Rui Pinto: "Não terei um julgamento justo em Portugal. A máfia do futebol está em todo o lado"

Hacker português deu a primeira entrevista pública onde revela o que o levou a criar o Football Leaks e a razão pela qual tinha tantos documentos sobre Cristiano Ronaldo.

Rui Pinto, o hacker detido na Hungria por suspeitas de crimes de extorsão qualificada na forma tentada, acesso ilegítimo, ofensa a pessoa coletiva e violação de segredo, deu a primeira entrevista pública onde assume estar ligado ao Football Leaks e ter tido acesso ilegítimo a mais de 70 milhões de documentos ligados ao mundo de futebol. O pirata informático foi entrevistado durante dois dias por um jornalista da revista alemã Der Spiegel - que publica a entrevista - mas também por um jornalista do site de investigação francês Mediapart - que também publica o artigo no seu site - e um jornalista da estação pública alemã, a NDR.

O português, de 30 anos, que se encontra em prisão domiciliária em Budapeste, falou sobre a sua vida no anonimato. Durante a entrevista assumiu o seu nome de hacker, "John", e é assim que é chamado no início do artigo, onde também é descrito como "o homem que abalou severamente o negócio de futebol nos últimos três anos".

Os documentos - mais de 70 milhões - a que Rui Pinto teve acesso foram passados à revista alemã, que os partilhou com a rede de de investigação European Investigative Collaborations (EIC), naquela que é considerada a maior fuga de informação de sempre.

O hacker enfrenta agora a possibilidade de ser extraditado para Portugal, o que os seus advogados - e são três - estão a tentar evitar a todo o custo.

"Tenho medo de que se puser os pés numa prisão portuguesa, não saia de lá vivo"

Nesta entrevista, Rui Pinto garante ter a certeza de que não terá "um julgamento justo em Portugal". "O sistema judicial português não é inteiramente independente; existem muitos interesses escondidos. Claro que há procuradores e juízes que levam o seu trabalho a sério. Mas a máfia do futebol está em todo o lado. Querem passar a mensagem que ninguém se deve meter com eles", responde, quando questionado sobre a sua recusa em ser extraditado para Portugal.

Diz mais: "Estou nervoso porque sou alvo de ataques, principalmente pelos adeptos do Benfica. Desde o outono passado que tenho recebido ameaças de morte no Facebook. Quando me encontrei com investigadores franceses, mostrei-lhes isso. Eles disseram-me que as ameaças devem ser levadas muito a sério. Tenho medo de que se puser os pés numa prisão portuguesa, especialmente em Lisboa, não saia de lá vivo", afirmou.

Em entrevista exclusiva ao Diário de Notícias, um dos advogados de Rui Pinto, William Bourdon, já tinha afirmado que a extradição era um risco para o português. "Estamos preocupados que esses documentos não sirvam para as investigações que têm de ser feitas contra o mundo criminal que salta à vista dos Footbal Leaks - não só em Portugal mas crucialmente em Portugal. E que os documentos sejam apenas usados para atingir o meu cliente", disse Bourdon ao DN.

Rui Pinto está preso no seu próprio apartamento, em Budapeste, - "minúsculo, um quarto e meio, com uma cozinha estreita e um WC apertado. Uma cama frágil fica ao lado do sofá na sala de estar", descreve a Spiegel. Os pais do português - terá sido a viagem destes que acelerou a detenção de Rui Pinto, uma vez que foram seguidos pela polícia - continuam na Hungria, para dar "apoio emocional" ao pirata informático.

O português é tratado como um whistleblower (denunciante) e as perguntas são diretas. Quando questionado se é um hacker, afirma que não, que é apenas "um cidadão que agiu em nome do interesse público. A minha única intenção era revelar práticas ilícitas que afetam o mundo do futebol", descreve.

"Ao longo dos anos, o Parlamento Europeu, os meios de comunicação em toda a Europa e muitas autoridades de investigação examinaram os meus dados. Estou convencido de que o que fiz foi a coisa certa", assume.

Sobre a forma como terá conseguido obter mais de 70 milhões de documentos confidenciais sobre a indústria internacional de futebol, diz que iniciou "um movimento espontâneo de revelações sobre a indústria do futebol", mas que não é o único. "Ao longo do tempo, mais e novas fontes de informação foram aparecendo e partilhando material comigo e a base de dados foi crescendo", explica,

Sobre o mandado europeu emitido pelo Ministério Público português em seu nome e que levou à sua detenção sobe acusação de cibercrime [Relacionado com o Sporting e com a publicação de emails confidenciais em 2015] diz estar pronto para contar a sua versão da história. "Estou pronto para explicar isso às autoridades judiciais quando for a altura certa, mas nego essa descrição das coisas", garante.

