Krasnodar. O que vale o clube do patrão dos supermercados da Rússia que vai defrontar o FC Porto

A equipa russa é o primeiro obstáculo do FC Porto rumo à fase de grupos da Champions e a um bolo de 44 milhões de euros. Fundado apenas em 2008, tem como presidente um magnata cujos modelos são Alex Ferguson e Steve Jobs. Márcio Abreu, que representou o Krasnodar, fala sobre o clube.

O FC Porto começa nesta quarta-feira (18.00, SportTV1) a caminhada rumo à entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões e ao acesso a um jackpot de 44 milhões de euros. Em virtude do segundo lugar no último campeonato, os dragões terão de passar duas eliminatórias. O primeiro adversário é o Krasnodar, da Rússia, com quem o FC Porto joga já nesta quarta-feira a primeira-mão (a segunda será no dia 7). E depois, se passar, a equipa de Sérgio Conceição (está castigado e por isso não vai estar no banco) terá ainda de ultrapassar um play-off com o vencedor do jogo entre o Olympiacos de Pedro Martins e o Istambul BB, da Turquia.

Além do prestígio em termos desportivos, a entrada na fase de grupos da Champions é um grande aliciante financeiro, pois permitirá ao FC Porto embolsar desde logo 44,058 milhões de euros (15,25 milhões pela entrada na fase de grupos e mais 28.808 milhões pelo lugar que ocupa no ranking de clubes da UEFA). Caso os dragões não consigam chegar à Liga dos Campeões, caem automaticamente para a Liga Europa, e aqui o valor reduz drasticamente, pois o prémio de presença é de apenas cinco milhões.

O FC Porto vai defrontar um Krasnodar que ganhou por direito próprio o direito de discutir um lugar na Liga dos Campeões fruto do terceiro lugar assegurado no campeonato russo na época passada, logo atrás do campeão Zenit e do Lokomotiv de Moscovo, e à frente de CSKA e Spartak. E por pouco não teve entrada direta na Champions, pois terminou com os mesmos pontos do Lokomotiv, mas com um goal-average inferior.

O Krasnodar começou esta temporada mais cedo do que o FC Porto, com o campeonato russo já com quatro jornadas cumpridas. A equipa é atualmente oitava classificada, com sete pontos, mas no último fim de semana deixou boas indicações ao empatar em casa a um golo com o campeão Zenit. Nesta época, o clube reforçou-se com jogadores como o francês Rémy Cabella (ex-Saint-Étienne), Tonny Vilhena (ex-Feyenoord), Kaio Pantaleão (ex-Santa Clara) e Namli (ex-Zwolle).

"Em termos de campeonato russo, o Krasnodar é uma equipa forte. E pelo que sei estão num bom momento, ainda há dias empataram com o campeão Zenit. Acho que o FC Porto, sobretudo neste primeiro jogo fora, pode sentir algumas dificuldades. Mas considero que são favoritos a passar a eliminatória. O FC Porto é uma equipa com mais história e experiência nesta prova. O Krasnodar é a primeira vez que vai jogar numa ronda da Champions, que é o sonho do presidente", referiu ao DN Márcio Abreu, 39 anos, antigo jogador do emblema russo entre 2011 e 2014, que apesar de dar o favoritismo à equipa portuguesa diz que o Krasnodar "tem a seu favor o facto de estar há mais tempo em competição".

Apesar de já não representar o clube há alguns anos, Márcio, que atualmente joga no 1.º de Maio do Funchal, segue regularmente o emblema russo. "Destaco sobretudo o Ari, o avançado, com quem cheguei a jogar. É um atacante que segura bem a bola, finaliza bem e é forte no jogo aéreo. Depois tem no meio-campo o Wanderson e o Claesson, que julgo que está lesionado. Gosto também dos dois centrais e agora contrataram um jogador ao Feyenoord [Vilhena] que também tem qualidade. Mas valem pelo coletivo", analisou.

Presidente milionário que aposta na academia

A equipa russa é relativamente recente - foi fundada em 2008 - e tem uma história curiosa, pois foi subindo sempre de divisão até ao escalão principal sem recurso aos resultados desportivos. Na primeira época terminou em terceiro lugar o campeonato da III Divisão, mas como dois clubes desceram na II Liga por não terem condições financeiras, o Krasnodar subiu de escalão. Na temporada imediatamente voltou a beneficiar do mesmo mal - o FC Moscovo faliu e o Krasnodar chegou ao principal escalão do futebol russo.

