Alexandre Fonseca: "O SIRESP vai acabar a 30 de junho"

O CEO da Altice acusa o presidente da Anacom de "erros" e "mentiras" no leilão 5G, cujos interessados têm até amanhã para se pronunciarem. E ataca postura do governo. Diz que o sistema de comunicações de emergência pode estar em causa a partir de julho. Admite que a Altice não quer continuar na TDT.

Em fevereiro foi lançada a segunda fase do Programa Pessoa, de rescisões amigáveis, que poderia abranger até 2000 trabalhadores. Que balanço pode fazer sobre a adesão?
Antes do balanço, gostava de fazer uma introdução relativamente às motivações subjacentes à necessidade deste programa. Em 2017, quando esta administração tomou posse, tomámos como prioridade a estabilização do ambiente laboral e a criação do conceito da família Altice. Esse trabalho foi perfeitamente atingido à data de hoje, mas desde 2018 sentimos que o início de uma pressão anormal do ponto de vista regulatório, que se transformou depois num ambiente hostil para o setor e muito em particular para a Altice Portugal, criou diversos desequilíbrios no mercado e, consequentemente, na nossa presença no mercado. Juntou-se a isso o início do processo do leilão de 5G, atrasado e envolto num conjunto de casos, num conjunto de situações assimétricas e que criam impactos significativos no setor. E tudo isto contribuiu para o momento para o qual alertámos há alguns meses de destruição de valor que estava a acontecer e iria ter impactos no investimento, na inovação, mas também no emprego. Juntou-se ainda durante esse período a multa da Autoridade da Concorrência (AdC), um fenómeno anormal, por ser a maior multa já aplicada a uma empresa privada mas também porque na própria nota de culpa é dito que não há qualquer prova ou qualquer facto que suporte essa multa. E tudo isto criou um momento muito complexo. Olhando para o 5G como o temos hoje, vai também criar um impacto significativo no mercado. Portanto, chegámos a 2021 com a necessidade de encetar este programa, que tem como objetivo uma restruturação do ponto de vista orgânico da Altice Portugal e que foi forçado, motivado pelas condições de mercado, a pensar não no lucro, não só no tema da pandemia - que obviamente também nos afetou - mas acima de tudo no nosso futuro, na sustentabilidade, no crescimento, na liderança.

E o balanço?
Relativamente ao programa como foi anunciado, nesta fase passa por um conjunto de soluções de pré-reforma e suspensões de contrato de trabalho das quais recebemos, à data, cerca de 1500 inscrições, o que está em linha com a nossa expectativa. Dessas 1500 inscrições, estimamos que cerca de mil poderão sair - algumas até já iniciaram o processo -, num programa que revela a nossa preocupação com as nossas pessoas, é preciso dizer isto. Este é um programa quase inédito em termos das condições aplicadas e que revela a preocupação que temos com os colaboradores, porque revela uma necessidade de responsabilidades de algumas centenas de milhões de euros: estas pessoas, até à idade legal da reforma, estarão protegidas.

Quanto é que vai custar o programa na totalidade das duas fases?
O valor associado é de algumas centenas de milhões de euros porque isto é um programa que obriga a Altice Portugal a assumir responsabilidades sobre esses ex-colaboradores - ou ainda colaboradores, porque mantêm o vínculo contratual - até à idade legal da reforma. Estamos a falar de alguns colaboradores com 50/55 anos, são facilmente dez, 15, 17 anos de responsabilidades sobre essas pessoas. E portanto, é um programa que mostra não só a capacidade financeira da Altice para poder encetar um programa destes, mas também a nossa responsabilidade. Poderíamos sair por caminhos mais fáceis. Não optámos por isso porque teriam maior impacto para as nossas pessoas. Nesta segunda fase do Programa Pessoa, decorre um processo de rescisões por mútuo acordo com condições vantajosas, em que antecipamos que mais algumas centenas irão sair da Altice Portugal. Antes do final da primeira metade de 2021 vamos fazer um balanço - programas de suspensões de contrato de trabalho, pré-reformas, mas também as rescisões por mútuo acordo - sobre aquilo que foi atingido, mas também o que é o ambiente regulatório, para todo o ambiente socioeconómico derivado também da pandemia. E nessa altura tomaremos decisões sobre aquilo que será o futuro e este plano integrado que, como o João Zúquete da Silva referiu também numa entrevista ao DN, é um programa que vai cobrir tudo o ano de 2021. É importante ter a noção de que este programa não tem como objetivo o aumento ou a maximização do nosso lucro. Tem, acima de tudo, que ver com um conjunto de fatores. Não foi só a pandemia que precipitou o programa. Foi um ambiente regulatório muito hostil, em particular da Anacom. E uma boa parte das responsabilidades sobre a execução de um programa como este - que se tenta sempre evitar, é, claramente - é imputável a essas entidades reguladoras. Mesmo assim temos como objetivo sermos mais fortes, mais sustentáveis, mais flexíveis e estarmos mais em linha com aquilo que é dimensão dos principais concorrentes em Portugal.

Disse quando apresentou o Programa Pessoa que isto se traduzia em perdas na ordem dos 50 milhões entre 2016 e 2018. Com esse impacto, pode subir?
É difícil contabilizar mais ainda os impactos regulatórios porque são cumulativos. Quando o regulador toma decisões unilaterais, como alterar as condições do contrato do serviço TDT, em que cortou 15,16% do contrato unilateralmente - um contrato que existe entre a Altice Portugal e o Estado português - e o regulador, a dada altura corta 15%... Quando o regulador corta cumulativamente mais de 90% dos custos associados aos cabos submarinos que ligam Portugal continental às regiões autónomas. Quando o regulador altera as condições das ofertas reguladas. Quando tudo isto acontece desta forma, de forma unilateral, torna-se difícil. A dada altura, nós conseguirmos medir mais porque os impactos são cumulativos e crescentes. Esses 50 milhões que nós estimámos - claramente que se contabilizarmos com 2020 vão ser ainda maiores. Mas o que me preocupa acima de tudo é o impacto que isto tem no futuro. Nós avisámos há mais de um ano que a continuidade e a insistência nesta destruição de valor, neste ataque reiterado ao setor, deste ambiente hostil ao estilo da regulação cria impactos e tem impactos no investimento, na inovação e no emprego. E é isso que estamos a verificar. E é por isso também a preocupação - até por aquilo que se está a passar hoje no 5G. Vamos fazer um balanço no final do primeiro semestre e definiremos as medidas que podemos ser obrigados a tomar para a segunda metade do ano, também no que toca a este programa de reestruturação.

Quando fala desse balanço fala em jeito de ultimato? Poderá estar em causa suspender algum tipo de investimento, tomar decisões que mudem o rumo da Altice?
Não é um ultimato. Nós somos uma empresa privada. O nosso objetivo é maximizar a presença no país, o investimento, a inovação, criar valor e criar emprego. Quando estão criadas condições exatamente para o inverso não é uma questão de ultimato, é uma questão de bom senso e de gestão, temos de proteger a sustentabilidade da nossa organização e dos colaboradores. O que está em cima da mesa é observarmos as tendências do mercado, os principais dossiês do setor - o 5G incontornavelmente - e com tudo isso teremos de tomar decisões, não só a nível do investimento. Não nos podemos esquecer que temos em Portugal um centro de inovação para todo o grupo Altice que emprega mais de 600 pessoas. Teremos também de olhar para esta presença nível português, mas com o objetivo de exportação de tecnologia, da captação do investimento e, por fim, do emprego porque este programa integrado que estamos a desenvolver está em linha com as nossas expectativas, mas teremos de perceber o que é que sairá deste dossiê do 5G e quais são os impactos adicionais relativamente ao nosso negócio, à sustentabilidade. Portanto, não há aqui ultimatos, há decisões de gestão. É assim que as empresas funcionam e é lamentável que muitas vezes, quer os reguladores quer o governo, se esqueçam das premissas de um investidor privado que tem, legitimamente, expectativas sobre estabilidade e previsibilidade para poder continuar a investir.

Já lá vamos ao 5G. Antes vamos aos resultados da Altice, em 2020. As receitas aumentaram apenas 0,5%, o EBITA cresceu 0,2% e o investimento foi de 465 milhões - aí sim, houve um investimento de 6,9. Com essas condições de mercado os resultados ficam aquém das expectativas? E a Altice tem condições para manter de investimento?
Bem, eu diria que os resultados são tudo menos ficar aquém de qualquer expectativa, começando fora de Portugal. Se olharmos para 2020, de todas as congéneres europeias - falo dos ex-incumbentes - houve um, um único, que foi a Orange, que teve um crescimento de receitas superior ao nosso (de 1,7%). Mas se olharmos para a segunda metade do ano, a Atice Portugal foi o operador que mais cresceu receitas de toda esta lista de operadores de proa, de líderes a nível europeu. Crescemos 1,8% e a Orange 1,7%. A nossa rentabilidade está em linha com a média europeia. Investimos 22% das receitas em termos globais - a média destes operadores são 18%. Num ano de pandemia. Crescer receitas, rendibilidade e investimento é de facto notável. Se compararmos com os congéneres em Portugal ainda mais notável é. Porque vemos de facto decréscimo, queda dos resultados dos principais concorrentes em Portugal, seja operacionalmente seja financeiramente. Vemos a Altice Portugal a continuar a crescer nas suas quotas de mercado, ainda há pouco tempo estávamos a celebrar o assumirmos a liderança da televisão; hoje levamos mais de um ponto percentual de vantagem sobre o segundo operador em Portugal. Estes resultados num ano de pandemia, com o contexto socioeconómico que vivemos, eu diria que são extraordinariamente positivos e nos deixam confiantes. Somos líderes, somos um líder que cresce consecutivamente há mais de dois anos e isso dá-nos confiança para o futuro. Mas um investidor procura essencialmente duas variáveis: previsibilidade e estabilidade. E já foi dito por vários acionistas, o nosso também, mas até dos concorrentes, que neste momento o grave problema de Portugal no setor das telecomunicações - e noutros - é a falta de previsibilidade e estabilidade, em boa parte derivado do ambiente regulatório.

Como viu a alteração à regra do 5G?
É algo que nos deixa... não diria perplexos porque este regulador já nos habituou a tirar coelhos da cartola que são, de facto, pérolas únicas a nível europeu ou mundial. Estamos perante um leilão que se iniciou debaixo de uma cortina de suspensões, com um conjunto de questões que foram alvo de processos judiciais ainda a correr a nível nacional mas também europeu, com um conjunto de regras únicas porque protegem, de forma descarada, os novos entrantes, privilegiam empresas que, estando já em Portugal com licenças, nunca tiraram benefícios dessas licenças nem criaram condições para criar valor, um leilão completamente assimétrico com as preocupações do país, que surgiu 48 horas depois de uma resolução do Conselho de Ministros, e cujas regras são completamente antagónicas. Que levaram a críticas do ministro da Economia, do antigo secretário de Estado das Comunicações - que curiosamente, um par de semanas depois de fazer essas críticas no Parlamento acabou por sair de funções. Tudo neste leilão foi envolto num conjunto de situações pouco normais que nos levam hoje a ser um dos três países europeus que ainda não têm 5G. Deixámos de ser o camisola amarela das telecomunicações - como fomos no 3G e no 4G - para sermos o carro vassoura da Europa no 5G. Somos hoje um dos piores exemplos. A Altice Portugal há quatro anos que trabalha no 5G. A nossa parte nós já a fizemos. O setor fez a sua parte. Quem não fez a sua parte foi o regulador.

O regulador argumentou que alterou as regras para acelerar o leilão. Isto faz-lhe sentido?
Claro que não, porque o regulador ao propor estas alterações vem reconhecer um erro, que não foi capaz de definir um regulamento que estivesse em linha com as suas genuínas expectativas. Aliás, eu recorro-me aqui de uma de uma cábula em que o regulador diz algo como isto, que a eventual delonga na conclusão do leilão poderia originar um inevitável retardamento do desenvolvimento e entrada em funcionamento das redes, em prejuízo dos cidadãos. A pergunta que eu faço é: mas o senhor Cadete de Matos descobriu isto em abril de 2021? O 5G é decisivo para a economia, para a competitividade do país, para a coesão territorial. Nós alertámos para isto há mais de dois anos. O senhor Cadete de Matos descobriu agora em abril? O regulador concluiu que urge tomar medidas para acelerar o processo - mas concluiu isso agora? Isto mostra, de facto, o primeiro erro. Um erro de impreparação, um erro da constituição, do próprio regulamento. Depois é também o reconhecimento de incompetência, porque o próprio regulador, agora neste comunicado que faz, aponta exemplos como a Finlândia, a Alemanha, a Eslováquia. Mas, mais uma vez o regulador mentiu. Porque quando coloca estes países neste comunicado esquece que nestes países as alterações das regras do leilão foram decorrentes do próprio regulamento, porque dentro do regulamento que tinha sido publicado inicialmente já estava previsto que pudessem existir alterações along the way. Não era o nosso caso.

Portanto, uma reserva, o contrato previa isso.
Claro. Nesses países sim. Em Portugal não. O regulador vem agora trazer mais uma vez para cima da mesa a sua forma de trabalhar. O regulador não falou connosco. Que fique claro. Nós fomos informados três minutos antes da comunicação social. Não houve um telefonema, uma conversa, um e-mail. É esta a forma de regular do nosso regulador. Regula sozinho, de forma autista, de forma prepotente. E ainda há que acrescentar a tudo isso a forma e como isto traduz, que é falta de previsibilidade. É um direito consagrado em Portugal, no Estado de Direito, o direito à segurança e à previsibilidade no que toca a concursos como este. Em particular quando são altamente concorrenciais. E este regulador viola esse direito. É inacreditável quando uma autoridade mente aos portugueses. O regulador, logo no preâmbulo deste comunicado, alega que esta alteração, ou proposta de alteração, decorre da lei 1A de 19 de março de 2020. Uma lei que suspendeu os procedimentos administrativos. Mas esquece-se de dizer - é um erro grave, para não dizer uma omissão grosseira - que este leilão está explicitamente excluído desta lei. Foi alvo de uma exclusão específica, para que pudesse decorrer. Porque senão nem estaria a decorrer o leilão. Tudo isto é mau demais para ser verdade, ferido de ilegalidade. É, de facto, um sinal claro, além do reconhecimento do erro, da incapacidade que este regulador tem. Mas vamos mais longe. O regulador até agora achou que estava tudo ótimo, tudo a correr bem: 61 dias, 360 rondas. E até agora assobiou para o lado e estava tudo fantástico. E de repente vem propor alterações, esquecendo-se que o próprio regulamento, por exemplo, tem já uma medida que nunca usou que poderia acelerar o leilão.

Tem?
Hoje os intervalos entre cada ronda são de 30 minutos. Mas o leilão permite que sejam encurtados para 15. Se isto acontecesse era mais uma ronda por dia. O regulador nunca usou esta diretiva. E agora vem dizer que afinal temos de mudar tudo. E quando o diz, esquece um pormenor: quando nós testamos o software - e até isso aconteceu numa nuvem de polémica, de casos, tribunais, a empresa que ganhou esse concurso aparentemente está a violar o conjunto de regras do próprio concurso numa lógica de proximidade estranha com o regulador que eu próprio começo a ter dúvidas se não será já do foro da justiça - alertámos que tinha um problema, tinha um erro. Numa ronda, se todos fizerem as suas licitações e alguém tiver o lote mais caro e, portanto, não precisar de licitar, poderia carregar num botão e dizer "termina esta ronda". Este software não o permite. A ANACOM, uma vez mais, não quis saber. E, portanto, estamos a falar de um conjunto de alterações completamente irracionais, artificiais, que alteram as regras a meio do jogo - o que é reprovável no mínimo - e que mostram a impreparação, a incapacidade, a incompetência deste regulador. Uma última questão, também sintomática da falta de respeito. Este regulador vem agora dizer que uma das propostas é estender o número de horas de licitação por dia - quer que continuemos a fazer licitações, com equipas presenciais no escritório, incumprindo regras da DGS impostas pelo próprio regulador, em plena fase de pandemia de estado emergência. Vem agora querer alargar este espetro quando, na quinta-feira Santa e na segunda-feira de Páscoa, atribuiu tolerância de ponto a todos os seus colaboradores e no mesmo dia veio dizer-nos a nós que tínhamos de fazer licitações nesses dias. Isto mostra a falta de respeito que este regulador tem tido com o setor.

E o que é que vão fazer?
Antes de mais, vamos responder. Vamos responder às questões práticas, operacionais, que são muitas, mas também estamos a equacionar os mecanismos jurídicos, mais litigância, em cima destas alterações, porque é evidente que além de toda a questão de impreparação estas alterações estão feridas de ilegalidade. Vamos recorrer a todos os mecanismos que temos à nossa disposição mesmo sabendo que, ao fazê-lo, como as regras que a ANACOM tem em cima da mesa há vários anos esta parte, estamos também aumentar as nossas taxas de regulação - que incrementam à medida que a litigância sobe, porque somos nós que pagamos a própria litigância.

Defende a demissão do regulador?
Eu já defendi a demissão do regulador há muito tempo. E não o defendo só por uma questão de caráter ou por uma questão do mau serviço que está a prestar ao país. Quando temos um regulador que desconhece o setor, não fala com os seus regulados, incumpre um conjunto de obrigações estatutárias do ponto de vista do trabalho da regulação, estamos perante uma situação que não é aceitável. Agora temos mais. Se eu já venho defendendo que quando alguém está a mais no setor tem de tirar ilações... hoje o coro de críticas é enorme. Não são só os operadores. São consultoras internacionais, bancos de investimento, associações empresariais, especialistas do setor. Até o Nicolau Santos fez uma análise bem objetiva daquilo que é o trabalho do regulador, o mau trabalho, e pedir algo que eu pedi há muito tempo: que alguém no governo, na Assembleia da República questione efetivamente o regulador sobre esta atitude prepotente, autocrática que tem trazido à relação com os operadores, mas acima de tudo à destruição de valor. Quando falamos do 5G falamos, provavelmente de forma consensual, de um dos maiores e mais importantes dossiês para o desenvolvimento da economia, para a competitividade do país, para a coesão territorial. E que além dos atrasos está envolto numa nuvem de falta de transparência, de falta de clarividência, de casos - como agora mais este relativamente às adjudicações para o leilão do 5G. Estamos perante um conjunto de suspeitas, de situações de destruição de valor que é transversal à sociedade e à economia. Perante uma situação como esta, eu já o disse, no lugar do regulador eu já teria tirado as minhas ilações há muito. Só há um erro pior do que nós errarmos: é insistimos no erro e sermos autistas contra o nosso próprio erro. É por demais evidente que não há condições para alguém com o perfil do atual presidente da autoridade das comunicações continuar no cargo. Não é nada contra a ANACOM. A ANACOM tem nos seus quadros extraordinários profissionais, que nós reconhecemos. O problema é a liderança. Acho que já passámos esse ponto, não estamos já só a falar da demissão do regulador. Estamos a falar de assacar responsabilidades sobre tudo o que se tem passado desde a destruição de valor aos atrasos, mas também a toda esta nuvem de suspeição que se está a gerar à volta da ANACOM. Estamos já num ponto muito para além da demissão do regulador, em temas que devem ser fortemente analisados ao nível da Justiça.

Vai pôr em tribunal a ANACOM por causa deste leilão de 5G?
Chegou-nos na sexta-feira a proposta de alterações. A primeira leitura que fizemos foi obviamente já alvo de muitas críticas do ponto de vista jurídico. Não vou antecipar já aquilo que vamos fazer, mas certamente estamos a analisar mecanismos como providências cautelares até sobre esta proposta de alteração, que está aferida de ilegalidades, na nossa perspetiva.

Falou também de coesão territorial. Como é que analisa as obrigações de cobertura nacional previstas no 5G e que investimento irão exigir?
O 5G, para a Altice Portugal, começou em 2016, com o roll out de fibra ótica, a implementação por todo o país. Muitos pensavam porque é que éramos tão ambiciosos e hoje chegamos a 5,6 milhões de lares. Este programa da fibra ótica tem que ver também com o 5G, com preparar infraestruturas que vão ligar as antenas por todo o país. Da mesma forma quando expandimos a rede 4G e investimos na sua modernização. Temos feito este trabalho de forma única, porque a capilaridade deste investimento tem chegado às regiões autónomas da Madeira e Açores, Trás-os-Montes, Beira Interior, Alentejo, Algarve. Chegamos hoje a mais de 85% dos agregados familiares. Tem que ver com essa visão que ainda temos para o 5G, numa lógica de cobertura universal. Agora, a realidade é que quando olhámos de forma dececionante para as regras impostas pelo regulador temos aqui um problema. E esse problema foi alvo de uma má análise do ministro das Infraestruturas. O regulamento do leilão coloca toda a pressão na competitividade dos preços e nada no estimular do investimento em inovação e competitividade. As regras do leilão estão focadas no aumentar os preços do espetro ao invés de deixar capacidade de investimento para essas obrigações de cobertura. O que vai acontecer, se o leilão continuar nesta tendência, é que vai a um ponto em que a capacidade do 5G para as pessoas e para as empresas, que é rede, é serviço 5G, não vai estar disponível porque não há dinheiro. Porque se gastou tudo a comprar licenças. Aquela velha máxima de alguém que compra o carro e depois não tem dinheiro nem para a gasolina. É o risco que temos hoje. As obrigações de cobertura são completamente irrealistas face à realidade do nosso país e ao tempo de que estamos a falar. Estamos a falar de coberturas na casa dos 75% a 90% em componentes do território, inclusivamente algumas vão ao erro crasso de tentar cobrir região e não população. Temos territórios imensos que não têm pessoas. E, portanto, é mais um exemplo da incapacidade que o regulador teve de definir um leilão justo, equilibrado e que não privilegiasse os preços, mas sim a capacidade do 5G de criar valor.

