FC Porto entrou forte mas acabou goleado no adeus à Champions

O FC Porto dominou os primeiros 25 minutos e teve várias oportunidades. Mas na segunda parte não resistiu ao maior poderio dos ingleses e acabou a sofrer quatro golos.

Acabou a aventura do FC Porto na Liga dos Campeões. A resistência dos dragões durou 25 minutos (durante este período foram muitos superiores ao atual líder da liga inglesa), quando os reds marcaram o primeiro golo. A equipa de Sérgio Conceição ainda pareceu viva no segundo tempo, mas depois perdeu toda a organização e chama e acabou goleada por 1-4. Agora, nas meias-finais da prova, a equipa de Klopp vai defrontar o Barcelona e a outra meia-final será decidida entre o Tottenham e o sensacional Ajax.

A missão do FC Porto era quase impossível. A equipa de Sérgio Conceição precisava de marcar três golos e não sofrer nenhum, ou então vencer por uma margem de três golos de diferença. Só como curiosidade, a última vez que os reds tinham perdido por três golos foi na final da Liga dos Campeões da época passada, diante do Real Madrid, quando foram derrotados por 3-1. Mesmo assim um resultado que esta quarta-feira não chegava aos dragões para seguirem para as meias-finais.

Os dois treinadores mexeram nas equipas relativamente ao que era esperado. No FC Porto, Corona recuperou a tempo e foi titular, mas Soares ficou no banco, com Conceição a optar por colocar apenas Marega como avançado mais fixo, Corona numa posição mais móvel, e nas alas Otávio e Brahimi. Na equipa do Liverpool, Klopp desfez o temível tridente atacante, relegando Roberto Firmino para o banco e apostando em Origi. Mas manteve Salah e Sadio Mané.

O FC Porto entrou muito forte no jogo e Corona (boa exibição) deixou logo um aviso no primeiro minuto, com um remate cruzado e em jeito que passou perto da baliza do brasileiro Allison. A equipa de Sérgio Conceição saía rápido em transições e surpreendia os ingleses, chegando com muita facilidade à àrea do Liverpool. Herrera aos 10' criou mais um lance de perigo de cabeça e Marega, um perigo à solta, teve duas boas oportunidades no espaço de dois minutos. Uma verdadeira entrada de dragão!

O Liverpool estava encostado às cordas e mal conseguia sair do seu meio-campo, apesar das tentativas em lançar ataques pelo corredor direito para aproveitar a rapidez e a arte do egípcio Salah. Aos 25 minutos, numa altura em que o FC Porto já tinha feito 14 remates (quatro deles enquadrados à baliza), Herrera teve mais uma grande chance, mas quando ia preparar-se para chutar à baliza, permitiu o corte.

Logo a seguir, aos 26', o balde de água fria no Dragão. No único lance até então em que o Liverpool conseguiu criar uma oportunidade... marcou. Um bom trabalho de Salah, que isolou Mané e o guineense (igualou Solari como o jogador que marcou mais golos ao FC Porto em provas europeias, um total de quatro) sem marcação bateu Casillas. Um golo que só foi validado minutos depois pelo VAR, pois deu a sensação de o avançado do Liverpool estar em posição de fora de jogo.

Se a missão já era difícil, com o golo do Liverpool tornou-se praticamente impossível. Ao intervalo, as estatísticas mostravam o domínio dos dragões - 15 remates à baliza (quatro enquadrados) contra quatro (um enquadrado, que deu golo) e 58% de posse de bola. Mas o marcador era favorável aos ingleses.

FC Porto perde o norte

Para a segunda parte. Sérgio Conceição deixou o apagado Otávio nos balneários e lançou Soares no jogo, pssando o FC Porto a jogar com dois avançados fixos. E Klopp trocou Origi por Firmino, não mexendo no sistema de 4X3X3. Só para se ter uma ideia do domínio do FC Porto no primeiro tempo, o primeiro canto a favor do Liverpool só surgiu aos 48 minutos.