Tal como os seus advogados têm afirmado desde a detenção, Rui Pinto nega ter chantageado a Doyen Sports. Explica que pediu dinheiro para perceber qual o poder que teriam as informações que tinha : "Achei que conseguia descobrir isso se soubesse o quanto a Doyen estava disposta a pagar pelo meu silêncio. Nunca foi minha intenção aceitar o dinheiro", afirma.

Em relação a esta tentativa de extorsão, que nega, admite que aquilo que fez foi "muito ingénuo" e que está arrependido. "Mas repito, nego ter cometido qualquer crime", sublinha. Mais à frente voltaria a negar categoricamente alguma vez ter ganho dinheiro por ter acesso a informação confidencial relacionado com crimes praticados no mundo do futebol. "Não, nunca", responde aos jornalistas.

Mas terá recebido "várias" ofertas de dinheiro para revelar dados a que tinha tido acesso. Terá declinado uma proposta para receber mais de meio milhão de euros. "Nunca agi com o propósito de ganhar dinheiro, mas sim com base no interesse público", afirma.

Football Leaks: nasceu devido ao escândalo da FIFA em 2015

A entrevista foca ainda as suspeitas de ter passado ao FC Porto e-mails incriminatórios do Benfica, mas Pinto recorda que as autoridades não o estão a acusar de qualquer envolvimento nesse caso, mas que foi essa a história que lhe "mudou a vida",: "A minha fotografia estava nas primeiras páginas dos jornais por todo o país. A minha conta de Facebook e o meu e-mail foram inundados com ameaças de morte".

Os três jornalistas que entrevistaram pela primeira vez Rui Pinto esmiuçaram todas as histórias que se contam sobre o pirata informático. Como a de que teria roubado 300 mil dólares dovCaledonian Bank, situado nas Ilhas Caimão. Pinto garante que "essa não é a verdadeira história", a qual não pode contar por ter assinado "um contrato de confidencialidade com o banco". E esclarece: "O meu registo criminal está limpo até hoje, em Portugal e em qualquer parte do mundo".

Terá investigado o Caledonian Bank - assim o explica - devido à falência de vários bancos em Portugal. "Quis perceber melhor o que se passava. Quis perceber o sistema das offshore", diz, até porque os dados que recolheu "têm um potencial semelhante aos dos Panamá [Papers]. Mostra como as Ilhas Cayman foram sistematicamente usadas para lavagem de dinheiro e evasão fiscal", afirma.

"Comportamento de Ronaldo fora de campo precisa de ser julgado"

O português assume-se como "fanático por futebol desde criança" e que o escândalo da FIFA em 2015 foi o que o levou a fundar a Football Leaks. "Além de todas as detenções que foram feitas na FIFA, vi que havia irregularidades em muitas transferências dentro de Portugal. Que mais e mais investidores invadiam o mercado. Comecei a recolher dados", conta. E desde então que, revela, foi recebendo contactos de várias autoridades: alemãs, francesas e inglesas - as últimas queriam saber o seu nome e onde morava: "Isto é de loucos para um whistleblower que quer manter-se anónimo; claro que não respondi. Na altura não tinha advogados. Precisava de tempo e de uma estratégia que garantisse a minha segurança. Naquela altura, o pedido mais credível veio de França.

No entanto, acusa as autoridades de investigação de crimes relacionados com o mundo do futebol de o terem "dececionado", mas que não se compara aos conhecidoswhistleblowersEdward Snowden, Julian Assange e Antoine Deltour. "Não fiz tudo isto para o meu ego, não preciso dessa atenção. Nunca o fiz para me tornar o maior denunciante do mundo, mas para expor o maior número possível de irregularidades".

A Bio de Rui Pinto:

A entrevista explora ainda o lado mais pessoal do pirata informático português. Rui Pinto revela que é de Vila Nova de Gaia e que é órfão de mãe desde os 11 anos, "ela morreu de cancro, foi uma época difícil", e que o pai é reformado, mas que foi designer de sapatos durante 30 anos.

Conta ainda que já sabia ler e escrever aos quatro anos - terá aprendido a fazê-lo enquanto assistia... futebol. Jogou futsal, no liceu era um "rebelde" e, por isso, "muito popular". Explicou que conheceu Budapeste quando estudava História na Universidade e fez Erasmus. Encantou-se pela cidade, onde moram os amigos e a namorada.

Aos jornalistas que o entrevistaram, disse que na capital húngara também encontrou uma possibilidade de negócio em antiguidades, como a venda de livros, mas principalmente posters que compra por "um ou dois euros" e que alega conseguir vender "por 150 euros ou mais". "Gostava de ficar em Budapeste para sempre", disse ainda Rui Pinto.

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