Treinadora (e mulher...) conta os segredos da medalha de prata de João Vieira

Ex-marchadora Vera Santos diz que "é fácil conciliar" a relação pessoal com o treino e revela que o vice-campeão mundial de 50 km treinou à meia-noite e numa câmara na Faculdade de Coimbra onde eram replicados o calor e a humidade de Doha

Recém-sagrado vice-campeão mundial de 50 km marcha, logo após a prova João Vieira dedicou palavras elogiosas à sua treinadora, Vera Santos, ex-marchadora que também é... mulher dele. "Muita gente não sabe o que tenho sofrido esta época, mas com o apoio da minha treinadora e o meu psicólogo temos levado isto avante e os resultados saem", referiu à RTP.

Ao DN, Vera Santos diz que "é fácil conciliar" a relação pessoal com o treino e que têm conseguido lidar com a situação. Embora por vezes seja necessário "ultrapassar situações", é fácil despir a pele de treinadora em casa e a pele de mulher no treino. "Conhecemo-nos em miúdos", contou a ex-marchadora, 37 anos, que passou a ser treinadora do marido há três anos.

"Primeiro começou ele a ser meu treinador, mas em 2016 tive vários problemas físicos e comecei a dedicar-me mais ao treino dele, em termos de aspetos técnicos, para ele melhorar cada vez mais. Antigamente ele era o seu próprio treinador e depois passei a ser eu a treinadora dele", revelou a técnica, natural de Santarém, perto de Rio Maior, onde João Vieira, natural de Portimão, está radicado desde os dois anos.

Condições de Doha replicadas

O ponto alto desta ligação entre a treinadora e o atleta surgiu precisamente na madrugada deste domingo, quando João Vieira conquistou a medalha de prata nos Mundiais de Doha e se tornou o medalhado mais velho de sempre em mundiais de atletismo. "É o resultado do trabalho de muitos anos e o resultado do trabalho desta época. Com a competição à noite, tivemos que fazer muitas alterações e não sabíamos se as coisas iam correr bem ou não, mas tivemos que tentar ao máximo nestas condições", começou por explicar Vera Santos.

"Tentámos fazer a melhor adaptação possível a condições semelhantes a esta. Mais do que o calor e humidade, o grande problema é competir à noite. A essa hora o nosso grupo já está em modo de descanso e normalmente os treinos são de manhã. Agora tivemos de alterar tudo para treinar à meia-noite, para o corpo dele conseguir reagir. Em termos de calor, ele fez vários estágios em altitude, mas nunca se conseguia aproximar das condições. Então treinou na Faculdade de Coimbra com o fisiologista Amândio e o seu auxiliar José, numa câmara em que estava replicado o calor e a humidade ao mesmo tempo", acrescentou a treinadora e mulher, que elogia o espírito do marido: "É como ele diz: acorda todos os dias como se tivesse 20 anos, com prazer e vontade de treinar todos os dias."

Próximos Jogos e Mundiais no horizonte

Vera Santos, que participou nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) na prova de 20 km marcha, diz que ambos partiram para o Qatar sem saber que João Vieira podia fazer história como o medalhado mais velho do mundo. "Quando partimos para a prova, não pensámos numa medalha. À partida, todos são candidatos à medalha, mas o objetivo principal era ele conseguir encontrar-se e fazer o melhor resultado possível. Nunca tínhamos pesquisado isso. No final é que nos deram essa informação [sobre a idade]", confessou, pouco antes de o marchador de 43 anos ter recebido a medalha de prata, este domingo, em Doha.

Apesar da idade, João Vieira aponta aos Jogos Olímpicos do próximo ano e possivelmente aos Mundiais de Eugene (Estados Unidos), em 2021. "Poderão ser os últimos com a prova de 50 km marcha. Se mudarem a distância, não sabemos o que poderemos fazer", frisou Vera Santos. A meta que não está no horizonte é a da retirada, garante a treinadora e mulher: "Enquanto ele não mostrar um momento de fraqueza, não se vai retirar."

Recebeu medalha das mãos de Bubka

João Vieira recebeu este domingo no estádio Khalifa, em Doha, a medalha de prata dos 50 km marcha dos Mundiais de atletismo, com a especial honra de lhe ter sido entregue por Sergei Bubka, nome maior da modalidade.

O ucraniano, que agora é o primeiro vice-presidente da IAAF, associação internacional das federações de atletismo, foi várias vezes recordista mundial do salto com vara e hexacampeão em Campeonatos do Mundo. "Bubka é uma figura do atletismo mundial, pelos feitos que fez. É uma pessoa que fica para a história do atletismo. Qualquer atleta gostaria de receber uma medalha das mãos dele", reconheceu João Vieira, já de medalha ao peito.

A recuperação, depois do esforço da última madrugada, não correu mal de todo: "Pelo que vi, o canadiano (medalha de bronze) anda um bocado a coxear, o japonês (vencedor) ainda vai. Eu já fiz flutuação hoje, mesmo estando um bocado massacrado." "Não dormi nada, fui à cama, para passar o tempo. Mas não consegui dormir, porque os músculos estão todos doridos. Só cheguei ao hotel às sete da manhã, tive um controlo antidoping, onde estive cerca de uma hora e meia", disse ainda o marchador, que conseguiu a 22.ª medalha de Portugal em Mundiais.

Marcelo felicita marchador

Entretanto, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, congratulou João Vieira pela medalha de prata. Numa mensagem publicada no site oficial da Presidência, o chefe de Estado lembrou que o marchador - que se tornou aos 43 anos o mais velho medalhado em Campeonatos do Mundo - "apresentou-se ao mais alto nível e conquistou uma medalha que além de um grande orgulho para Portugal é uma grande marca na sua carreira e no atletismo nacional".

Marcelo Rebelo de Sousa manifestou ainda a esperança de ver João Vieira cumprir "o objetivo da presença nos Jogos Olímpicos" de Tóquio, em 2020.

Paralelamente, também o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, se associou às mensagens de parabéns, recorrendo à rede social Twitter para assinalar o feito do atleta. "João Vieira é vice-campeão do mundo nos 50 km marcha. Aos 43 anos conquista em Doha o seu melhor resultado de sempre em Mundiais. Um orgulho para todos nós. Parabéns", escreveu o governante.

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