Apesar de mais equilibrado, a melhor oportunidade no início da segunda parte voltou a ser do FC Porto, num cabeceamento de Soares (entrou bem no jogo) ao lado aos 54', após assistência de Herrera. Mas tal como aconteceu na primeira parte, o Liverpool voltou a marcar. Numa altura em que o FC Porto tinha a equipa muito adiantada em campo, um contra-ataque dos reds foi letal. Arnold assistiu de forma brilhante Salah que, isolado, bateu Casillas sem dificuldades aos 65'.

A eliminatória estava definitivamente decidida, mas o FC Porto marcou logo a seguir o golo que tanto fez por merecer, com Militão (outra boa exibição, tanto a defender como a atacar) a cabecear forte para o fundo das redes após canto cobrado por Alex Telles.

Só que os dragões correram demasiados riscos na segunda parte, em busca de golos, e acabaram por pagar caro a ousadia, pois este Liverpool com espaços torna-se numa equipa muito poderosa devido à rapidez dos homens do ataque. O FC Porto perdeu organização e chama e os minutos finais foram de intenso domínio dos ingleses, que marcaram mais dois golos.

Aos 73', em mais um contra-ataque, Mané desperdiçou de forma incrível o terceiro golo. Mas Firmino não falhou aos 77', com um golo à ponta de lança, de cabeça, após cruzamento de Henderson, cumprindo-se mais uma vez o que tantas vezes se viu esta época, com golos dos três avançados do Liverpool. Até ao final, a melhor oportunidade do FC Porto foi de Soares, com um remate ao lado aos 82'. Mas ainda houve tempo para mais um golo do Liverpool, da autoria do central Van Dijk, aos 84', a consumar a goleada de uma equipa que foi muito mais eficaz e que jogou sem qualquer pressão.

Consumou-se assim o adeus do FC Porto à Liga dos Campeões nos quartos-de-final, num jogo onde os dragões mantiveram a tendência de nunca conseguirem virar uma eliminatória nas provas europeias após uma derrota por 2-0 sofrida fora na primeira mão. Já tinha sido assim em 1975/76 com o Hamburgo, em 1981/82 com o Standard de Liège, em 1985/86 com o Barcelona e em 2015/16 com o B. Dortmund. Esta quarta-feira a 'profecia' voltou a repetir-se.

O clube presidido por Pinto da Costa, contudo, deixa a competição milionária de bolsos cheios, pois a SAD encaixou um total de 78,44 milhões de euros (ainda faltam somar as receitas do market pool, correspondente aos direitos televisivos) entre prémios de presença e vitórias e empates somados durante a fase de grupos. Caso os dragões tivessem atingido as meias-finais da Champions, receberiam mais 12 milhões de euros. Estes 78,44 milhões que deram entrada nos cofres da SAD do FC Porto representam mais do que os três grandes juntos amealharam na edição da época passada da competição (68,5 milhões).

FICHA DO JOGO

Estádio do Dragão, no Porto.

FC Porto-Liverpool, 1-4.

Ao intervalo: 0-1.

Marcadores: 0-1, Sadio Mané, 28 minutos; 0-2, Mohamed Salah, 65; 1-2, Éder Militão, 69; 1-3, Roberto Firmino, 77 e 1-4, Virgil van Dijk, 84.

FC Porto: Casillas, Éder Militão, Felipe, Pepe, Alex Telles, Corona (Fernando Andrade, 78), Danilo, Herrera, Brahimi (Bruno Costa, 81), Otávio (Soares, 45) e Marega.

Treinador: Sérgio Conceição.

Liverpool: Alisson, Alexander-Arnold (Joe Gomez, 66), Matip, Van Dijk, Robertson (Henderson, 71), Fabinho, Milner, Wijnaldum, Mané, Salah e Origi (Firmino, 45).

Treinador: Jürgen Klopp.

Árbitro: Danny Makkelie (Holanda).

Ação disciplinar: Cartão amarelo para Sadio Mané (31) e Pepe (36).

Assistência: 49.117 espetadores.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...