O clube é presidido por Sergey Galitsky, magnata que tem uma das maiores fortunas do país e é dono da maior cadeia de supermercados da Rússia, a Magnit. Galitsky é um visionário, que construiu um clube de raiz à sua imagem e que tem como modelo no futebol Alex Ferguson e nos negócios Steve Jobs - chegou a confessar numa entrevista que o único livro que leu mais do que uma vez nos últimos 30 anos foi a biografia do fundador da Apple.

Galitsky não foi na mesma onda de outros magnatas russos que adquiriram clubes e desataram a contratar nomes sonantes como Roberto Carlos ou Samuel Eto'o. Pelo contrário! Construiu uma das maiores academias de futebol da Rússia e montou equipas secundárias (tem uma em cada divisão), onde os jovens são acompanhados a todos os níveis, estudos incluídos. Em 2016 inaugurou um estádio moderno, com capacidade para 35.000 espectadores, dispensando de vez o empréstimo do estádio do clube vizinho, o Kuban.

"Sim, é um clube com uma política diferente. Não conheço bem a realidade das outras equipas russas, pois só representei o Krasnodar. Mas o presidente é de facto excelente, um homem com cabeça que faz as coisas com paixão. O clube se quisesse tinha dinheiro para investir em nomes sonantes, mas ele dá muita importância aos jovens e à academia. É uma academia cheia de miúdos e ele vai lá muitas vezes jogar xadrez com eles. Está muito presente", conta Márcio Abreu, que nesta quarta-feira já sabe por quem vai torcer: "Sou português e até simpatizo com o FC Porto, mas como joguei lá e fui muito bem tratado gostava que o Krasnodar ganhasse. Mas como já disse, simpatizo com o FC Porto e por isso ficarei contente passe quem passar."

Os resultados estão à vista. Apesar de não ter conquistado qualquer título, o Krasnodar já participou em cinco edições da Liga Europa (o ano passado atingiu os oitavos de final), chegou à final da Taça da Rússia em 2013-14 (perdeu nos penáltis) e na época passada conseguiu um terceiro lugar no campeonato, que lhe permitiu estar a disputar as rondas preliminares de acesso à Liga dos Campeões.

FC Porto feliz com russos e em rondas preliminares

O FC Porto vai defrontar pela primeira vez o Krasnodar, mas nos confrontos anteriores com equipas russas nas provas europeias tem um saldo bastante positivo. Em 14 jogos diante de emblemas russos, o FC Porto apenas perdeu duas vezes, ambas frente ao Zenit, que impôs ainda dois dos quatro empates dos vice-campeões lusos. Na Rússia, onde jogam nesta quarta-feira, os dragões conseguiram cinco vitórias, cedendo um empate e uma derrota, ambos com a equipa de São Petersburgo.

O primeiro confronto do FC Porto frente a equipas russas aconteceu em 2004/05, quando os dragões, então na condição de campeões europeus, empataram em casa com o CSKA Moscovo (0-0), que viria a vencer a Taça UEFA nesse ano, e venceram na Rússia por 1-0. Duas temporadas depois, as duas equipas reencontraram-se novamente na fase de grupos da Liga dos Campeões e com novo empate a zero no Dragão e triunfo português por 2-0 em Moscovo.

Na caminhada para o triunfo na Liga Europa de 2011, os dragões afastaram duas equipas russas, novamente o CSKA (1-0 fora e 2-1 em casa), nos oitavos de final, e depois o Spartak de Moscovo (5-1 em casa e 5-2 fora) nos quartos-de-final. Seguiram-se quatro confrontos com o Zenit na fase de grupos da Champions, sem que os dragões conseguissem qualquer triunfo, perdendo na Rússia, por 3-1, e empatando em casa a zero, em 2011/12. Em 2013/14, o Zenit triunfou no Dragão, por 1-0, e cedeu um empate 1-1 em casa. Na última temporada, naquela que foi a sua melhor prestação numa fase de grupos da Liga dos Campeões, o FC Porto conseguiu dois triunfos sobre o Lokomotiv Moscovo, por 3-1, na Rússia, e por 4-1 em casa.

Há mais fatores favoráveis ao FC Porto nesta caminhada rumo à Champions - em rondas preliminares, o clube português apenas foi eliminado uma vez em nove ocasiões, na época 2000/01, quando, depois de perder em Bruxelas, por 1-0, foi incapaz de dar a volta ao Anderlecht, empatando a zero no Estádio das Antas. A última vez que o FC Porto teve de passar uma pré-eliminatória na Champions aconteceu há três temporadas, no play-off, frente à Roma, com uma igualdade 1-1 em casa, mas um triunfo por 3-1 em Itália que permitiu à equipa seguir em frente.

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