Desvalorizar o euro é difícil e pode não resolver os problemas do País

Publicado a
Atualizado a

Os economistas portugueses estão divididos quanto às vantagens para Portugal de uma desvalorização do euro, como defende Cavaco Silva e o primeiro-ministro apoia. Numa coisa, porém, todos concordam, seria difícil fazer e é muito pouco provável que aconteça.O Presidente da República defendeu, no sábado, um euro "mais fraco para que os países da Zona Euro fossem mais competitivos". No dia seguinte Passos Coelho secundou-o, afirmando que "uma moeda única menos valorizada [face ao dólar] poderia trazer, do ponto de vista económico, mais exportações e competitividade para toda a Europa".Para o economista João César das Neves, "são opiniões muito respeitáveis, mas é bastante mais complicado do que parece e não está no controlo de nenhuma entidade fazê-lo", uma vez que é o mercado que fixa as taxas de câmbio. Por isso, tecnicamente, nem se pode falar em desvalorização da moeda, mas na sua "depreciação", como explicou ao JN/Dinheiro Vivo."Ainda que o BCE quisesse, o que é duvidoso, não poderia fazer uma desvalorização da moeda, poderia era tentar influenciar o mercado, intervindo nele", e pode nem sempre dar os resultados desejados, acrescentou. As formas usuais são a emissão de moeda e a manutenção de juros baixos. "Mas isso o BCE já está a fazer há tempo", lembrou César das Neves, frisando que "a moeda mundial é o dólar e é este que está baixo e não o euro que está alto".Salientou porém que, apesar de emitirem moeda e manterem os juros baixos, "não são as autoridades americanas que estão a consegui-lo [uma baixa valorização do dólar], mas o grande défice da economia dos EUA". E recordou que a moeda americana estava sobrevalorizada "há anos", existindo agora um ajustamento, enquanto "na Zona Euro o que há não é um problema de défice e não é preciso descer o euro". Considera, aliás, que "nem é verdade que Portugal teria a ganhar, porque a maioria das nossas exportações são em euros". Já o presidente do ISEG, João Duque, considera que seria "interessante para a economia portuguesa", porque ganharia competitividade, mas concorda que "é complicado" e, mesmo que o BCE quisesse, "os alemães não vão deixar". Defende, porém, que mesmo para a Alemanha e os países do Norte da Europa, "a desvalorização do euro não tem à partida que ser negativa, porque torna o Sul menos dependente do financiamento daqueles países". Mas o ex-presidente da AICEP, Basílio Horta, acha que o que se ganharia aumentando as exportações poderia não compensar o que se perdia pagando um preço mais alto pelas importações. E lembrou o peso destas últimas na balança de pagamentos portuguesa, nomeadamente na área da energia, combustíveis e produtos alimentares. "É a maneira mais fácil, mas não resolve", afirmou Basílio Horta, lembrando que "há outras maneiras de melhorar a competitividade e as exportações do País", como investir em ciência e inovação, mais qualificação e maior valor acrescentado. Como se desvaloriza o euro?Há duas formas de forçar que o valor da moeda baixe. Uma é proceder a emissões para aumentar a quantidade de moeda em circulação no mercado e provocar um desequilíbrio da oferta face à procura. Outra é baixar os juros, tornando a moeda igualmente menos atractiva para os investidores.Quais as vantagens?A economia ganha competitividade e o volume de exportações aumenta, principalmente para os mercados em que são pagas em dólar. Isto porque quem compra vai pagar menos do que antes pelos mesmos produtos e a tendência é para que encomende mais.E as desvantagens?A primeira grande desvantagem é que, por outro lado, as importações em dólares se tornariam mais caras. Desta forma, o preço da energia, combustíveis e alguns produtos alimentares em que Portugal não é autosuficiente subiria. Consequentemente, haveria também um aumento da inflação e os trabalhadores veriam os seus salários perder poder de compra.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt