O Japão escondeu casos de covid-19 para segurar Jogos Olímpicos?

Depois do anúncio do adiamento, casos em Tóquio dispararam, o governo começou a pedir às pessoas para ficarem em casa e equacionou até isolar a cidade.

No dia 24 de março, quando foi anunciado que os Jogos Olímpicos iriam mesmo ser adiados até ao verão de 2021, o número de casos de covid-19 no Japão era residual. O país parecia ter conseguido conter o contágio, embora nos países vizinhos o número de casos de infeção pelo novo coronavírus continuasse a crescer.

De um dia para o outro, ou melhor, após o anúncio de que os JO iriam ser adiados, os casos de covid-19 em Tóquio dispararam, o que levou a suspeitas de que a verdadeira escala de contágio teria sido ocultada para que as provas olímpicas pudessem iniciar-se a 24 de julho, como programado.

Depois de 24 de março, a governadora de Tóquio começou a pedir às pessoas para ficarem em casa e equacionou isolar a cidade.

"Para causar a impressão de que a cidade estava a controlar o coronavírus, Tóquio evitou fazer pedidos rígidos [como o isolamento social] e fez o número de doentes parecer menor", escreveu o ex-primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama num tweet.

"O coronavírus espalhou-se enquanto eles esperavam. (Para a governadora de Tóquio, Yuriko Koike), as Olimpíadas estavam primeiro, não os moradores de Tóquio", acrescentou Hatoyama, segundo a revista Time. ​​​

De passeios para ver as cerejeiras ao isolamento social repentino

No sábado, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, confirmou que o país estava prestes a conhecer um boom no número de casos em Tóquio, bem como em Osaka e noutras áreas urbanas, o que eram sinais de um aumento explosivo no número de infeções.

Shinzo Abe disse que ainda não era necessário declarar o Estado de Emergência para o Japão, mas que o país caminha a passos largos para uma situação idêntica à dos EUA e Europa.

Assim que foi anunciado o adiamento dos Jogos Olímpicos, tudo mudou no país. Se no fim de semana anterior os japoneses tinham ido passear para assistir ao espetáculo das cerejeiras em flor, foi-lhes pedido depois que nos fins de semana seguintes ficassem em casa.

Em apenas 24 horas, já havia 41 casos de covid-19 confirmados em Tóquio, quando no início da semana eram apenas 16. No sábado, novo recorde: Tóquio registou 63 novos casos da doença.

"É só uma coincidência?", questionou Maiko Tajima, um deputado da oposição Do Partido Democrático Constitucional do Japão, durante uma sessão parlamentar na quarta-feira passada, referindo-se ao aumento repentino de novos casos em Tóquio.

O ministro da Saúde, Katsunobu Katu, negou no entanto que existisse qualquer relação entre o adiamento dos JO e o aumento dos casos. O primeiro-ministro japonês citou especialistas e afirmou que o aumento dos casos se devia a pessoas que trouxeram a doença do exterior. Mas não deixou de alertar os japoneses para se prepararem para "uma longa batalha".

Entretanto, o Japão promulgou uma lei que permite decretar o Estado de Emergência só para zonas específicas, como Tóquio.

Até agora, a estratégia do país para lidar com o surto tem sido focar-se em clusters - zonas onde o contágio está identificado - e determinar as cadeias de transmissão, em vez de testar os habitantes.

De 18 de fevereiro a 27 de março, o Japão testou 50 mil pessoas, uma média diária de 1270 testes. Houve apenas um ligeiro aumento dos testes na semana passada.

Em Tóquio, menos de dois por cento dos que procuraram aconselhamento sobre covid-19 na linha direta criada pelo governo, foram testados, segundo dados do Ministério da Saúde japonês. Em meados de março, a Coreia do Sul já tinha testado 250 mil habitantes.

Esta terça-feira, 31 de março, o Japão tem contabilizados 1953 casos de covid-19 e 56 mortes devido à doença.

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