O ministro disse-se "muito contente com o decurso do leilão" e que "as operadoras queixam-se, mas isso é um problema delas e que devem continuar a licitar "porque nós precisamos do dinheiro"...
As declarações do senhor ministro, só podemos lamentá-las. Desde logo, pela falta de postura institucional e até de Estado. Em segundo lugar, porque são injustas perante um setor que emprega dezenas de milhar de pessoas, que vale quase 3% do PIB, que investe mais de mil milhões todos os anos, há mais de uma década, no país. Depois são também declarações preconceituosas contra as empresas privadas, esquecendo uma componente fundamental, o seu investimento. Quanto maior o investimento que os operadores fizerem agora nas licenças, menos recursos vão terão para levar o 5G onde as pessoas precisam, à rede, aos serviços 5G. E lamento a perspetiva mercantilista do 5G. Aparentemente, o governo está muito mais preocupado com a injeção de capital para o Orçamento do Estado decorrente do 5G do que aquilo que é o 5G para a competitividade das empresas, para a coesão do território, para levar o 5G às pessoas, às autarquias. Por fim, lamento, talvez acima de tudo, a falta de visão estratégica. Porque tem sido dito por autarcas, empresários, pelo próprio ministro da Economia que o 5G é decisivo para o futuro de Portugal, que é uma tecnologia disruptiva, que vai levar um conjunto de novas oportunidades de negócio a pessoas e a empresas. E, de facto, é preocupante quando nós ouvimos no Parlamento dizer que está tudo bem quando somos o carro vassoura da Europa no 5G e que estamos muito satisfeitos com o regulador, apesar de todos os casos. O senhor ministro esquece que se os recursos financeiros das empresas - que são finitos - forem todos consumidos para levar o dinheiro do 5G para a compra das licenças, as obrigações de cobertura previstas neste mesmo rolamento vão ser reduzidas ao mínimo indispensável e empurradas no tempo. E não podemos esquecer que este leilão prevê três anos para as obrigações de cobertura. Se o dinheiro for todo consumido na aquisição das licenças, o 5G de forma massiva ficará, provavelmente, para 2024. Mas há mais uma questão de falta de visão estratégica. Os autarcas têm vindo a louvar os investimentos da Altice Portugal no território e têm estado motivados a olhar para o 5 G com uma tal capacidade de alargarmos a conectividade de banda larga móvel a todo o território. É a esses autarcas e gestores que o senhor ministro mais tarde terá de responder. E quando vierem as questões de porque é que Portugal continua a não ser competitivo, não tem banda larga ubíqua para todos, porque é que o 5G em Portugal não é uma alavanca para a competitividade, mas antes um peso para a economia. Nós temos a consciência tranquila, fizemos todo o trabalho preparatório que tínhamos de fazer para o 5G. Instalámos fibra, fizemos demonstrações, implementámos as primeiras antenas, fizemos a primeira transmissão de um conteúdo de televisão em direto com a RTP. Estamos prontos há dois anos. Quem não está pronto é o país, é o regulador e aparentemente também com a complacência do governo. As declarações são de quem as faz. Enquanto cidadão, preocupa-me que haja alguém com responsabilidade neste setor que esteja satisfeito com Portugal ser o pior país europeu no que toca ao 5G.

Como é que comenta a entrada da MásMovil em Portugal, como novo player, sem essa preparação toda que a Altice fez ao longo deste tempo? Pode beliscar a Altice?
A Altice Portugal é líder de mercado e cresce. Não temos medo da concorrência. Em pouco mais de três anos, desde que esta administração tomou posse, assumimos a liderança do único segmento em que ainda não éramos líderes, entrámos em novos mercados como o da eletricidade, o da bioética e outros. A concorrência para nós é saudável, acreditamos num mercado concorrencial. Não acreditamos é no mercado concorrencial enviesado. Os novos operadores podem entrar, desde que entrem com condições equivalentes àquelas que nós temos. Não é isso que se verifica hoje. Esse operador entra no mercado português - aliás já cá está, com condições de igualdade e, por isso, hoje representa menos de 3% de quota de mercado no nosso país - e está a ser-lhe estendida uma passadeira vermelha, estão a ser criadas condições artificiais para o seu crescimento, que nós não vamos ter. E está a ser aberta de forma quase violenta a nossa rede para que esses operadores possam, sem um cêntimo de investimento, cobrir o resto do país. Esse operador em particular, quando lhe foram atribuídas as primeiras frequências naquele leilão à porta fechada, um clube reservado apenas para novos entrantes em que aqueles operadores que estão há 30 anos em Portugal não tiveram direito a entrar, disseram claramente ao que vinham. Disseram: vamos construir rede em Lisboa, no Porto e no Algarve. O resto de Portugal não existe. Para estes operadores novos só existe o filet mignon. O resto é para os outros que investiram. Até porque o regulador já disse publicamente que para o resto do país os outros investem - leia-se Altice e os outros operadores históricos de Portugal - e eles utilizarão sem qualquer custo essa rede. Todos os analistas dizem que um país como Portugal não tem espaço para mais operadores - o regulador vem dizer que tínhamos poucos e mentiu, mais uma vez, a dizer que era assim na Europa toda. Existem 29 países com três ou menos operadores e 14 países com quatro ou mais - e países como a Alemanha ou a Turquia têm 27 milhões de habitantes por cada operador. França ou Inglaterra têm 17 milhões de habitantes por cada operador. Em Portugal existem 3,3 milhões de habitantes por cada operador. Portanto, é falso que Portugal precise de mais operadores. Mas voltando à MásMovil, há outro tema mais preocupante do que esta entrada artificial: estarmos a assistir, desde o final de 2020, em Espanha, a discussões de potenciais fusões, aquisições, joint-ventures, entre a MásMovil e a Vodafone. Assistimos a entrevistas de entidades como Goldman Sachs a analisar os efeitos a nível ibérico, da junção, aos presidentes da Vodafone e da MásMovil a falar abertamente desta fusão e das sinergias ibéricas que poderia trazer. E a pergunta que temos feito à ANACOM, à Concorrência e ao governo é se achavam normal que num período de leilão, em que é completamente vedado qualquer fluxo de informação entre concorrentes, de forma declarada estejam a acontecer negociações entre dois dos concorrentes para o mercado português. A ANACOM imediatamente lavou as mãos - não se coibiu de se pronunciar à Autoridade da Concorrência noutros processos anteriores. A AdC e o Governo não responderam. Eu fico perplexo.

Mas o que é que deveria ser feito na sua opinião? Não deveriam concorrer neste momento de fusões?
Eu acho que neste momento a primeira questão que deveria acontecer era questionar essas entidades, e deixar claro se existe ou não uma negociação em curso. Alguém acredita que das 9.00 às 11.00 estas duas entidades estão a concorrer no leilão e das 11.00 às 13.00 estão a negociar uma fusão, mas não falam do que aconteceu antes? Isto é surreal. Parece-me evidente que estamos perante uma situação que, no mínimo, carece de ser esclarecida. É importante perceber se este leilão é ou não é transparente, está ou não a cumprir um conjunto de regras de bom senso. A ser verdade, obviamente têm de ser tomadas medidas no leilão, ou corremos o risco de ter situações de açambarcamento de espetro ou até de estarmos a gastar centenas de milhões de euros no leilão para depois ter de mandar tudo para trás porque uma nova entidade resultante dessas negociações pode ficar com mais espetro do que é legalmente possível. Aquilo que me parece estranho é que haja esta nuvem suspeição ao redor de dois players que estão a correr no leilão do 5G e que ninguém em Portugal faça nada ou diga nada.

Precisava de uma CMVM para esta área do negócio.
Mas nós temos. A CMVM é uma entidade reguladora, como são a ANACOM e a AdC. Se calhar eu acredito que, face ao protagonismo mediático que estas duas entidades têm procurado nos últimos tempos - quando nós olhamos para o Relatório e Contas da ANACOM de 2019, o último disponível, vemos que as rubricas que mais cresceram foram propaganda, comunicação e patrocínios, além de recursos humanos... É preciso perceber que a ANACOM tem 400 colaboradores, já manifestou a vontade de subir até 420, representa hoje 23 milhões de euros de custos, 42% do total dos custos da ANACOM são custos com pessoal, fazendo da ANACOM a maior reguladora das congéneres europeias. E com todo esse potencial, com tudo isto, eu acho muito estranho que nestes temas, que são relevantes, em que não precisamos de uma CMVM para isto, precisamos de uma Autoridade da Concorrência e de uma ANACOM que faça o seu trabalho, ninguém se queira pronunciar. Eu lamento, preferem, obviamente, os temas mais apetitosos, dos preços e de outras temáticas que fazem mais capas de jornais e não estas, que são temas verdadeiramente técnicos, mas que são muito importantes para o futuro do setor.

O contrato do SIRESP terminará a 1 de julho. O Estado já iniciou negociações com a Altice?
Eu aí não posso acrescentar muito. Estamos a cerca de dois meses e meio do final do contrato e alienámos a nossa participação ao Estado. Hoje o SIRESP é totalmente do Estado. A Altice é o fornecedor de operação, manutenção e gestão e também o alojamento de muitos dos sites do SIRESP, em conjunto com os parceiros tecnológicos em áreas específicas. Não tivemos à data qualquer tipo de contacto.

Portanto, não sabe se vai continuar a fornecer o serviço ou não?
A esta curta distância para um contrato desta complexidade, com os meios técnicos e humanos que envolve, diria que estamos em cima da hora. Do que depende da Altice Portugal, a mim parece-me que o SIRESP vai acabar a 30 de junho de 2021, porque não há em cima da mesa uma perspetiva de continuidade, de negociações contratuais, etc. Temas do SIRESP têm de ser colocados à SIRESP SA ou ao Ministério da Administração Interna. Do nosso lado, até ao dia 30, garantiremos que continuaremos a prestar o serviço, com a redundância satélite em que tanto insistimos e que acabámos por implementar, finalmente, pouco antes de sairmos. Estamos e vamos cumprir o contrato até o dia 30 de junho.

Vamos à TDT. O vosso contrato de concessão termina em 2023. Há algum desenvolvimento para a RTP África entrar no TDT? E com este ambiente regulatório será mais difícil vocês concorrem à concessão?
A TDT, como é sabido, é um trabalho que Altice tem vindo a fazer de alguns anos a esta parte, indo muito para além daquilo que são as obrigações contratuais. O contrato previa uma cobertura por antena, chamada cobertura terrestre, com as antenas normais, em 85% do território e 15% em cobertura complementar, ou seja, satélite. Hoje estamos a dar 95% do território com antena e 5% em satélite, portanto, estamos muito para além daquilo que são as nossas obrigações. Mas este é um contrato que, do ponto de vista financeiro é muito oneroso para a Altice Portugal. Nós já o dissemos. E, acima de tudo, porque há ano e meio houve um corte unilateral - este é um contrato entre a Altice Portugal e o Estado e um terceiro, a ANACOM, não fazendo parte do contrato, decidiu cortar 15% ao contrato. Unilateralmente. Nunca explicou porquê, nunca disse porquê, disse só porque sim, porque eu quero, com a sua atitude prepotente e disse é assim. E o contrato tornou-se ainda mais gravoso do ponto de vista financeiro para a Altice Portugal. Nós continuamos a cumprir todos os indicadores, escrupulosamente. Todos os indicadores operacionais a que somos obrigados. Agora, de facto, este é um contrato que, para nós, traz-nos problemas do ponto de vista financeiro. Nós voluntariamente, e foi fruto do trabalho na altura da minha equipa de Engenharia, quando eu tinha área tecnológica desta casa, foi aí que nós redefinimos de forma também unilateral em termos de nossa proposta, mas depois sempre com o envolvimento do Governo, redefinimos o ecossistema do TDT. E foi nessa altura que foi possível incluir a RTP Memória e também a RTP3 dentro do panorama, sem onerar o contrato, ou seja, nós com a mesma infraestrutura, com o mesmo espetro, do ponto de vista radioelétrico, conseguimos garantir que colocávamos mais dois canais e ainda espaço para outros dois, ou seja, se quisermos nós alargámos o TDT a mais quatro canais sem qualquer custo para a erário público. É preciso dizer-se isto. Fruto só do trabalho de engenharia de Altice Portugal. Colocámos isto à disposição do Governo. Já lá vão dois anos. Dois desses quatro slots, desses quatro espaços foram ocupados pela RTP 3 e pela RTP Memória e os outros dois têm, desde então, estado disponíveis. E nós estamos ansiosamente à espera de que eles sejam ocupados. Porque é uma das poucas formas que existe de tentar garantir que contrato não é assim tão negativo para Altice Portugal. Aparentemente há planos, há projetos para introduzir esses novos canais, está a ser discutido, não há datas concretas, pelo menos que nós as conheçamos. Nós estamos disponíveis e iremos fazê-lo. Agora sobre a continuidade, é evidente nós estamos a dois anos, dois anos e qualquer coisa do fim deste contrato e, por tudo aquilo que eu acabei de dizer, e também acima de tudo mais uma vez o nosso regulador ter mudado as regras do jogo a meio do jogo, como foi o caso do TDT, nós manifestamos na altura a nossa muito dificuldade, a nossa grande dificuldade em podermos vir a dar continuidade ao projeto do TDT. Portanto, neste momento não vou fechar portas, mas, obviamente, que a tendência que temos hoje quando olhamos para o contrato é de uma muito provável não continuidade do TDT com a Altice Portugal envolvida. Não sei se haverá outro ou não. Às vezes critica-se ah e tal a antiga Portugal Telecom foi quem ganhou o concurso do TDT, por isto e por aquilo. Então a Portugal Telecom foi a única entidade que respondeu. É preciso às vezes as pessoas porem isso em perspetiva. É que mais ninguém respondeu, mais ninguém disse eu vou fazer isso. E, portanto, hoje nós somos a entidade que presta esse serviço, mas olhando para o futuro nós não sabemos, de facto, se faz sentido continuar. Provavelmente não faz sentido continuar no mesmo modelo. Mas também verdade tem que ser dita, o senhor Secretário de Estado da Comunicação Social e do Audiovisual já encetou contactos em que nós também já fomos envolvidos para um estudo sobre aquilo que será o futuro do TDT. Acho muito bem, acho que essa é atitude certa, a esta distância criar esse mecanismo, estudar as soluções alternativas e nós, e certamente os outros operadores também, queremos fazer parte da solução e não parte de um potencial problema. Estamos a discutir ou iremos discutir, quando formos chamados nesse fórum para definir o futuro do TDT.

Por falar no futuro do TDT, que me lembre, já se discutiu, várias vezes, o futuro do TDT. Desde 2000, 2001. Estamos em 2021. Há 20 anos que se discute. Provavelmente é preciso que haja, desta vez, mesmo uma visão estratégica.
Sim. Eu penso que, com tudo o que tem estado ao redor do TDT, mas também, acima de tudo, com o crescimento... Hoje Portugal é preciso percebermos, Portugal tem mais de 90% dos agregados familiares servidos com uma solução pay tv. Ao contrário daquilo que o regulador tem dito, dos preços, os preços em Portugal não são preços elevados e não têm aumentado. É mentira. É falso e se quisermos podemos falar um bocadinho sobre isso. Agora a realidade dos factos é que hoje Portugal está bem servido. Existe uma franja da população que não tem ainda serviço de pay tv, televisão paga. Por vários motivos, desde socioeconómicos até de cobertura. Na sequência até da questão que falávamos há pouco, eu continuo a dizer, há mais de um ano que eu digo isto. Chegado aos níveis cobertura que temos, do 4G, com mais de 99%, da fibra ótica que chega a 85% das casas, da televisão paga que chega a 93% das famílias portuguesas, eu penso que está na altura de deixarmos cair questões ideológicas, e de nos sentarmos - entre o setor privado e o público - numa lógica de coinvestimento para garantir a universalidade do acesso às comunicações. Quando falamos de transição digital a transição digital em Portugal será sempre coxa, será sempre limitada, se não incluir todos os portugueses. Não podemos deixar portugueses para trás.

Mas pode estar em cima da mesa uma espécie de pacote social de telecomunicações, pacote social de acesso à televisão, um bocadinho como a tarifa social para a energia? Haver um pacote social com um preço reduzido para esse efeito?
Aí o que nós sabemos é o que tem sido dito na comunicação social, que nós estamos envolvidos. Eu só acho é que nós não podemos ser esquizofrénicos. Este regulador com o clássico do governo acabou com o serviço universal de comunicações fixas, acabou com o serviço universal postos públicos das cabines, porque dizia que os serviços universais não fazem sentido. Este mesmo regulador e este mesmo governo agora querem retomar uma lógica de serviço universal? Teremos de pensar se é esse o caminho que faz sentido ou não. Desde que o Estado não fuja às suas responsabilidades. O estado social é uma responsabilidade do Estado e preocupa-me quando oiço falar de rendas sociais e na mesma frase em que se fala de tarifa sociais se dizem pagas pelos operadores. Os operadores pagam os seus impostos, criam emprego. Não são os operadores que têm de pagar o Estado social. O Estado social é uma responsabilidade do Estado e aí o Estado não pode fugir às suas responsabilidades. O que nós estamos a dizer é que é possível fazê-lo. Nós fizemo-lo. Os três operadores de telecomunicações móveis, a EDP e o governo deram o exemplo disso há três anos quando levaram rede móvel ao Parque Nacional Peneda Gerês por iniciativa do Ministério do Ambiente. O Ministério do Ambiente lançou-nos esse repto e todas estas entidades em conjunto mostraram que é possível. E funciona. Está lá hoje. E hoje temos mais de 70% do Parque coberto com rede móvel dos três operadores. É por isso que eu tenho vindo a apelar, aqui e agora e em momentos em que se fala de PRR, de injeções ou bazucas financeiras, porque é que não se olha para o tema da conectividade de uma perspetiva mais abrangente, de levar a conectividade a todos os portugueses, chegar a esse 5% da população que não tem rede móvel ou aos 10%, ou 7% que ainda usam TDT, ao invés de olharmos, e voltando às declarações do senhor Ministro das Infraestruturas, que diz que estava muito satisfeito porque iria canalizar o dinheiro do leilão para fibra ótica, eu chamo a atenção que o senhor Ministro da Economia e o senhor Secretário de Estado da Transição Digital, aquando do lançamento do concurso disseram que o dinheiro do concurso 5G seria para um fundo de promoção do empreendedorismo e do desenvolvimento da inovação tecnológica nas telecomunicações. Não foi para a fibra ótica. Aliás, o senhor ministro das Infraestruturas falou em que a receita do leilão era para levar fibra ótica às escolas, o projeto de levar fibra ótica às escolas foi um concurso público ganho pela Altice Portugal que estamos a implementar. Portanto não é com esse dinheiro que se vai levar a fibra ótica às escolas. É com o concurso público em que o Estado adjudicou à Altice Portugal a cobertura das escolas em fibra ótica. Portanto eu penso que é o momento de deixar de parte essas visões ideológicas, esses limites, essas barreiras ideológicas e olharmos para o coinvestimento público e privado, para promover acima de tudo o quê? A criação de valor, alavancar a competitividade do país, promover a competitividade e a coesão do território. E agora que estamos em fase de Censos 2021 olharmos para os Censos 2011, em que meio milhão de portugueses eram analfabetos. Meio milhão de portugueses, uma boa parte deles em idade ativa eram ainda analfabetos há 10 anos. Não vamos querer que na próxima década estejamos a falar de analfabetos digitais, de pessoas que não têm conhecimento ou utilização da tecnologia porque lhes foi vedado o acesso à conectividade. É isso que eu penso que, enquanto país, e eu enquanto cidadão, é isso me preocupa, é isso que move, e eu penso que quem dirige o país tem de ter esta visão, de criar efetivamente as condições, para uma conectividade universal, para que todos os portugueses sejam iguais, como, aliás, a Constituição prevê.

