Famílias cortam no volume de alimentação, mas valor gasto dispara

INE. Descontando efeito da inflação, despesa com alimentos está a cair desde o início do ano. Não acontecia desde o tempo do programa de austeridade da troika. Crescimento da economia continua no terceiro trimestre, mas abrandamento é muito expressivo.

Luís Reis Ribeiro
© Ina FASSBENDER/AFP

O setor das famílias residentes em Portugal dá sinais de que algumas já estão a cortar na comida, mas, por causa da inflação elevadíssima, a despesa total com alimentação disparou na mesma e subiu mais de 13% no terceiro trimestre, o maior agravamento nas séries do Instituto Nacional de Estatística (INE), que remontam a meados dos anos 90.

Segundo a nova edição das contas nacionais do INE ontem divulgada e a que se referem estes dados, também o valor despedido em alimentação (ou seja, o valor nominal, a preços correntes, que conta com o efeito propulsor da alta inflação) atingiu um novo máximo nas séries oficiais, que remontam a 1995.

Já a despesa em alimentos medida em preços constantes (expurgando o efeito da inflação) capta a evolução do volume em comida e este está a afundar.

Esta última medida permite ver qual a evolução real do consumo de alimentos e aqui a tendência é claramente negativa há três trimestres consecutivos, diz o INE.

Caiu 2,1% no primeiro trimestre deste ano face a igual período de 2021, a queda agravou-se para 2,3% no segundo trimestre e continuou a contração com menos 1% no terceiro trimestre.

Antes, volume gasto em alimentos só caiu com a troika

A despesa real com alimentação é um indicador altamente correlacionado com as conjunturas de crise aguda. Nestas séries do INE, este tipo de despesa das famílias só caiu a sério nos tempos de chumbo do programa de ajustamento da troika e do governo PSD-CDS, entre o segundo trimestre de 2011 e o primeiro trimestre de 2013.

No atual quadro de inflação, o volume até pode estar a cair, mas o valor avança de forma acentuada na mesma.

Segundo o INE, esse valor da despesa feita em bens alimentares pelas famílias residentes no País aumentou de forma violenta logo após o começo da guerra da Rússia contra a Ucrânia (começou no final de fevereiro), com uma subida histórica de 8,5% no segundo trimestre. Este recorde nas séries do INE foi batido novamente neste terceiro trimestre, com um aumento de 13,1%.

Assim, acumulam-se sinais de que há muitas famílias que estarão já a consumir menos comida, o que pode ser já um reflexo do embate da subida de preços e das limitações impostas aos orçamentos familiares, sobretudo dos agregados endividados e que lidam também com outra enorme pressão: a subida rápida e forte das taxas de juro.

Segundo o destaque das contas nacionais, o consumo privado ainda se está a aguentar em termos reais (descontando a inflação) porque a contrariar há categorias de bens que estão a puxar pelo agregado do consumo total (que representa dois terços da economia).

"A componente de bens duradouros registou um crescimento homólogo mais pronunciado, acelerando de 4,7%, no 2º trimestre, para 14,7%, observando-se uma aceleração tanto na aquisição de veículos automóveis, como nas despesas em outros bens duradouros", explica o instituto.

No entanto, "esta evolução refletiu em parte um efeito base, uma vez que no 3º trimestre de 2021 verificou-se uma diminuição de 6,4%", reflexo de "uma redução significativa da despesa coma aquisição de veículos automóveis".

© INE

Acentuado arrefecimento da economia

No cômputo geral, a economia portuguesa ainda estava a crescer no terceiro trimestre, mas nota-se que o abrandamento é muito pronunciado. O produto interno bruto (PIB) real aumentou 12% (em termos homólogos, descontando inflação) no primeiro trimestre, o ritmo baixou para 7,4% no segundo e agora vai em 4,9% no terceiro trimestre.

Isto coloca o crescimento médio do ano (até setembro) nos 8,1% o que faz antever um quarto trimestre muito fraco à luz das últimas previsões/estimativas para o crescimento de 2022 pois deve fazer baixar essa média.

O governo (Finanças) estima 6,5% em 2022, o Banco de Portugal e a OCDE apontam para 6,7%, a Comissão Europeia (projeção mais recente) diz 6,6%.

Na publicação das contas nacionais, o INE refere que "o PIB, em termos reais, registou uma variação homóloga de 4,9% no 3º trimestre de 2022 (7,4% no trimestre anterior)".

"O contributo da procura interna para a variação homóloga do PIB diminuiu no 3º trimestre, passando de 4 pontos percentuais (p.p.) no 2º trimestre, para 2,9 p.p., verificando-se um crescimento ligeiramente menos acentuado do consumo privado e uma diminuição do investimento, determinada pelo comportamento da variação de existências".

O consumo privado total ainda cresceu 4,4%, mas o investimento cedeu 0,4%, arrastado por um efeito de depreciação de equipamentos e materiais em stock.

O consumo público ajudou, mas pouco, tendo abrandado para apenas 0,5%, o crescimento mais débil desde o segundo trimestre de 2020, quando começou a pandemia e foi decretado o primeiro grande confinamento.

As exportações continuam a ir bem, mas também estão a perder força. O volume exportado em mercadorias avançou 11,3%, nos serviços a subida foi de 30,1%. No total, as vendas ao exterior aumentaram 16,8% no terceiro trimestre, ritmo que compara com o aumento de 25% no segundo trimestre deste ano, por exemplo.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo