A história secreta de como Bill Gates se tornou rico

Bill Gates pode ter sido um 'ditador' com os seus funcionários, mas sempre se preocupou em pagar os salários, mesmo que não houvesse trabalho.

Aos 19 anos, Bill Gates era um jovem sem rumo definido, depois de deixar para trás os estudos em Harvard e o seu trabalho numa grande empresa hidroelétrica canadiana. Nos anos seguintes, entrou numa espiral de dependência do trabalho, álcool e drogas. Perante tal cenário, ninguém diria que mais tarde fundaria uma das empresas tecnológicas mais importantes da história.

Mas Bill Gates era inteligente, tinha ao seu lado um grande amigo e matemático, e uma facilidade enorme em impor dias infernais aos seus empregados. Ironicamente, a sua maior obsessão nos primeiros anos da Microsoft era ter milhões suficientes no banco, não para fundar uma empresa aeroespacial ou para caprichos, como podem fazer os líderes de gigantes como a Amazon ou a Tesla. O objetivo de Bill Gates era conseguir pagar sempre aos seus empregados no caso de um dia perder um contrato importante. "Eu queria ter dinheiro suficiente no banco, para que, se ninguém me pagasse durante um ano, eu conseguisse assumir os salários", conta, citado pelo El Mundo.

A Netflix estreou este mês, a 20 de setembro, um documentário sobre a vida do pai do Windows e da Microsoft. A série é composta por três episódios, onde é possível conhecer o percurso pessoal e profissional de Bill Gates, hoje reconhecido não só pela criação da Microsoft, mas também pelas suas ações filantrópicas.

Um homem frio e calculista

É no documentário que se descobre, por exemplo, que Bill Gates, por melhor que fosse individualmente, é um homem frio e calculista, que trabalha melhor sozinho, embora precise de aliados chave para avançar e não ter problemas em reconhecer isso.

Este retrato afasta-o um pouco de outras figuras do mundo tecnológico, como Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, ou Steve Jobs, o eterno rival de Gates, com quem se reconciliou nos últimos anos de vida do criador da Apple.

Mas Bill Gates podia ser um chefe bastante exigente. "Se havia algo que demorava mais de uma semana a estar terminado eu dizia sempre: "Eu posso fazer isso num dia. Porque é que não trabalhas tanto como eu?'".

Um amigo fundamental

Esta postura podia custar-lhe muito pessoalmente, mas foi assim que conseguir colocar a Microsoft acima dos seus concorrentes. No meio desta encruzilhada está um nome: Paul Allen.

O co-fundador da Microsoft foi um aliado fundamental de Bill Gates nos seus primeiros anos. Conheceram-se na escola, onde se tornaram amigos e, apesar da diferença de idades, partilhavam a mesma paixão: a matemática.

A perda do seu amigo de infância, Kent Evans, aproximou-o muito de Paul Allen e foi com ele que Bill Gates alcançou o seu primeiro sucesso no mundo dos computadores. O diretor da escola pediu que os dois amigos fizessem os horários dos mais de 400 alunos para o ano seguinte. A dupla aceitou o desafio e construiu uma técnica tão eficaz que acabou por ser copiada noutras escolas. O que costumava necessitar de um grupo de pessoas durante todo o verão, os dois amigos fizeram num computador antigo durante duas semanas.

Depois desta prova, vieram mais: regular parte das tarefas do departamento de trânsito de Seattle ou auxiliar nas tarefas de automação de uma empresa hidroelétrica de Vancouver.

O início de algo grande e difícil

A certa altura, a empresa de computadores Altair lançou um produto fundamental na história da Microsoft: o Altair 8800, muito poderoso na época. Bill Gates e Paul Allen foram responsáveis pelo desenvolvimento da sua linguagem de programação, o Altair Basic.

"Tínhamos a sensação de que a revolução havia começado sem nós", diz Bill Gates. Então começaram a trabalhar, dia e noite, e conseguiram adaptar a linguagem de programação Basic ao Altair 8800 e despejar tudo numa fita perfurada para mostrar a seus criadores a sua utilidade.

No entanto, perceberam que tinham um problema. Era necessário um programa de iniciação para lançar a linguagem por eles criada e a máquina entender. Paul Allen escreveu o código necessário para este software no pouco tempo que tinha, sem o conseguir rever. Bastava uma pequena falha para perderem a oportunidade.

Mas tudo funcionou à primeira. E assim nasceu a Microsoft. Foi a primeira vez que alguém instalou um programa comercial num computador pessoal.

Paul Allen e Bill Gates deixaram logo os seus estudos e mudaram-se para Albuquerque. "Mal dormimos, comemos comida de plástico e trabalhámos horas e horas".

O ritmo do trabalho da Microsoft na época era frenético. "Adorava trabalhar e esse trabalho era a minha vida", confessa Bill Gates. Mas, reconhece o seu vício no trabalho e como pode ser injusto para os funcionários que não trabalham como ele. "Não acreditava nos fins de semana, não acreditava em férias. Para muitas pessoas, não era um bom lugar para trabalhar. Éramos frenéticos e muito exigentes".

Frases como "a melhor coisa da Microsoft é que pode trabalhar em período parcial. Você decide as doze horas do dia em que trabalha no escritório" ilustram no documentário o clima dos primeiros anos da Microsoft. E Bill Gates reconhece a sua perversão com muita calma. "Eu conhecia todas as matrículas [dos carros] dos meus funcionários, para saber quem estava aqui e quem não estava."

A sua obsessão pelo trabalho e pelos funcionários chegou a tal ponto que ficou famoso por uma frase que ele várias vezes proferiu em reuniões de trabalho: "Esta é a ideia mais estúpida que já ouvi na minha vida".

Este comportamento incomodou Paul Allen, não porque tenha sofrido abusos, mas porque os seus objetivos na vida haviam mudado. Em 1981, enquanto Bill Gates terminava o código de um pedido feito pela IBM, Paul Allen foi assistir ao lançamento do primeiro transbordador espacial da NASA. Bill Gates não conseguiu entregar o pedido no prazo e Paul Allen esteve ausente sem o notificar ("eu teria dito não", admite Bill Gates).

Esse programa de código foi o MS-DOS, que lançou a Microsoft para a glória e a tornou numa empresa de software fundamental no mundo dos computadores, mesmo antes de lançar o Windows, o sistema operacional ainda hoje usado pela grande maioria dos computadores do mundo.

Paul Allen renunciou ao cargo na Microsoft em 1983, após ser diagnosticado com a doença de Hodgkin, que superou após meses de radioterapia e transplante de medula óssea. Apesar das constantes tentativas de abordagem, Bill Gates e Paul Allen nunca recuperaram um bom relacionamento e este acusou-o na sua biografia de tentar eliminá-lo do negócio com a ajuda de Steve Ballmer.

Mãe era a figura chave

Apesar do seu trabalho filantrópico atual, quando era mais novo, Bill Gates era um homem frio e calculista. A sua família não o nega. A própria mulher, Melinda, diz que não gostaria de "viver dentro do cérebro" do marido, porque este é um homem "complexo". "Ele retém 90% do que lê e sabe como sintetizá-lo rapidamente, como se fosse um processador de um computador", diz uma das irmãs.

O que não significa que não tenha um lado humano. Bill Gates reconhece que a mãe era a figura chave da sua vida. "A nossa mãe queria que tivéssemos sucesso. Queria que a nossa família fosse uma força a ter em conta".

"A autoridade dos meus pais era arbitrária. E eu não queria seguir as regras", admite, confessando que ainda fez a mãe passar alguns maus bocados. No entanto, os seus pais foram uma influência fundamental para que se tornasse menos individualista.

O dia em que perdeu a mãe foi o pior da sua vida. Com um cancro, faleceu alguns meses após o seu casamento com Melinda Gates.

Atualmente, na luta contra a pólio

O resto da história da Microsoft é bem conhecido: Windows, Office, Encarta e um domínio quase total do mundo dos computadores pessoais. Rivais como Apple ou IBM nada eram ao lado da companhia de Bill Gates até os anos 2000. Gates deixaria a sua empresa em 2008, mas não exatamente na melhor situação.

Na altura, a Apple não só ressurgiu como fabricante de computadores e software, como estava prestes a tornar-se líder mundial com a ajuda do iPhone. A Google já era uma força temível. E os novos players como o Facebook ou a Amazon começariam a prejudicar uma empresa com uma grande crise de identidade.

A Microsoft cometeria um de seus maiores erros como empresa com o lançamento do seu próprio sistema operativo móvel, o Windows Phone, que nunca se tornou num grande rival para a Google ou a Apple; e encadeou isso com uma versão mal conseguida do Windows, que gerou muitas dúvidas sobre o seu futuro. Como uma empresa de computadores sobreviveria no mundo móvel?

Quase 12 anos depois, a Microsoft está num bom momento, porque redirecionou os seus negócios muito bem para os serviços digitais e para a nuvem. Por sua vez, aprendeu a colaborar com outros agentes e concorrentes para melhorar esses serviços, sejam eles a Apple, Amazon ou Google.

Mas enquanto a Microsoft prospera, Bill Gates dedicou todos os seus esforços à luta contra a poliomielite, quase erradicando-a com ajuda internacional e um investimento significativo da sua fortuna pessoal. Jeff Bezos pode ser o homem mais rico do mundo, mas Bill Gates doou mais de 34,6 mil milhões da sua fortuna para instituições de solidariedade, algo com o qual Bezos não pode competir neste momento.

Apesar de ter um passado questionável e no qual foi capaz de prejudicar muitas pessoas e colegas ao longo do caminho, Bill Gates parece ter encontrado uma maneira de devolver algo ao mundo.

Artigo originalmente publicado em Dinheiro Vivo

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