O jogo de futebol mais longo da história demorou dois meses

Quem diz que a final da Taça Libertadores foi a mais longa de sempre é porque não se lembra de um jogo da III Divisão espanhola em 1977

Quase um mês passou entre a primeira mão da final da Taça Libertadores entre o Boca Juniors e o River Plate e a segunda partida, que se realizou este domingo, em Madrid, que atribuiu finalmente o título de campeão da América do Sul aos millionarios.

Mas já este ano houve um jogo da Liga portuguesa que durou um mês e seis dias. Foi o Estoril-FC Porto que no dia 15 de janeiro foi interrompido ao intervalo devido à falta de segurança de uma bancada, com os canarinhos em vantagem, tendo sido retomada a 21 de fevereiro, com os dragões a acabarem por vencer por 3-1.

Há, no entanto, um caso mais inacreditável em 1977. Um jogo da III Divisão espanhola durou... dois meses! Isso mesmo. Espanha vivia o processo de Transição, com o final da ditadura de Francisco Franco e a restauração da democracia, que mergulhava o país numa grande instabilidade devido aos vários assassinatos e atentados terroristas.

Para o dia 23 de janeiro de 1977 estava marcado na localidade cantábrica de Laredo, em jogo entre a equipa local e o Getxo. Só que a partida teve de mudada de estádio porque dias antes houve uma invasão de campo dos adeptos naquele recinto, que foi interditado. O estádio do Racing Santander recebeu então essa partida que podia ser decisiva para a entrada na II Divisão B que estava a ser criada para a época seguinte.

O jogo decorreu sem grandes emoções, sem golos e tudo se conjugava que seriam 90 minutos sem história. Só que aos 83 minutos, o árbitro assinalou penálti a favor do Getxo a punir uma mão na bola. Gerou-se a confusão total. Os jogadores foram para cima do juiz e na bancada os adeptos da casa ficaram loucos. No meio de toda a confusão, o árbitro expulsou o capitão do Laredo e, após alguns minutos, lá se avançou para a marcação do penálti.

Gonzalo, jogador do Getxo, colocou a bola na marca, mas o remate saiu para fora. Só que o árbitro mandou repetir o penálti, alegando que alguns jogadores do Laredo tinham entrado na área antes do tempo. Instalou-se o caos. Os adeptos da equipa da casa invadiram o campo e no meio da confusão gerada agrediram mesmo o juiz da partida.

O jogo foi então suspenso, com 68 segundos para serem jogados. A justiça desportiva ordenou depois que a partida fosse reiniciada no momento em que foi interrompida, ou seja na marcação do penálti, e aplicaram uma multa ao Laredo, que viu outra vez o estádio interditado.

Por causa da instabilidade política que se vivia em Espanha, sobretudo com o rapto do general Villaescusa, um dos homens fortes da ditadura, e com a denominada matança de Atocha, onde foram assassinados cinco advogados, o que restava do jogo lá foi agendado para 23 de março... dois meses depois de ter sido suspenso. E tudo porque o Estádio San Mamés, em Bilbau, fora o escolhido para realizar o resto do jogo mas estava fechado precisamente devido à instabilidade política.

E a 23 março, o San Mamés lá abriu as portas às equipas porque não foi permitida a entrada de público. A televisão espanhola mobilizou meios para a transmissão deste jogo singular. E quem diz que a história não se repete tem aqui um episódio que demonstra o contrário. Fernando López foi desta vez o escolhido para marcar o penálti do Getxo, mas o remate foi... para fora. Só que, mais uma vez, o árbitro voltou a ordenar a sua repetição, tal como dois meses antes.

Na repetição, López lá fez o golo que permitiu ao Getxo vencer a partida. Sem público nas bancadas, não se registaram tumultos, mas um vice-presidente do Laredo, José Luis Alonso, deixou bem claro a revolta que tomou conta do clube: "Foi um assalto à mão armada."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG