Alfredo da Silva. O Fazedor português original nasceu há (quase) 150 anos

O patrão da CUF foi o industrial e empresário mais influente de Portugal na primeira metade do século XX

Nasceu no ano em que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão começaram a publicar a crónica mensal "As Farpas", 1871, e a sua influência viria a ser tão grande como a dos dois ilustres escritores portugueses. Apenas em áreas completamente diferentes e sem a mesma visibilidade de que gozam Eça e Ortigão até hoje. É provável que muita gente não saiba bem quem foi Alfredo da Silva ou nunca tenha sequer ouvido falar dele. Nos 150 anos do seu nascimento, os herdeiros do empreendedor português consideram que está na hora de mudar isso.

Alfredo da Silva poderia ser descrito como um dos "fazedores" iniciais da modernidade lusa. Ao longo dos tempos, foi descrito como "o grande industrial", "o comercialista número um", "o grande patrão da economia portuguesa", "o industrial mais empreendedor" da Península Ibérica. A sua influência estendeu-se a todos os sectores da economia e sociedade, tendo-se tornado no empresário mais marcante que Portugal, rural e pouco urbanizado, conheceu no final do século XIX e primeira metade do século XX.

Apesar de ter nascido em condições favoráveis, no seio de uma família de comerciantes abastados, Alfredo da Silva demonstrou uma visão e capacidade de execução avançadas para a era em que viveu. Ele foi o criador de um império empresarial cujo legado sobrevive até hoje: grupo CUF, Tabaqueira, Lisnave, Banco Totta & Açores, Companhia de Seguros Império, além de outros negócios mais pequenos em áreas variadas (por exemplo, a Companhia Animatógrafica dos Restauradores/ Cinema Éden). Entre as empresas herdeiras do grupo que criou contam-se a Brisa, a Bondalti, Lagar do Marmelo, Azeite Oliveira da Serra e Óleo Fula.

Privilegiado pelo estatuto familiar, Alfredo da Silva era ambicioso e tinha estudos - aprendeu francês, inglês e alemão, nutrindo uma apreciação especial pela química industrial - o que o distinguia num reino onde a maioria da população morria analfabeta. Em 1890, por exemplo, 76% da população portuguesa maior de 7 anos não sabia ler nem escrever. Foi aí - para contexto, o ano em que a Inglaterra fez um ultimato a Portugal - que começou a gerir a herança da sua família. No ano seguinte, a coroa portuguesa entraria em bancarrota. O empresário, com vinte e poucos anos, rapidamente passou para a administração da Companhia Aliança Fabril (CAF) e do Banco Lusitano.

Alfredo da Silva era um homem que se vestia bem, usava o bigode farto como era da moda e começou muito cedo a fazer-se notar nos circuitos empresariais, falando amiúde nas assembleias-gerais das empresas onde detinha participações. Ficou intimamente ligado à eletrificação da rede da Carris, depois de uma viagem de estudo sobre eletricidade nos transportes urbanos a várias cidades europeias.

Foi no final do século, em 1898, que o seu pendor visionário se concretizou de forma permanente: atendendo às dificuldades da Companhia Aliança Fabril e da Companhia União Fabril, o gestor conseguiu a fusão das duas empresas no grupo CUF. A nova empresa foi decisiva no crescimento industrial do país, produzindo desde sabões e óleos vegetais a adubos, e a escolha do Barreiro para a nova sede, em 1908, transformou uma pequena vila numa grande cidade industrial.

Alfredo da Silva era de motes pragmáticos. "O que o País não tem, a CUF cria" era um deles e as condições à volta das fábricas ilustram-no bem, com a criação de bairros residenciais para os trabalhadores e ensino para os seus filhos. Na altura, isto era o mais parecido com as regalias que hoje tornam algumas empresas nas mais cobiçadas do mundo para trabalhar e bastante raro entre os pares. Foram inovações de um empresário humanista, que criou a "Obra Social" para dar melhores condições aos seus trabalhadores e manter a paz social.

Outro dos seus motes era "Mais e Melhor", o que parece óbvio mas no contexto da época era notável; sinalizava uma vontade de contribuir para o desenvolvimento económico e social de um país cheio de constrangimentos e em turbulência. Durante a sua vida empresarial, Portugal passou de Monarquia a República, teve imensa instabilidade parlamentar - sendo que o próprio Alfredo da Silva foi eleito deputado, assistiu à I Guerra Mundial e à pandemia de pneumónica, que nalgumas regiões do país matou 10% da população, viu o efémero governo de Sidónio Pais (que apoiou) e viu o regime transformar-se no Estado Novo.

A base dos investimentos de Alfredo da Silva foi a química e o têxtil, mas o grupo cresceu para várias outras áreas, da reparação naval e transportes à hotelaria e turismo. Tudo o que foi feito depois da sua morte, em 1942, seguiu a sua fórmula ousada de empreendedorismo.

A expansão com fábricas por todo o país explica que o grupo tenha crescido para dezenas de empresas e 12 a 16 mil empregados. Foi daí, inclusive, que surgiu a entrada no sector da saúde. Inicialmente, a construção de um hospital tinha como objetivo dar assistência aos milhares de trabalhadores e às suas famílias. Setenta e cinco anos depois, há 19 unidades de saúde CUF em todo o país.

"O futuro como tradição"

O legado de Alfredo da Silva será debatido e comemorado durante o próximo ano, com uma série de colóquios, um documentário, uma conferência nacional, três prémios científicos e quatro selos comemorativos emitidos pelos CTT. A iniciativa "O futuro como tradição" é da Fundação Amélia de Mello, filha de Alfredo da Silva que casou com D. Manuel Augusto José de Mello, tendo este sucedido ao grande industrial nos comandos da CUF após a sua morte.

Os 150 anos do nascimento de Alfredo da Silva assinalam-se a 30 de junho de 2021.

"Estas celebrações têm como objetivo divulgar a vida e a excecional obra de Alfredo da Silva", explicam os organizadores, "incluindo os aspetos caracterizadores do Grupo CUF, bem como o legado recebido por todos os que lhe sucederam, seja nas famílias José de Mello, seja nas empresas."

Ana Rita Guerra é jornalista Dinheiro Vivo

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