O judoca que quer ser polícia, superou um tumor e sonha ganhar os Jogos Olímpicos

Jorge Fonseca é o novo campeão do Mundo de judo na categoria - 100 Kg. Quer ser recebido em festa.

Jorge Fonseca é campeão do mundo de judo. Tinha o campeonato do Mundo "entalado na garganta" depois de um sétimo lugar conquistado nos anteriores mundiais. No Japão vingou-se e conquistou o título mundial na categoria de -100 kg, ao vencer o russo Niyaz Ilyasov na final da competição, disputada em Tóquio.

O judoca acaba o combate a dançar e é em festa que quer ser recebido. "Quero ser recebido em festa, todo o mundo a dançar e a viver. É isso que eu quero", exclamou o primeiro judoca português a conquistar uma medalha de ouro em Mundiais, em declarações à Lusa, instado a justificar a sua celebração, após o triunfo.

O judoca do Sporting, que nasceu em São Tomé e Príncipe, chegou ao combate decisivo ao derrotar azeri Elmar Gasimov, vice-campeão olímpico no Rio2016 e europeu em 2014, nas meias-finais, por waza-ari, depois de ter superado, nos quartos de final, o georgiano Varlam Liparteliani, por ippon, em 3.15 minutos.

Antes, Jorge Fonseca já tinha derrotado o chileno Thomas Briceno, o indiano Avtar Singh e o irlandês Benjamin Fletcher, assegurando a segunda medalha de Portugal nos Mundiais de 2019, que estão a ser disputados em Tóquio, depois da prata conquistada por Bárbara Timo em -70 kg, na quinta-feira.

"Não consigo imaginar um melhor desempenho para esta competição. Trabalhei bastante para isto e estou muito feliz. Senti-me o melhor judoca do mundo, trabalhei imenso para isto e é um momento muito grande na minha vida. [Ouvir o hino] é uma situação incrível, nunca o tinha ouvido em campeonatos do mundo. Espero voltar a ouvir muitas vezes", declarou após o triunfo que lhe valeu uma vaga nos próximos Jogos Olímpicos, além do ouro mundial.

No sábado, Portugal vai estar representado por Rochele Nunes, em +78 kg, antes do encerramento dos Mundiais, no domingo, com a competição por equipas.

Os primeiros tempos na Damaia, o filho aos 17 anos e um tumor numa perna

Nascido em São Tomé e Príncipe a 30 de outubro de 1992, chegou a Portugal aos 11 anos. Ainda jogou à bola com os outros miúdos na rua, "mas não tinha jeito nenhum"e começou a praticar judo numa escola na Damaia. Foi lá que Pedro Soares do Sporting o seduziu para a modalidade. "O meu treinador, o Pedro Soares, dava aulas na escola da Damaia. Ia olhando pela janela para ver como era, no dia a seguir voltava... Fui começando a gostar. Ainda não era assim nada de especial, mas pedi autorização à minha mãe e fui experimentar. Sabes, eu não era assim, era um bocado gordinho... Comecei a investir no trabalho do meu corpo para ser um grande judoca", recordou em tempos em declarações ao Observador.

Demorou pouco a impor-se, tendo a confirmação chegado em 2013, tendo conquistado o título português de sub-23 e, sido terceiro no Open de Glasgow, quinto no Grande Prémio de Rijeka e terceiro no Open de Bucareste. A 17 de Novembro de 2013, Jorge Fonseca consegue algo de inédito para o judo nacional, ao tornar-se no primeiro atleta masculino português a alcançar o título do Campeão da Europa de Sub-23. Disputou quatro combates até chegar à medalha de ouro e em todos eles conseguiu vencer por ippon.

A vida depois trocou-lhe as voltas. Aos 17 anos foi pai e as prioridades mudaram, mas o judo nunca deixou de fazer parte do seu dia a dia. Treina três horas de manhã e outras três à tarde, domingo folga. "São mais de 30 horas de trabalho para chegarmos a uma prova onde podemos ganhar ou perder em segundos", confessou em tempos o judoca que em 2015 superou um tumor numa perna. "Foi complicado, porque quando fazia os tratamentos estava sempre mal disposto, de cara trancada, e tinha ali ao meu lado o meu filho que me fazia rir. Olhava e sabia que não podia desistir por ele. Chorei sem que ninguém percebesse, mas a verdade é que foi o sorriso de uma criança, da minha criança, que mais me ajudou a superar isto. Cheguei a ir treinar doente na altura dos tratamentos, ficava arrasado, mas quando estava com ele ganhava força. Eu quero ser um exemplo para o meu filho mas ele também já foi para mim", confessou o atleta do Sporting.

Com o tempo consumido pela família e o judo, os estudos foram ficando para trás. Agora quer acabar o 12.ª anos para poder ir para a polícia. Agora está a brilhar no Japão, país onde já foi detido por duas vezes, uma dela por passar a rua fora da passadeira a outra por correr sem camisola na rua. Nada que o faça desistir de lá ir outra vez pelo menos. É que Jorge sonha ganhar os Jogos Olímpicos de Tóquio2020: " Tenho de acreditar que vou conseguir."

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