José Peseiro, o regresso a um lugar onde foi quase feliz

O treinador regressa a Alvalade treze anos depois

"Nunca se deve voltar a um lugar onde se foi feliz", esta é uma daquelas frases feitas que para uns é uma verdade incontestável, e para outros apenas um conjunto de palavras sem sentido.

Ao longo dos seus 26 anos de carreira como treinador, José Peseiro teve o condão de quase nunca voltar a um clube onde já estivesse estado. Entre Portugal, Espanha, Arábia Saudita, Roménia, Egito e Emirados Árabes Unidos, repetiram-se países neste seu trajeto, e só por uma vez se repetiu um clube: Sporting de Braga. E quando o fez, a estada foi curta e sem grande história para contar. Agora, Peseiro volta a outro Sporting para provar que, mesmo nas condições atuais que o clube atravessa, poderá alcançar a sua felicidade e a dos sportinguistas.

Um bom aluno, um mediano jogador

Mas no início de tudo, em Coruche, José Peseiro, era apenas um miúdo, no meio de cinco irmãos que dividia a sua atenção entre o futebol e as touradas, tradição local. Bom aluno, mas mediano jogador, o jovem chegou a ir à experiência para as camadas jovens do Benfica, mas regressou a casa num ápice e por ali fez carreira entre as divisões secundárias.

O futebol era uma paixão e se como jogador nunca chegou longe, tinha a ambição de fazê-lo como treinador, estudando para isso. Licenciou-se em Educação Física, tirou o mestrado em Desporto e foi professor Universitário na Escola Superior de Desporto de Rio Maior.

O que é Nacional, é bom

Foi entre o ensino e os treinos que dividia a sua atenção nos primeiros anos como técnico. Depois de experiências perto de casa com o União de Santarém (1992/94), União de Montemor (19994/96) e Oriental (1996/99), teve o seu maior desafio no Nacional da Madeira. Com um contrato de uma época muda toda a sua vida para a pérola do Atlântico, na verdade, quase toda. Na folga da equipa à segunda-feira, continuava a vir dar as suas aulas pela incerteza que está inerente à vida de um treinador.

Quatro épocas com José Peseiro ao leme, levaram os insulares da Segunda Divisão até à Primeira Liga. O desconhecido treinador passou a estar nas bocas dos portugueses nos radares de outros emblemas.

Real Madrid e a história do "Pesetero"

Tudo muda em 2003/04 com a sua primeira viagem além-fronteiras e logo para ser adjunto no Real Madrid. O convite surge do seu antigo professor Carlos Queiroz, e não havia como dizer que não. Estávamos no reinado de Florentino Pérez e na era dos galáticos. Nos treinos haveria de ouvir gritos de "pesetero". Achava que era apenas a maneira espanhola de gritarem o seu nome, mas de pronto lhe explicaram que era apenas um termo usado para quem só pensa em dinheiro e era na altura dirigido a Makelele por estar num braço de ferro com o presidente.

A experiência teve tanto de bom como de mau porque depressa se precipitou para o fim. Carlos Queiroz é despedido, e José Peseiro segue o mesmo caminho.

Sporting de encantar que ficou pelo quase

E é aqui que entra o primeiro casamento entre o treinador e o Sporting. Fernando Santos durou uma época nos leões e estava de saída. O presidente Dias da Cunha decidiu então apostar num jovem treinador de que tantos falavam e trouxe-o para Alvalade.

José Peseiro, estudioso do futebol, pôs a equipa a jogar com brilho, harmonia. Quem pagava bilhete em Alvalade sabia que o espetáculo era garantido. A classe da equipa espalhou-se fora de portas de eliminatória em eliminatória na Taça Uefa, numa caminhada até à final. Porém aquele que poderia ter sido um ano perfeito, acabou em desgraça numa época que ficou conhecida como a "época do quase". A Taça Uefa foi perdida em Alvalade diante do CSKA de Moscovo com Daniel Carvalho e Vágner Love a assumirem-se como protagonistas. O campeonato também se ficou pelas intenções, com o Benfica a roubar o título aos leões nas últimas jornadas.

Peseiro ainda resistiu até ao ano seguinte, mas os resultados não apareceram e acabou demitido.

A Volta ao Mundo em 13 anos

Iniciava-se então um périplo pelo estrangeiro com Al Hilal, Panathinaikos, Rapid Bucareste e ainda a seleção da Arábia Saudita. O seu regresso a Portugal só acontece com o Sporting de Braga em 2012/13 onde conquista uma Taça da Liga.

Volta a mudar-se de armas e bagagens agora para o Al Wahda dos Emirados Árabes Unidos e depois Al Ahly do Egipto. Não resiste ao convite do FC Porto em 2015/16 que ainda vivia a ressaca Lopetegui. Pegou em janeiro numa equipa moribunda e sem grande rumo e não consegue melhor que o terceiro lugar, o que lhe vale a porta de saída. Volta a Braga sem o sucesso da sua primeira passagem. Segue-se o Al Sharajah dos Emirados Árabes Unidos e, na última época, o Vitória de Guimarães também sem a marca de sucesso.

O regresso a Alvalade

Experiência não falta a José Peseiro nesta sua carreira que já vai longa, mas a aura que se gerou à sua volta nos últimos anos pelos insucessos acumulados no nosso país fazem os sportinguistas franzirem a testa. Caberá ao treinador e ao aficionado agarrar o touro pelos cornos e, quem sabe, no final ser levado em ombros, ou apenas sair pela porta onde entrou.

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