"É surreal. Sonhamos com este tipo de corrida". Miguel Oliveira vence GP de Portugal. Festa só com equipa e família

Piloto português acabou da melhor forma a segunda temporada na MotoGP: com uma vitória em casa, em Portimão, antes de se mudar para a equipa oficial da KTM. No próximo ano, os horizontes alargam-se. O título? Com Miguel Oliveira, não parece haver impossíveis

Foi um fecho de ouro para Miguel Oliveira. Na última corrida do Mundial de Moto GP 2020, na última corrida com a equipa Tech 3 antes do salto para a equipa oficial da KTM, na primeira corrida em Portugal, neste regresso atípico da competição rainha do motociclismo ao nosso país, Miguel Oliveira acelerou para a história.

Faltou o público, nestes atribulados tempos pandémicos, mas não faltou o sentimento de apoio que o piloto português recebeu de norte a sul e se multiplicaria logo depois em reações de felicitação à "extraordinária vitória" de Miguel Oliveira (palavras do Presidente da República), num momento de "orgulho para o desporto português" (palavras do primeiro-ministro).

"É surreal. Sonhamos com este tipo de corridas. É incrível. Não tenho palavras", disse o piloto de Almada na flash interview após a corrida.

Um fecho de sonho na época que lançou definitivamente o nome de Miguel Oliveira entre a elite da MotoGP, depois de um primeiro ano de rookie em 2019. A vitória em Portimão já não foi a primeira do português na categoria rainha, recorde-se, depois de Miguel Oliveira ter inscrito o seu nome entre a lista história de vencedores em agosto passado, no Grande Prémio da Estíria. Mas esta foi "extra especial", claro está, por ser em casa.

"É o adeus, mas foi um grande dia. É extra especial, porque a minha família não teve oportunidade de ver ao vivo a minha primeira vitória e estão todos aqui. É muito bom acabar a época em alta", concluiu Miguel Oliveira, que quis expressar a sua "gratidão aos fãs em casa e à equipa Tech3", da qual se despede, seguindo então na próxima época para a formação oficial da KTM.

O ano de afirmação

A atípica temporada de 2020 trouxe a afirmação de Miguel Oliveira na MotoGP, com as suas primeiras duas vitórias (que são também os seus dois primeiros pódios) e a sua primeira pole-position, também em Portimão, neste fim-de-semana em que dominou a corrida portuguesa de início a fim.

Mas nem tudo foram flores. Pelo contrário, antes da glória, o piloto português passou por momentos complicados, sobreudo aquele que teve com o espanhol Pol Espargaró, piloto da equipa oficial da KTM, no GP da Áustria, quando um choque com o espanhol em pista impediu Oliveira de lutar por aquele que seria, na altura, o seu primeiro pódio.

Na semana seguinte, no entanto, tudo começou a mudar. Talvez até motivado pelo "azar" na corrida austríaca, Miguel Oliveira venceu o Grande Prémio da Estíria com uma última volta épica, ultrapassando na última curva não só o espanhol com quem tinha tido uma semana de picardias como também o norte-americano Jack Miller, quando ambos pensavam estar a lutar somente entre eles pelo triunfo.

Oliveira subiu ao lugar mais alto do pódio e, ali, tudo começava a fazer sentido. Para trás ficava a desentendimento com Espargaró, a "injustiça" de ter sido preterido pelo sul-africano Brad Binder na subida à equipa principal da KTM no início do ano e até um casamento adiado (estava agendado para julho) devido às novas datas de uma época rearranjada para fazer face às limitações da pandemia.

A partir daí, Oliveira somou ainda três sextos lugares e dois quintos até chegar ao palco sonhado: Portimão, na última corrida do ano. Sem público, devido à evolução da pandemia em Portugal (e ao mau exemplo que tinha sido deixado no GP de Fórmula 1), mas com todos os restantes ingredientes para cumpriri o sonho do piloto de Almada: subir ao lugar mais alto do pódio, em "casa".

Futuro como líder da KTM?

A partir da próxima temporada, Miguel Oliveira sentar-se-á numa mota da equipa de fábrica da KTM e os horizontes podem projetar-se um pouco mais além. No título, quem sabe? Para já, abre-se a perspetiva de o português se tornar no chefe de fila, ou piloto principal, da equipa da marca austríaca. É o próprio diretor da KTM quem o assume:

"Estou particularmente feliz pelo Miguel Oliveira, porque ele será o piloto que ficará connosco no próximo ano e estará ao lado do Brad Binder na equipa de fábrica. Precisamos de um novo chefe de fila para 2021 e creio que o Miguel com esta performance se tornou num forte candidato. Estou também feliz pelo Hervé Poncharal [diretor da Tch 3], pois tornaram-se numa equipa fantástica em apenas dois anos", elogiou Beirer, em declarações à Servus TV.

Ora, Hervé Poncharal, o chefe da Tech3, é que não escondia os sentimentos mistos: "Estamos muito felizes pela vitória mas também por termos dado ao Miguel a possibilidade de vencer aqui. Sei que era muito importante para ele. Foi um fim de semana perfeito: um tempo fantástico, o circuito, a vitória, a pole position, o recorde da pista. Não podíamos ter pedido mais. A única coisa que me deixa triste é o Miguel ir para outra equipa, mas foi muito bom..."

"Orgulho nacional"

O piloto luso gastou 41.48,163 minutos para cumprir as 25 voltas ao traçado algarvio, deixando o australiano Jack Miller (Ducati) na segunda posição, a 3,193 segundos, e o italiano Franco Morbidelli (Yamaha) em terceiro, a 3,298 segundos, somando a segunda vitória da temporada.

Com estes resultados, Miguel Oliveira subiu à nona posição de um campeonato ganho pelo espanhol Joan Mir (Suzuki), que em Portimão desistiu com problemas mecânicos na sua mota, sagrando-se campeão com apenas uma vitória esta época, enquanto a Ducati venceu o campeonato de construtores.

O Presidente da República deu os parabéns a Miguel Oliveira pela sua vitória no Grande Prémio de Portugal, considerando que representou uma alegria para os portugueses em tempos de sacrifício.

Numa mensagem transmitida à agência Lusa, Marcelo Rebelo de Sousa deu os parabéns ao piloto de Almada "pela sua extraordinária vitória de hoje, em Portimão, em Portugal", felicitando também todos os portugueses "por este momento de alegria no meio de tantos meses de sacrifício e de sofrimento".

"O desporto português, desta vez no motociclismo, demonstra ser do melhor do mundo. O Presidente da República agradece ao nosso campeão nesta prova tão simbólica o contributo que deu e dá para o reforço da vontade de triunfar em tantos outros domínios da vida nacional", acrescentou o chefe de Estado.

Também António Costa felicitou Miguel Oliveira, considerando que representou "um orgulho" para o desporto português.

"Parabéns ao Miguel Oliveira, que venceu hoje o Grande Prémio de Portugal. Uma grande prova e um orgulho para o desporto português no regresso do MotoGP ao nosso país", escreveu o primeiro-ministro na sua conta pessoal na rede social Twitter.

Festa com a equipa e família

A vitória do piloto português acabou por ser celebrada apenas com a equipa e com a família no interior de um circuito sem público devido às restrições impostas na sequência da pandemia.

No exterior do autódromo, a vitória foi celebrada pelos funcionários posicionados junto à entrada do complexo, numa área sem movimento, sendo apenas visível a presença reforçada de militares da GNR.

A GNR destacou para o local várias equipas, que, ao longo do fim de semana, impediram a passagem de pessoas, condicionando o trânsito em todas as vias rodoviárias com acesso ao autódromo.

Através de patrulhas a cavalo, os militares estenderam a vigilância às zonas rurais nas imediações, para evitar que as pessoas se fixassem em pontos altos com visibilidade para a pista do circuito.

Portimão, onde está situado o autódromo, é um dos 191 municípios do país que integra a lista de concelhos de risco relativamente à pandemia de covid-19 e que está sob recolher obrigatório no âmbito do estado de emergência.

Uma fonte daquela força disse à Lusa que não se verificaram problemas, até porque o trânsito foi quase inexistente durante os dias de sábado e de hoje, também devido às restrições em vigor no concelho

Lista dos vencedores do Grande Prémio de Portugal de MotoGP, do Mundial de motociclismo de velocidade:

2020: Miguel Oliveira (Por), KTM

2012: Casey Stoner (Aus), Honda

2011: Dani Pedrosa (Esp), Honda

2010: Jorge Lorenzo (Esp), Yamaha

2009: Jorge Lorenzo (Esp), Yamaha

2008: Jorge Lorenzo (Esp), Yamaha

2007: Valentino Rossi (Ita), Yamaha

2006: Toni Elias (Esp), Honda

2005: Alex Barros (Bra), Honda

2004: Valentino Rossi (Ita), Yamaha

2003: Valentino Rossi (Ita), Yamaha

2002: Valentino Rossi (Ita), Yamaha

2001: Valentino Rossi (Ita), Honda

2000: Garry McCoy (Aus), Yamaha

1987: Eddie Lawson (EUA), Yamaha

- 'Ranking' por piloto:

1. Valentino Rossi (Ita) 5 vitórias

2. Jorge Lorenzo (Esp) 3

3. Eddie Lawson (EUA) 1

4. Garry McCoy (Aus) 1

Alex Barros (Bra) 1

Toni Elias (Esp) 1

Dani Pedrosa (Esp) 1

Casey Stoner (Aus) 1

Miguel Oliveira (Por) 1

NOTA: As corridas entre 2000 e 2012 foram disputadas no autódromo do Estoril, a de 1987 no circuito de Jarama, em Espanha, e a de 2020 em Portimão

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