Falou no PRR e, já agora, falava nesse aspeto, também. Os empresários e as confederações têm-se queixado muitíssimo de que o investimento será todo canalizado, ou quase todo, para investimento público e não para o setor privado. No meio disto tudo há um papel grande aqui, parece-me, das Telecom, no que toca às metas da digitalização do PRR. Como é que analisa esta dicotomia e o que é que espera do PRR?
Antes de mais, o PRR é, de facto, uma oportunidade única. Estamos perante um problema único do mundo, a pandemia. O PRR para a Europa é uma oportunidade única. Eu já o disse publicamente, lamento que haja essa lógica de mais de dois terços do PRR ser canalizado para a esfera pública e não para a espera privada. São as empresas que criam valor. São as empresas que criam emprego, são as empresas que pagam impostos e, com esses impostos, também canalizam para a riqueza do país. E, portanto, eu fico algo preocupado quando olho para o PRR e vejo essas métricas. Agora, o PRR não é um plano. Nós nas empresas sabemos o que é que é um plano. Um plano tem de ter objetivos concretos, ações concretas, timmings. O PRR é apenas um conjunto de linhas orientadoras. Eu espero que dessas linhas orientadoras agora surjam verdadeiros planos, com objetivos, com formas de medir esses objetivos, com times e com verbas. E que esses sejam canalizados para áreas que são efetivamente relevantes. Nós temos vindo a fazer aqui na Altice Portugal um ciclo de conversas, com algumas personalidades em áreas que nós achamos que são estruturantes. Fizemos uma com o ex-ministro da Saúde, Dr Adalberto Campos Ferreira, fizemos também com uma ex-ministra da Educação, Margarida Mano, fizemos um conjunto de discussões. e vamos fazer na área da cultura e da tecnologia, em que temos estado exatamente a falar do papel fundamental das tecnologias na promoção da digitalização destes setores. Eu há três anos levei ao Ministério da Saúde um plano para um hospital sem papel. Nós temos trabalhado na digitalização da educação, através da introdução de tablets, da digitalização dos manuais escolares, da criação de plataformas como o FITescola, para medir o desempenho escolar do ponto de vista do desporto escolar dos jovens. Temos vindo a trabalhar na digitalização destes dois setores, para dar apenas dois exemplos: educação e saúde. É o exemplo daquilo que temos de fazer. O PRR tem de estar focado naquilo que é criação de condições para termos uma economia mais competitiva a nível internacional. Para atrairmos investimento. E, para isso é importante que as empresas não sejam esquecidas, mas é importante sem dúvida a componente das competências digitais, da formação. Mas eu... choca-me um bocadinho quando, às vezes, dizemos aquilo que é Escola Digital é darmos computadores às crianças. Escola Digital não é dar computadores às crianças. Dar computadores às crianças é criar condições para que todos possam ter acesso a um conjunto de conteúdos interativos e digitais. Escola Digital é muito mais do que isto. Escola Digital é envolver pais, envolver alunos, envolver professores, auxiliares de ação educativa em plataformas colaborativas. Que envolvam as pessoas, que mudem os conceitos. Porque é que nós continuamos a não dar visibilidade, desde muito tenra idade, desde o primeiro ciclo do ensino básico, à utilização de tecnologias para promover a competitividade, para promover o falar inglês, para promover aquilo que é o trabalhar em rede, a criação de redes informais. Porque é que nós não temos algum pejo em trabalhar a comunicação dos nossos jovens? Quando sabemos que nível global o medo de falar em público é um dos grandes medos da humanidade? E, portanto, são este tipo de alterações do ponto de vista pedagógico, do ponto de vista dos conteúdos, do ponto de vista da forma como transmitimos o conhecimento, da valorização do ser humano, da criança, pela sua entidade. O brincar, o conviver também fazem parte daquilo que é construção e o ensino. E isso pode ser promovido através, por exemplo, de estratégicas de gamificação a nível da educação, percorrendo a tecnologia. É aqui que eu acho que o PRR tem que estar focado, na criação efetiva de condições para a tecnologia mude os processos educativos, os processos da saúde, da cultura, da indústria, de um conjunto de áreas e através desta transformação possamos estar cada vez mais próximos daquilo que são os padrões elevados a nível europeu. Para isso precisamos de fibra ótica, precisamos de 5G. E volto a dizer, até à entrada deste regulador Portugal sempre esteve na vanguarda. Os operadores são os mesmos, os cidadãos são os mesmos, a esmagadora maioria do tecido empresariado é o mesmo. O que é que mudou? Mudou apenas o regulador. Tirem as devidas elações. Mude-se o que tem de se mudar e vamos olhar para o futuro.

E do que conhece do PRR teme um falhanço daquilo que são os objetivos na área da digitalização?
Ainda é cedo. Ainda é cedo. Eu não temo porque acho que Portugal também tem dado exemplos claros de superação, quando chega a altura de momentos críticos e momentos de decisão. E, portanto, eu acredito que vamos com certeza conseguir construir um verdadeiro plano a partir desta linha orientadora que é o PRR hoje. Vamos construir planos, temos um tecido empresarial e de empreendedores que certamente vai dar seguimento a algumas dessas iniciativas. A Altice Portugal está a estudar o PRR, apesar de sermos uma grande empresa, e também vamos dar os nossos contributos e também vamos apelar ao nosso envolvimento em muitos desses projetos, para podermos fazer crescer o país, crescer a nossa economia, e crescer a nossa sociedade. Portanto eu não estou cético relativamente à execução, estou um bocadinho cético relativamente ao balanço entre a esfera pública e a esfera privada. Mas acredito que com bom senso chegaremos a um ponto de equilíbrio.

Estava a falar em crescimento. Pergunto-lhe quando é que acha...a retoma económica em Portugal. Eu sei que não tem bola de cristal...
É difícil. Nós não temos, de facto, uma bola de cristal. Ninguém tem. Obviamente que nós estamos um bocadinho preocupados, porque aquilo que se passa com o tecido empresarial português hoje é preocupante relativamente ao futuro. Eu penso que as pessoas têm associado muito o tema. Fala-se de crise e associam crise à pandemia. Infelizmente, na nossa visão, são dois tempos completamente distintos e sequenciais. À medida que a pandemia irá, e vai certamente, com certeza abrandar, a introdução das vacinas, a própria introdução no nosso dia-a-dia de práticas, eu diria de proteção da saúde, proteção individual e da comunidade, a criação da própria imunidade de grupo, tudo isto, eu acredito que, com o passar de alguns meses, nós vamos chegar a uma situação que de regresso aquilo que eram os nossos padrões habituais. Eu não gosto do termo da normalidade porque não há normalidade. Há os nossos padrões, aquilo que nós na sociedade portuguesa entendemos que é nossa forma de ser e de estar. Portanto eu acredito que nós lá vamos chegar. Mas a medida que nos aproximamos dessa data vêm, de certeza, ao de cimo, grande parte dos impactos económicos desta crise, destes últimos 12 / 18 meses. Eu estou, com alguma preocupação a olhar para o final de 2021 e para o início de 2022, porque há setores críticos para a nossa economia, o setor do turismo, o setor da hotelaria, mesmo outros setores, como da própria... algumas áreas da Indústria, estamos muito preocupados. E estamos preocupados não só do ponto vista conjuntural, de olhar para ver como é que vai ser o pós-pandemia, com subida da taxa de desemprego. com o ajuste que a economia e as empresas terão de fazer face a este momento, mas também olhando para o futuro numa lógica de haver uma adaptação da economia, com alguns padrões, eu diria, mais abaixo do que aquilo que nós gostaríamos. Nós hoje vemos isso já através do quê? Através daquilo que são as nossas relações empresariais. Alguns dos nossos clientes em alguns setores hoje já não existem. Quando nós os contactamos eles já não estão lá. Já não existem. Outros pedem... as moratórias que pedem à banca também nos pedem a nós, manifestando uma total incapacidade em cumprir as suas obrigações. Isto é altamente preocupante no que toca ao futuro. Portanto se eu estou otimista relativamente ao futuro do país e o futuro da nossa operação da Altice Portugal? Esse otimismo tem de ser balanceado com uma preocupação do ponto de vista macroeconómico daquilo que serão alguns indicadores, como a retoma do consumo privado, aquilo que é a taxa de desemprego, a própria inflação que temos de estar muito atentos, aquilo que vai acontecer nos próximos meses, anos sobre a inflação. E, depois, algo que a todos, acho, nos deve preocupar e que estes episódios da vacinação não abrem de facto, umas perspetivas extraordinariamente positivas, que é a postura da Europa, da União Europeia, relativamente a como debelar problemas como estes. Continuamos a ser uma Europa burocrática, uma Europa demasiado administrativa, demasiado regulada, uma Europa que não responde em tempo, muitas vezes, à necessidade de urgência que este tipo de problemáticas impõe. Eu acredito que estamos também a aprender, mas temos que olhar para outros quadrantes do mundo, ver a velocidade com que responde e temos que garantir que a Europa age a uma voz só, com um bloco, para garantir uma resposta não só eficaz, mas uma resposta que continue a ser em bloco e não olhemos para mais Brexits no futuro próximo. E, portanto, esta é preocupação também que nós temos e que olhamos, até porque é sabido a Altice tem operações em 8 países: Estados Unidos, França, Israel, República Dominicana e, portanto, estamos atentos aquilo que se passa no mundo.

Uma última pergunta, em jeito de curiosidade, até porque tem a ver com isto que acabámos de falar, a crise e a vacinação estar atrasada. Quer dizer que vamos continuar em teletrabalho. E o governo decretou o teletrabalho obrigatório até ao final do ano. Isto exige, sempre, uma infraestrutura que aguente, não é? E vimos esse teste ao longo do último ano. O governo ouve os operadores antes de decidir uma medida como esta? De obrigatoriedade de teletrabalho? Os operadores estão preparados?
Eu tenho de recorrer daquilo que aconteceu. E a resposta aí é não. Não ouviu. Essa alteração do paradigma foi definida pelo governo, por dentro das suas competências, obviamente, mas não, não fomos auscultados. Eu sou um otimista e, portanto, gosto de olhar para isso de uma perspetiva positiva. Eu olho de uma perspetiva positiva porque quero acreditar que o governo tem tamanha confiança nos operadores de telecomunicações que estão em Portugal, e em particular na Altice Portugal, enquanto líder de mercado, que tem a certeza absoluta de que, ao decretar uma medida dessas, as condições do ponto de vista de conectividade e de serviço estão tal forma assegurados que não é um problema. Aliás, diga-se em abono da verdade, o sucesso dos dois grandes períodos de confinamento, verificados em Portugal foi quase total, e foi quase total porque fomos dos poucos países na Europa em que não houve apagões, problemas graves de conectividade, etc. Portugal foi um país em que o ano passado, em março, decidiu-se mandar as pessoas todas para casa, de repente, ninguém sabia muito bem o que era isto do teletrabalho. Foi toda a gente para a gente para casa para trabalhar, para estudar, comunicar, consumir conteúdos, o telefone fixo, até o telefone fixo lá a casa cresceu a sua utilização em mais 50%. Os conteúdos consumiram-se em mais de 100%, em alguns casos. A internet cresceu 40 / 50%, com picos, às vezes, de dias consecutivos. E tudo funcionou. Tudo funcionou porque o país está dotado de um conjunto de infraestrutura que são únicas e, portanto, eu também disse na altura que toda esta pressão do 5G, que é fundamental, deve ser equilibrada também com o olharmos para aquilo que é o momento que vivemos e balancearmos onde é que estão as prioridades. Portanto este é também um tema que acho que é muito importante. Agora, o país está preparado? Sim, está. O país respondeu afirmativamente. Sim, respondeu. Os operadores, o caso da Altice Portugal, nós investimos dezenas de milhões de euros nos últimos anos, no último ano, única e exclusivamente para garantir a resiliência e segurança das redes. Também a segurança que é um tema muito importante. A realidade é que, ao contrário daquilo que se pensa, nós não tivemos mais receita por causa disso. Porque os serviços que todos nós consumimos em nossa casa são serviços de preço fixo. Eu consuma 10 Gigabytes, 1 Gigabyte ou 1.000 Gigabytes pago mesmo. Portanto a realidade é que nós tivemos que reforçar as nossas redes, fazer esses investimentos privados, uma vez mais, sem qualquer apoio por parte do Estado - nem sequer o reclamámos, mas também sem sermos ouvidos. Essa foi realidade dos factos. Portanto eu acredito que essas decisões são decisões que vão, obviamente, impactar também a nossa economia. Vão nos impactar a nós, nós hoje, a Altice Portugal tem noventa e muitos por cento da sua população de escritório, digamos assim, a trabalhar de casa. Os nossos call centers estão a atender telefones a partir de casa. Com exceção dos nossos técnicos e das nossas lojas e das nossas forças comerciais - uma parte delas que tem de estar de terreno - tudo o resto está a trabalhar de casa. Isto foi, de facto, eu diria, um movimento único e fantástico. Nós numa semana tivemos de mandar quase 10 mil pessoas para trabalhar de casa. Criar as condições, desde computadores, conectividade, ferramentas de software, tudo isto. E o país respondeu afirmativamente e acho que é um sinal, um voto de confiança do país, e que o país pode ter nos operadores telecomunicações. Quando eu há pouco dizia sobre os nossos resultados, que estamos satisfeitos, conseguimos, atingimos os nossos objetivos, levámos fibra ótica, continuamos a crescer. Isto é, de facto, também um sentimento de missão cumprida. E é por isso que, respondendo à questão ainda há bocadinho da Alexandra, que eu tenho de lamentar declarações como aquelas que o senhor Ministro das Infraestruturas fez porque mostram, de facto, uma falta de reconhecimento. Eu, sobre o tema de termos sido ou não ouvidos, terminava só dizendo isto. Eu ouvi várias pessoas, várias pessoas, durante o final do primeiro período de confinamento. Pessoas, estou a falar governantes, pessoas de responsabilidade a nível do governo, a nível do país a elogiarem os profissionais de saúde - que nós também elogiámos. E mais do que elogiar, nós não demos só para palmadinhas nas costas. Nós oferecemos tablets, oferecemos telemóveis a centros hospitalares para permitir a pessoas nos seus últimos dias de vida contactar com as suas famílias. Ouvi elogiar as forças de segurança. Nós também apoiámos as forças de segurança com a GNR entregámos tablets para que a GNR possa chegar a idosos Isolados e levar a família, os familiares que estão distantes através de uma telechamada a esses idosos. Ouvi elogiar as caixas de supermercado, os técnicos de limpeza municipal nas Câmaras Municipais, ouvi elogiar tanta gente. E não ouvi uma palavra, até hoje, de nenhum governante a elogiar aquilo que é efetivamente o trabalho das telecomunicações: as centenas de milhares de profissionais da Altice Portugal, mas diga-se, dos outros operadores também, que garantiram neste último ano e pouco garantiram que nós, em nossas casas trabalhamos, estudamos, vemos televisão, comunicamos com os nossos amigos, evitamos as reuniões familiares, porque fazemos vídeo chamadas. E não ouvi uma palavra de conforto, de alento, de reconhecimento perante aquilo que nós vivemos também e o que estes profissionais fizeram. Eu, na Altice Portugal pedi, a um conjunto de amigos, amigos da Altice, personalidades ligadas à arte, à cultura, à música, ao desporto que dessem a sua opinião. E tivemos dezenas deles. Todos os profissionais da Altice sabem porque receberam esse vídeo. Um vídeo com testemunhos, dessas pessoas, que na primeira palavra, na primeira voz disseram obrigado aos colaboradores da Altice Portugal, porque perceberam a importância do trabalho que nós fizemos. É só de lamentar que, de facto, não haja essa visão por parte de outras pessoas e que depois, em locais que são a casa da democracia se diga que não estamos preocupados com os operadores, que isso é um problema dos operadores. Isto é uma manifesta falta de preocupação, eu diria mesmo em alguns casos, uma falta de respeito. E isso preocupa-nos. Não nos desmoraliza. Continuamos o nosso trabalho e já mostrámos, várias vezes, que somos capazes e que vamos continuar. Estamos cá, estivemos cá, e vamos continuar cá. Porque continuamos a acreditar em Portugal e continuamos a apostar no nosso país. Mas gostaríamos, por uma vez, ser reconhecido o trabalho que temos vindo a fazer.

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