esta é uma transformação que não tem recuo, o país precisa de ter trabalhadores bem preparados e com as qualificações certas nas diferentes funções, o que implica, formação contínua e aquisição de novas competências. Já temos a "geração mais bem preparada de sempre", precisamos de estimular e garantir a aprendizagem ao longo da vida, e a interligação com "soft skills" muito exigentes. Este é a meu ver o grande paradigma do crescimento, que exige uma transformação ao nível empresarial, social, formativo, e também do Estado.

Salário mínimo na perspectiva de um empresário: é um desafio ou uma oportunidade? Vai ajudar ou desajudar o país?

Oportunidade, sem dúvida. Salários baixos não são desejáveis pois não criam valor nem para as empresas nem para o país. Por isso conseguir dotar as empresas e as organizações de condições remuneratórias atrativas, apesar dos efeitos da carga fiscal, surge como um dos maiores desafios para as equipas de gestão. Melhores salários motivam as pessoas e ajudam a fixar ou a reter talento, o que se reflete em melhores rasgos de produtividade e, consequentemente, geram impacto direto no negócio, tornando-o mais sustentável e com capacidade para aumentar o investimento em inovação e I&D. Neste ciclo, ajuda com certeza o ganho de músculo económico por parte da população ativa, o que significa maior poder de compra, o que vai, por sua vez, ajudar à dinamização da economia.

Nesta matéria o Super Bock Group tem tido uma atuação cuidadosa, de modo a assegurar um melhor poder de compra, e que se reflete num salário médio superior em 60% ao salário médio nacional de acordo com as estatísticas conhecidas. Também no salário mínimo da nossa unidade cervejeira praticamos um valor que é 23% superior ao SMN.

Indústria: o que pode ajudar a nação a criar mais "capitães da indústria" em 2022?

Não simpatizo muito com a expressão, nem acredito no espírito messiânico do "capitão da indústria". Creio que no mundo globalizado e interconectado em que vivemos, temos de olhar para o potencial de todo o ecossistema de negócios que está à nossa volta e onde se cruzam empresas de diferentes dimensões e atividades, mas também empresas e universidades ou centros de investigação e desenvolvimento.

Colaboração e parcerias são as palavras chave, só através da promoção de parcerias estratégicas e de um trabalho colaborativo "de dentro para fora" é possível criar novos produtos, soluções, serviços ou negócios assentes no paradigma da economia circular e da Sustentabilidade e, assim, reindustralizar a nossa economia.

Tecnologia: o que esperar em 2022?

Creio que será um ano em que vamos continuar a assistir à aceleração nos investimentos dedicados à tecnologia, já que apresenta um enorme potencial na forma como produzimos e consumimos. Nas tendências, perspetivo que passará pelo crescimento da Internet of Things, big data, automação e Inteligência Artificial. O mercado será impactado por novos produtos, serviços e negócios mais dinâmicos, inovadores e "verdes", sendo tudo mais imediato, acessível e monitorizado no momento.

Cada empresa, face às especificidades do negócio, deve perceber as suas necessidades em termos de transformação digital e adotar as melhores estratégicas que, através do recurso à tecnologia, apoiem a sustentabilidade do negócio, promovam a segurança dos colaboradores e permitam uma maior aproximação aos consumidores e clientes.

Energia, vão as tensões geopoliticas agudizar-se? E porquê?

Não sendo um especialista em geoestratégia, é um tema que me apaixona. E acho que existe um risco real e claro, os pontos de tensão são bem visíveis. Do ponto de vista dos negócios, implica que tenhamos de trabalhar antecipadamente em cenários que nos permitam adotar processos mais ágeis e flexíveis e ser céleres na tomada de decisões, mediante o evoluir da situação. Nada que não tenhamos feito com o advir da pandemia ...

A natalidade é um dos desafios nacionais. Que medida(s) poderá o novo governo implementar para colmatar a falta de nascimentos?

Num país envelhecido, com baixa taxa de natalidade, há que investir e possibilitar um maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, com a adoção de regimes de trabalho mais flexíveis, que possam conceder a oportunidade de se trabalhar a tempo parcial ou permitir regimes mais favoráveis aos pais/mães que queiram optar por uma pausa laboral por tempo indeterminado e possam retomar a sua atividade, se assim for sua vontade, noutro momento sem qualquer penalização ou preconceito.

Alterações climáticas: que contributo irá dar, a título pessoal e através da minha empresa/instituição, para colmatar esses efeitos?

O Super Bock Group tem um forte programa nas três áreas da Sustentabilidade. Temos conseguido dotar a empresa de um modelo de operação cada vez mais circular, inteligente e inclusivo, nomeadamente no eixo Ambiental, com projetos estruturantes e na aplicação das melhores práticas e soluções ao longo de toda a cadeia de valor de forma a conseguirmos mitigar a pegada ecológica da empresa e das nossas marcas, promovendo um maior equilíbrio entre o impacto da nossa atividade e a necessidade de apoiar a regeneração ou evitar o desgaste dos recursos naturais.

Temos estado focados em criar "mais packaging circular" (redução de plástico de uso único e foco em embalagens reutilizáveis e/ou 100% recicláveis); em usar "menos água" (redução do impacto hídrico da atividade da empresa através de uma gestão mais eficiente deste recurso) e "menos carbono" (maior integração de energias verdes e redução emissões gases efeito estufa).

Do ponto de vista mais pessoal, creio que uma das oportunidades que a pandemia trouxe foi a redução drástica no número de viagens que faço, passando a ter reuniões online e com isso não só ajudo o ambiente como ganhei uma maior disponibilidade para outros compromissos e sobretudo passar mais tempo próximo da família.

Qual é aquele livro/desporto/viagem/atividade que tem vindo a adiar e que quer mesmo ler/fazer no novo ano?

Concretizar a viagem de família há muito adiada a um local que me atrai pelo cruzamento de culturas, religiões, riqueza histórica, Jerusalém.

Se fosse um super-herói, qual seria?

Não tenho feitio de super-herói, mas a minha sobrinha Francisca diz que sou o Homem de Ferro, porque nunca me magoo. Espantoso como as crianças captam o mundo ...

Um luxo para si, ​​​​​​​em 2022, é?

Retomar hábitos muito simples e perdidos, como poder frequentar restaurantes e afins sem qualquer restrição.