Há cartões de crédito de lojas a cobrar juro máximo permitido

Fazer compras com cartões de marcas de retalho sai caro ao consumidor. Taxas de juro são elevadas e algumas chegam ao limite autorizado pelo Banco de Portugal, de 15,6% .

Elisabete Tavares
Lisboa, 15/6/2020 - O Centro Comercial Colombo reabriu esta manhã depois de três meses fechado devido à pandemia de Covid-19, doença provocada pelo Coronavirus SAR-CoV2. Existe um reforço nas medidas de segurança e distanciamento social. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Na hora de fazer compras este Natal, vale a pena analisar as condições antes de comprar com recurso aos cartões de fidelização das lojas. Várias cadeias têm cartões de crédito que promovem diversas vantagens, incluindo descontos nos produtos, e que visam igualmente fidelizar os consumidores. Mas optar por pagar as compras com cartões de crédito das lojas pode sair muito caro. Muitas lojas cobram o máximo permitido pelo Banco de Portugal. Muitos cartões de crédito têm uma taxa de juro de 15,6%, a taxa máxima autorizada para o quarto trimestre deste ano, segundo uma análise do ComparaJá, uma plataforma de comparação e análise de produtos e serviços financeiros.

A maioria das lojas promove cartões de crédito que são cedidos por empresas financeiras como Cetelem, Oney e Unicre. A exceção vai para o El Corte Inglés, que possui a sua própria sociedade financeira.

"Para as pessoas que têm já como rotina fazer compras no mesmo estabelecimento, este tipo de cartões pode acabar por ser uma boa solução. Muito por causa das vantagens e promoções que estes cartões oferecem na mesma marca (ou superfície comercial), pode fazer sentido apostar neste cartão", diz João Morgado, diretor do ComparaJá, que também opera como intermediário de crédito.

"Ainda assim, é essencial analisar um aspeto muito importante nesta temática. As percentagens das TAEG apresentadas nestas propostas são muito altas, ficando mesmo muito próximas dos limites impostos pelo Banco de Portugal", alerta.

João Morgado recomenda que os consumidores devem tentar "fazer pagamentos a 100%, para evitar as elevadas taxas de juro". E adianta que "as outras soluções existentes no mercado, possíveis de comparar na plataforma gratuita do ComparaJá, podem acabar por ser bem mais vantajosas para a carteira dos portugueses".

Vantagens versus custos

O ComparaJá.pt analisou o mercado dos cartões de crédito de marcas e segmentou estes produtos em cinco categorias: tecnologia, hipermercados, mundo automóvel, vestuário e decoração e mobiliário.

Na categoria tecnologia, concluiu que há sobretudo três grandes marcas a oferecer cartões de crédito de fidelização em tecnologia e nenhuma descola da TAEG (taxa a anual de encargos efetiva) máxima permitida pelo Banco de Portugal. "Contudo, também permitem vantagens e descontos, embora só a Fnac tenha oferta fora das suas lojas. Mas, adquirindo um cartão desta marca ou outro da Rádio Popular, por exemplo, pode utilizá-lo como cartão de crédito normal noutros estabelecimentos. O mesmo já não acontece com a Media Markt", apontou a análise. Em termos de taxa de juro, o cartão da Rádio Popular cobra uma TAEG de 12,9%, enquanto a Fnac e a Media Markt cobram a taxa máxima autorizada.

No caso dos hipermercados, a maioria dos cartões de fidelização não cobra anuidade, mas as taxas de juro são altas. Por exemplo, os cartões Auchan, El Corte Inglés ou Universo não têm custos com anuidade. "Uma vantagem diferenciadora do Cartão Universo é o facto de estar associado à Sonae e, como tal, ceder vantagens em várias marcas desse grupo económico. Também permite acesso ao Plano Wells, que traz consigo descontos ao nível da saúde", destaca a análise. No entanto, "todos estes cartões são pautados por diversos descontos, que se refletem na própria marca mas também em parceiros externos".

Na categoria ligada ao setor automóvel existem também cartões que permitem descontos vários. Nem o Caetano Go - antigamente chamado Caetano Retail -, o BP PowerPlus e o Norauto + têm qualquer anuidade. O BP PowerPlus oferece seguros gratuitos, "algo diferenciador ". "Além disso, todos os cartões nesta categoria têm diversas vantagens e descontos, tanto na própria marca como noutros parceiros", frisa o ComparaJá.

Na categoria do vestuário, existem os cartões Decathlon e Cartão Must, do Freeport. Ambos têm taxas de juro a bater nos máximos do Banco de Portugal, mas não cobram anuidades.

O cartão Decathlon não tem custos com anuidade mas também não dispõe de seguros gratuitos nem de vantagens noutros parceiros. Já "o cartão do Freeport torna-se diferenciador, no sentido em que as promoções e vantagens que oferece não são apenas internas, mas possui igualmente uma rede externa de parceiros onde o utilizador pode usufruir de descontos", aponta o ComparaJá.

Quanto aos cartões contemplados na categoria de decoração e mobiliário, são eles os da Conforama, Ikea, AKI e Leroy Merlin. "Sendo que os dois primeiros têm TAEG ligeiramente superiores - de 15,56% versus 15,58% -, a verdade é que também não possuem descontos em parceiros externos", sublinha-se na análise. Por seu lado, os cartões do AKI e do Leroy Merlin - que se encontram associados à financeira Oney - possuem várias vantagens, tanto interna como externamente.

O Banco de Portugal calcula e publica trimestralmente as taxas máximas em vigor para cada tipo de crédito aos consumidores. Segundo o supervisor, as taxas máximas correspondem às TAEG médias praticadas pelas instituições de crédito no trimestre anterior, nos diferentes tipos de contratos, acrescidas de um quarto. Nenhuma taxa pode ultrapassar em 50% a TAEG média da totalidade dos contratos de crédito aos consumidores celebrados no trimestre anterior.

Os portugueses aumentaram este ano o recurso ao crédito consumo. No total, os consumidores endividaram-se em mais 4,7 mil milhões de euros em crédito ao consumo entre o início de 2021 e o final de setembro. O valor compara com 4,4 mil milhões de euros contratados em igual período de 2020, ano em que viveu uma das maiores crises económicas de sempre devido medidas adotadas no âmbito da gestão da pandemia de covid-19.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo